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Início, meio e fim

Quando se imagina os motivos para se admirar o Batman, um dos mais recorrentes é o fato dele não ter super-poderes e, ainda assim, fazer frente a alguém como o Superman. Um humano em pé de igualdade ou até superando uma criatura de status divino. Treino duro, vários apetrechos úteis e um uniforme feito para provocar medo. Uma fantasia mais plausível, por assim dizer. Conforme se avança nas leituras de Batman, porém, uma outra razão começa a pautar a relação com o personagem: as consequências de uma tragédia e um trauma não superados. Parte de Bruce Wayne morreu ainda criança ao assistir seus pais serem mortos durante um assalto. Quando compreendeu o que queria fazer (ou "o que deveria ser feito") quanto a isso, começou a moldar a figura do morcego. Porém, logo se vê que aterrorizar bandidos não implica necessariamente em acabar com o mal. Então se percebe, nem sempre de maneira muito clara, a diferença entre uma figura justiceira e uma figura heróica: o sacrifício em nome de um bem maior. 

Esta foi uma questão recorrente quando fazia o meu TCC na graduação. Para definir o Batman como um super-herói, era necessário entender antes o que um herói representava. Termo derivado do grego antigo, herói significa um homem com qualidades excepcionais ou ainda autor de grandes façanhas. Interessante observar que, na mitologia grega, muitos heróis eram semideuses e seus grandes feitos contavam com a origem ou proteção divina. Algo além do alcance unicamente do homem, alguém capaz de superar desafios de dimensões épicas. Seria uma interpretação do que concebemos como super-herói atualmente. No dicionário, herói também pode ser compreendido como alguém que tem qualidades nobres ou morais muito positivas. Justamente esse ponto que torna a figura do herói tão prezada por nós. Do bombeiro que se arrisca para salvar vidas em um incêndio até a mãe que trabalha diariamente para garantir o sustento e a educação dos filhos. Dedicação e sacrifício. Isso leva a questionamentos interessantes. Por exemplo, entre uma pessoa normal e outra que é invulnerável a fogo e calor extremo, quem seria mais heróica ao entrar numa casa em chamas para resgatar uma criança? Pensando dessa forma, há muitos heróis na vida cotidiana, lutando por um conceito moral elevado e/ou por alguém. Apenas não chamam a atenção aos encararem seus desafios de cada dia. 

A partir desta perspectiva do que é considerado um herói atualmente, consideramos no TCC que um super-herói é um herói com habilidades sobre-humanas. Batman não tem superpoderes, mas se apresenta como um ser fantástico. Capaz de voar, de derrubar vários homens de uma vez, invulnerável a balas, etc. Porém, mais do que se apresentar como um super-herói, o objetivo de Bruce Wayne era provocar medo nos criminosos. Uma questão que foi perfeitamente compreendida pelos filmes de Christopher Nolan. Batman é um símbolo de justiça aos cidadãos de bem e de terror aos malfeitores. Este é o ponto-chave: um símbolo, algo imaterial, que pode ser adotado por qualquer um que se disponha a acatar seus valores. Incluindo dedicação e o sacrifício.



Em Batman Begins, Bruce Wayne apresenta a Gotham City um símbolo de justiça, construído para combater a decadência da cidade, mesmo que para isso tenha que ir contra suas próprias leis. Em The Dark Knight, Batman percebe que inspirou não somente a luta contra o crime (fato já problemático, pois combater o crime tinha diferentes interpretações para um promotor e para vigilantes armados), mas também pressionou os bandidos a tal ponto de recorrem ao Coringa, uma figura maléfica que ninguém compreende e nem faz questão de ser compreendida, exceto num ponto: quando o caos se instala, todos mostram suas verdadeiras faces e nenhuma delas é bonita de se ver. Tornou-se o exato oposto de Batman que, pela primeira vez, teve noção dos imensos sacrifícios que representava vestir aquela máscara. E que nem sempre o herói que se quer é o mesmo herói que se necessita.

The Dark Knight Rises é o fim do Batman de Christopher Nolan. O que deveria ser o melhor capítulo saiu como inferior aos filmes antecessores. Mas não um filme ruim. Pelo contrário. Há falhas: diálogos ruins ("O Programa Ficha Limpa que faz isso e aquilo e é bom demais pra ser verdade?" "Você é a maldade em pessoa!" "Veja como ele luta, é a Liga das Sombras de volta!"), o fato de uma criança ter descoberto que Wayne é o Batman só de olhar o sorriso ensaiado dele, a personagem Selina Kyle que sensualiza de graça e à toa e parece deslocada com o perigo iminente (o beijo final antes da bomba explodir), algumas dúvidas de roteiro (O prisioneiro alquebrado aprendeu inglês só para dar a dica ao Wayne como escapar do poço? Como Bruce Wayne chegou até Gotham sem dinheiro e como ele entrou na cidade se ela estava vigiada pelo exército? Por que a Miranda/Talia teve que encarar perseguição e tiroteio e até a morte para inundar o reator que desativaria a bomba se ela podia fazer isso muito antes?). Mas a história é muito consistente com o que Nolan mostrou até agora. E isso, no fim, é o que mais importa.


Batman assumiu a culpa por crimes que não cometeu para que, assim, Gotham reagisse ao crime. Funcionou, mas com um preço: Batman não só não é mais necessário como também é odiado pela cidade. E isso é bom, pois o herói representa justamente o perigo que Gotham não consegue combater, ou seja, uma ineficiência da cidade e seus cidadãos. Bruce Wayne aceita o fato, mas não consegue mais viver apenas como bilionário excêntrico, já que este era apenas um disfarce (ressaltado pela cena do baile de máscaras, onde, assim como em Batman Returns de Tim Burton, Bruce aparece de rosto limpo). Tal letargia leva a um dos grandes momentos do filme: Alfred revelando que jamais quis que o patrão voltasse para a cidade porque sabia que significaria que o trauma da morte dos pais assumiu proporções inesperadas e Bruce não conseguiu seguir com a sua vida. Quando Bruce Wayne percebe que Bane pode fazer Batman voltar à ativa, Alfred mostra mais uma vez o quanto é um caminho perigoso e, reconhecendo que aquele trauma jamais seria superado, a preocupação imediata é que ele não morra nas ruas. Para isso, sacrifica a confiança e amizade deles para revelar a verdade sobre Rachel Dawes.  

As cenas com Alfred mostram que Batman não tem apenas mortalidade e falhas de julgamento como características humanas. Suas escolhas, ainda que mirem o bem-estar da população, perturbam profundamente aqueles com quem mantém laços afetivos. O choro de Alfred é uma ilustração de como Batman representa a infelicidade e a nobreza de Bruce Wayne e, sendo a figura paterna dele, ele sinceramente preferiria que o filho fosse feliz. 


Assim como Alfred vislumbrou a natureza caótica do Coringa em The Dark Knight, nesta continuação ele mais uma vez ressalta o perigo que Bane representa: o mal aliado à força de vontade inquebrável. Assim como Batman, Bane também inspira seguidores e consegue calculadamente induzir seus algozes ao terror. Em determinado momento, ele diz "Ninguém se importava com quem eu era, até eu colocar a máscara". Além disso, é capaz de vencer o herói em seu próprio jogo, "você apenas adotou a escuridão. Eu nasci nela, fui moldado por ela" (interessante ver que neste filme Batman aparece pela primeira vez durante o dia, justamente quando ele derrota seu inimigo). Ou seja, Bane é a prova final de Batman: ele é quem provocará mais dor ao seu corpo e ao espírito, quem obstinadamente causará mais angústia a ponto de dar esperanças ao povo de Gotham apenas para aumentar o sofrimento final.  Bane derrotará Batman ou fará ele voltar mais decidido do que nunca a proteger Gotham City.


A partir deste ponto, Batman percebe que era preciso mais do que sacrificar a própria vida pela sua cidade. Era necessário um herói que a motivasse, assim como Harvey Dent o foi. Contudo, se Dent foi uma pessoa de carne e osso, Wayne criou Batman para ser um símbolo que sempre pode ser utilizado (como o bat-sinal restaurado para a surpresa do comissário Gordon). Se a morte de Dent foi confirmada, a de Batman ninguém pode provar. Assim é aberto o caminho para a figura não muito sutil de John Blake/Robin continuar com o legado do Cavaleiro das Trevas. 

Por isso eu enxergo o capítulo final da trilogia como um desfecho satisfatório para a versão de Christopher Nolan. Nas duas vezes que Gotham correu risco de ser exterminada, Batman apareceu, vindo de fora, tendo que superar uma limitação própria (medo para Begins e dor para TDKR, segundo Nolan) para socorrer a cidade. Retomou a ideia de uma figura ou símbolo capaz de inspirar outros a combaterem o que acham injusto. E, por fim, mostrou que ser herói exige sacrifícios. Da própria felicidade, de amigos, de amores, da vida. Por esta razão não gostei da cena onde Bruce e Selina aparecem para Alfred no restaurante. É reconfortante saber que Bruce Wayne sobreviveu, mas já havia outros indícios: o bat-sinal restaurado, o colar desaparecido, o piloto automático do veículo voador. Ver o casal naquele restaurante serviu para mostrar que finalmente Bruce desistiu de ser Batman. Apenas pra isso. Seria muito mais interessante se mostrasse apenas a expressão de Alfred, o olhar surpreso e um esboço de sorriso. Não mostrar a superação de Bruce Wayne, apenas sugestioná-la, seria mais eficiente com a ideia de que ninguém passa incólume pelo manto do Cavaleiro das Trevas. Ou pelo rito de um herói.



Cem

- Então... centésima postagem, não é isso?

- É.

- Por isso resolveu escrever como diálogo?

- Foi um dos motivos. Não sabia bem o que escrever a respeito, mas queria escrever. E, como já estava ficando de saco cheio do meu próprio texto, achei que escrever em discurso direto poderia ajudar, sem pensar tanto antes de digitar. Pode não ser uma boa saída, pode ficar ridículo, mas incentiva um pouco.

- E com quem está conversando?

- Pois é... o que dizem de um diálogo com uma só voz?

- Seria então apenas sobre você mesmo?

- Haveria outra maneira? Digo, o blog todo é sobre mim. Tentei escrever sobre assuntos variados, sendo objetivo, mas não deixa de ser minha perspectiva. Certo, não há assuntos tão variados assim, mas não há um tema específico, uma linha-chave. Nenhuma novidade até aí.

- E quais foram as últimas novidades?

- Nenhuma. De certa forma, isso me entristece um pouco, mas não é nenhuma surpresa. Percebi que escrevo mais num estado mediano, quando não estou nem muito alegre nem muito triste. Não necessariamente alegria ou tristeza, mas num ponto morno, por assim dizer. Quando nada me empolga ou desanima demais. Mas, além disso, uma hora cansa. Por isso já falei muitas vezes sobre o que leva a ter um blog pessoal, sem objetivo de lucro ou vínculo institucional. Vi algumas coisas, artigos, matérias, outros blogs, compartilhei links. E, pra variar, isso cansou também. Como já me disseram: por que ficar procurando motivo?

- E encontrou alguma resposta ou desistiu de procurar?

- Dei um tempo. Como eu disse, já li e escrevi sobre isso, principalmente quando o blog fez aniversário. Encontrei alguns motivos, mas não necessariamente uma motivação. Podia deixar pra lá, como cheguei a fazer, mas sei que uma hora vou voltar a escrever, nem que sejam velhas abobrinhas. Gosto, fico enjoado, dou um tempo, volto depois e o processo reinicia. Tudo isso sendo afetado pelo tempo disponível e estado emocional. É um círculo. Não é complicado entender.

- Falando assim, parece que já encontrou uma resposta.

- É, percebi isso agora. Já ouvi que tenho uma tendência a complicar questões que, no fundo, não são muito complexas. Minha mãe já disse isso. Até já me disseram que é por isso que não fico tão deslocado ao trabalhar com textos acadêmicos, pelo menos nas Ciências Humanas. Foi uma brincadeira, claro, mas admito que, quando lembro de alguns textos e aulas, especialmente metodologia, penso que tem um fundo de verdade. Mas e daí? Não me orgulho, mas não chega a ser uma condenação moral. Além disso, o blog é de quem? E outra coisa: vi que, justamente por essas perguntas, muitas vezes bobas, é que surgiram textos tão estimulantes, falando não somente de blogs, mas da expressão humana de maneira geral. Toda essa ansiedade é inerente e estimulante à linguagem. Confunde, pode encher o saco, mas faz parte.

- E você acha que já escreveu algum texto estimulante?

- Depende que tipo de estímulo, não é? Se for para estimular a ter um blog próprio, acho que não, até porque nunca tive essa intenção. Se for para ver ou rever alguns filmes, por exemplo, então sim, tive uma ou outra postagem que valeu. Pelo menos eu gosto de reler.

- Então você relê muita coisa do blog?

- Relia mais, principalmente nos dois primeiros anos, quando dava mais atenção ao blog. Mas geralmente não curto muito o que escrevi. Tem uns textos legais, outra parte ruim, quase constrangedora, e a maioria não fede nem cheira.

- Já apagou muitos textos?

- Não. Nenhum, para falar a verdade.

- Mas você disse que tem uma parte ruim do blog. Por que não apagou?

- Para chegar à centésima postagem... Brincadeira. Mesmo lembrando que este diálogo é o texto número 100 do blog, incluindo partes boas e ruins, eu não apaguei nada porque acho que cada postagem se encaixava no contexto que a escrevi. E isso me traz lembranças e, às vezes, ajuda a entender alguma situação atual ou recordar o caminho que fiz até ali. Isso não é muito comum, entretanto. Alguns textos eu não apaguei apenas para me lembrar de não escrever daquele jeito novamente. Aliás, essa própria conversa pode ser um exemplo disso no futuro.

- Sim, você também já falou sobre isso em outros textos do blog. Mas isso não acaba ficando previsível? Digo, é um blog de você para você mesmo. Uma hora você sabe a resposta antes da pergunta, pelo menos nas postagens de caráter mais pessoal. Se você quer um texto ruim ou uma lembrança boa, vai saber onde procurar porque já olhou ali outras vezes, não é? Uma hora isso não deixa de funcionar?

- Você acabou de mostrar a tendência de complicar as coisas. Mais um pouco e talvez até a psicanálise possa oferecer um diagnóstico dessa conversa como uma manifestação do ego e tal... Mas tem razão. Uma hora fica chato e não rende mais. Mas já li e reli, então por que apagar no final das contas? Não sei ao certo. Costumo ler outras fontes para melhorar ou no mínimo mudar as perspectivas. Mas aí veio outra questão: quanto mais eu lia, menos escrevia. Talvez seja um sintoma geral ou não. Comigo acontece. Mas o blog não fica parado por muito tempo por eu estar lendo muito. Tem a ver, mas não é a principal razão. É mais aquilo que disse antes, do círculo de enjoar e voltar. 

- E, no momento, você está enjoado ou na ativa com o blog? 

- Não sei. Há um certo conforto na indefinicão das intenções, não é? Parece um pouco quando nós somos os primeiros a nos censurar, como se a autocrítica tirasse o direito dos outros de apontar nossos erros. Mas aqui eu posso fazer isso, então não sei mesmo.

- Então o centésimo post pode ser o último?

- Improvável, mas talvez seja um dos últimos deste blog. Faz um tempo que penso em ter outro blog para assunto mais específicos. Cinema, adaptações de quadrinhos ou games, crônicas de rpg,  livros acadêmicos, sei lá, uma coisa que me fizesse ser mais objetivo.. E como isso ajudaria minha vontade ocasional de escrever, pode ser que este blog possa aos poucos ir ficando de lado. Talvez trouxesse até um benefício prático para mim, em vez de me fazer ficar matutando sobre questões pseudo-existenciais.

- Se houvesse uma outra pessoa além de você nessa conversa, o que você diria?

- Agradeceria a paciência de quem leu o blog por tanto tempo. Mas isso eu diria se houvesse outra pessoa ou não. É algo que merece ser expresso. Tirando isso, não sei. Que vale a pena escrever, nem que seja para escrever mais daquele jeito. Que os melhores textos costumar ter uma linguagem clara, mas nem sempre isso se aplica a estouros emocionais ou textos de caráter expressamente artístico. Enfim, que é sempre bom tentar melhorar. Nada de novo. Acho que, no fundo, tudo isso quer dizer que a sensação de progresso ou o sentimento de evolução valem a pena, mesmo que não se saiba qual é o topo. Mas com certeza não é o centésimo post de um blog.

Carrossel (Interferência IV)

Três meses sem postar. Trabalho, estudo, casa. Mas também já estava enchendo. Algumas coisas mudaram agora, perto do fim do ano. Mudaram até um pouco antes. Não escrevi mesmo assim. Nem era vazio de pauta: tinha assunto, faltava a vontade. E, em diversas ocasiões, também a competência. Como uma das graças aqui é não ter presença obrigatória, ficou às moscas mesmo. Tempo necessário para ler mais, aprender mais na internet, ver outros projetos, torcer pelo sucesso de alguns planos e, invariavelmente, olhar para o teto - ou para o chão - e se perguntar o que exatamente estou fazendo. Fingindo controle sobre os dados na mesa ou desafiando o relógio na parede. Junto com as respostas vieram outras perguntas, lembrando de dúvidas anteriores, e ficou a sensação de subir no carrossel e querer opções variadas de trajetos e destinos. Já estava ridículo, foi melhor se afastar um pouco. Agora, retomando o espaço, dá pra exercitar a memória e lembrar de filmes e fatos que talvez rendessem textos razoáveis (pelo menos para quem escreve). Mas fica pra depois. Por enquanto, permanece apenas a conclusão de que foi um ano movimentado. O quarto ano deste blog. E, embora tenha escrito menos (e pior) do que nos anos anteriores, continuar aqui ainda é uma vontade. Por mais algum tempo, enquanto também acompanho outros textos, prolíficos ou hesitantes. Algumas vezes, isso basta. Em outras, o melhor é rir e dar um tempo. E torcer para que tudo volte ao "normal". Se houver tal opção...

O antes hoje

À Prova de Morte demorou três anos para chegar aos cinemas brasileiros. O filme faz parte do projeto Grindhouse, concebido pelo diretores Robert Rodriguez e Quentin Tarantino, como uma homenagem aos filmes B dos anos 70, baratos e com ênfase em temas como sexo e violência para animar as bilheterias (exploitation films). Como a qualidade das películas não era das melhores, eram comum as sessões duplas pelo preço de um único ingresso. Até os cartazes eram feitos para divulgar a "promoção" de filmes dois-em-um. Portanto, Planeta Terror (a parte de Rodriguez) e À Prova de Morte (segmento de Tarantino) deveriam ser exibidos em uma sessão contínua, como era feito antigamente. Ambos os filmes têm uma imagem suja, envelhecida, como se fossem realizados naquela época. E ambos fracassaram nas bilheterias nos Estados Unidos. Quem hoje tem tempo e paciência para aguentar no cinema 3 horas de filmes "toscos"? O melhor era a exibição de cada obra separadamente.

Planeta Terror eu vi no começo de 2008, numa sala cheia de jovens casais empolgados com a proposta de terror barato, mulheres atraentes e cenas absurdas. Divertido. Mas não vendeu muitos ingressos por aqui. Então o estúdio segurou a outra parte, À Prova de Morte, para evitar prejuízos. E ficou assim até agora, quando os direitos de exibição passaram para outra empresa. Nesta semana, eu pude ver o filme. Sala lotada novamente, mas muita gente nem sabia o que esperar. Aproveitaram o preço promocional do ingresso, o título curioso (nenhum pôster estava pendurado, apenas um papel informando os horários) e consideraram uma alternativa à franquia Crespúsculo ou Shrek e suas dezenas de adolescentes na fila.

O clima geral foi de decepção, principalmente das mulheres. Mas, perto do fim, houve uma euforia predominantemente feminina. É uma boa ilustração de como Tarantino conduziu seu trabalho: uma parte onde as mulheres são sensuais e manipuladas, outra onde não são tão lascivas, mas demonstram resistência ao perigo. E, para variar, há um desfile de características do "estilo" Tarantino como pés femininos, recriações de cenas de outros filmes do diretor, tomadas dentro de porta-malas, referências a filmes obscuros, longos diálogos (alguns cansativos)... abrindo caminho para o mais do mesmo até Bastardos Inglórios. As sequências de ação são estimulantes e uma das razões disso é a opção de Tarantino em evitar ao máximo efeitos visuais, tornando as cenas mais críveis no seu impacto e violência. E impossível não citar uma sequência ao som da música Down in Mexico que, para mim, se tornou antológica.

Mas o meu maior interesse é reparar na passagem do tempo e as mudanças que ela trouxe no intervalo entre Planeta Terror e À Prova de Morte. No filme de Rodriguez, havia tempo de sobra, vontade maior de escrever, público mais homogêneo na sala e uma boa disposição em assistir vários filmes. Já ao assistir Tarantino era cansaço, tempo mais escasso, espectadores diferentes, mulheres reclamando, jovens mais fúteis. E gostei mais de À Prova de Morte, talvez por julgar que passei a entender um pouquinho mais do que gosto em Cinema. Comparar momentos da vida a partir de sessões de filmes pode revelar alguma coisa do que aprendemos ao longo do processo. Estudos, filmes, livros, experiências, divertidas ou não. Tudo junto e misturado, mesmo com cada coisa em seu lugar. Momentos Down in Mexico. A vida grindhouse.

Evolução

Dizer que já era previsto o sucesso de Homem de Ferro 2 nos cinemas é chover no molhado: sequência de uma adaptação de quadrinhos bem realizada, campanha de marketing eficiente, ligação com outros filmes do universo Marvel, atraindo fãs de quadrinhos ou não, entre outros fatores. Talvez uma diferença a se observar no filme, comparado com outras adaptações de hq's, é como seu êxito depende do seu protagonista. Não apenas pelo fato óbvio de ser ele a vestir a armadura do super-herói, mas pela sua personalidade. Arrogante, debochado, excêntrico, infantil e narcisista (a ponto de revelar sua identidade secreta) não são características esperadas de alguém que luta contra ameaças à sociedade.

Mais surpreendente ainda é ver como o seu carisma é  justamente fruto de tais aspectos. Não se trata de um personagem unidimensional, principalmente ao fazer uma comparação com outro super-herói: enquanto Tony Stark faz questão de mostrar que ele e o Homem de Ferro ostentam a mesma personalidade, Bruce Wayne despreza tanto a sua figura de playboy rico que a utiliza para disfarçar a sua verdadeira natureza, revelada ao se vestir como Batman. São características semelhantes, mas que assumem diferentes inclinações para o espectador de acordo com as justificativas do herói. Caráter e extravagância para um, fardo e estratégia para outro. Batman, Homem de Ferro e outros super-heróis se mostram mais complexos do que aparentam ser. E são assim desde suas origens nos quadrinhos, fato felizmente representado (mas não sempre) nas últimas adaptações para o cinema.

Se hoje uma adaptação como Homem de Ferro 2 tem a sua estratégia de sucesso discutida de maneira tão cotidiana, é conveniente lembrar de um marco deste processo: o filme X-Men, lançado 10 anos atrás. Em uma época em que a lembrança mais recente de adaptação cinematográfica de quadrinhos era o fiasco multicolorido Batman e Robin (1997), a versão para as telas do grupo mutante atingiu um nível superior em relação a outras produções do gênero. Vale lembrar que, em 1998, Blade - O Caçador de Vampiros fez sucesso, mas foi um caso isolado, principalmente por mostrar um personagem pouco conhecido do público e fazer o protagonista adotar um estilo diferente dos quadrinhos. Já os X-Men eram populares no mundo inteiro, contribuindo para o aumento da expectativa do filme. Expectativa, aliás, cercada por desconfiança e até revolta. A mudança nos uniformes da equipe, por exemplo, gerou protestos.


Mas, além de trivialidades como uniformes inspirados no figurino de Matrix e a escolha de um ator desconhecido para interpretar o mutante mais popular da equipe, o principal obstáculo para o sucesso do filme era o preconceito contra os quadrinhos, como se tratasse apenas de conflitos superficiais do bem contra o mal, numa batalha utlizando poderes fantásticos. Não era o tipo de pensamento que antecipava, por exemplo, uma cena logo no início do filme, onde um senador faz o seguinte discurso:

"Eu tenho uma lista de mutantes identificados que residem nos Estados Unidos. Aqui tem uma garota em Illinois que pode atravessar paredes. O que a impede de atravessar as paredes do cofre de um banco, da Casa Banca ou [aponta para o público] da casa deles? E há ainda rumores, senhorita Grey, de mutantes tão poderosos que podem invandir nossas mentes e controlar nossos pensamentos, retirando nosso livre arbítrio concedido por Deus. (...) Senhoras e senhores, a verdade é que os mutantes são bem reais, e eles estão entre nós. Nós precisamos saber quem eles são e, acima de tudo, o que eles podem fazer!" 

Há preconceito e medo, mas também uma preocupação plausível. Mutantes sofrem discriminação assim como a parcela da sociedade composta por negros, homossexuais ou ateus (apenas para citar alguns exemplos) também sofre. Não é de se estranhar que alguns mutantes se revoltem. O que dizer de um mutante sobrevivente de um campo nazista? É o caso de Magneto, que, completamente descrente da humanidade, devolve o preconceito aos não-mutantes, que considera seres inferiores, passíveis de serem eliminados pela evolução da espécie. Charles Xavier, mentor dos X-Men, entende os sentimentos de Magneto (foi seu amigo na juventude), mas sabe que retaliação só levará a mais discórdia e, eventualmente, a destruição de ambos os lados.


O arco dramático, porém, não se limita ao medo e preconceito em torno dos mutantes. Contrariando a ideia de que ter poderes especiais sempre é algo positivo, a personagem Marie tem a habilidade de absorver os poderes e a vitalidade de qualquer pessoa que toque. Sem ainda saber que era uma mutante, ela fez o garoto que lhe deu o primeiro beijo ficar em coma por três semanas. Já ciente dos seus "dons", sabe que não pode tocar nenhum ente querido sem o risco de matá-lo. E, claro, sofre por isso.

Outro acerto do filme também foi o uso do humor, inclusive nas piadas com o próprio estereótipo de super-herói. Wolverine debocha dos codinomes dos membros de alguns mutantes (Ciclope, Tempestade, Magneto) e despreza os uniformes da equipe, mas se cala diante de outra alternativa (justamente os trajes originais dos quadrinhos). Fazia parte do esforço do filme em fazer o espectador imaginar aquela situação no mundo real (atitude que as versões para o cinema de V de Vingança, Cavaleiro das Trevas e Homem de Ferro também tiveram). Por estas e outras qualidades, incluindo as cenas de ação, o filme X-Men estimulou outras adaptações de hq's que vão além de um duelo de mocinhos e bandidos, sempre observando as ideias presentes no material original. A questão não é sempre reverenciar quadrinhos ou sua adaptações para o cinema, mas reconhecer quando uma obra do gênero se supera e incentiva a produção de outros títulos no mesmo nível ou ainda melhores, que é o que se espera.


Quando não se pode esquecer

Perto do fim do ano passado, enquanto aguardava o lançamento de Avatar, escrevi sobre como o ano de 1999 foi fértil em produções memoráveis, potenciais cult movies. Clube da Luta, Matrix e A Bruxa de Blair são os principais títulos. Já em 2000, muitos filmes vieram com a ideia de renovação ou modernidade para aproveitar a iminência da nova década e do novo milênio. Começava a temporada de adaptações e remakes, tão valorizada até hoje. O Playstation 2 foi lançado e a safra de jogos para o novo console foi se tornando um campo de ideias para novos filmes.  Terrores adolescentes como Pânico e Lenda Urbana já estavam sofrendo desgaste. E, mesmo longe de ser tão rico como o ano anterior, 2000 trouxe algumas obras memoráveis. Algumas delas servirão de pauta aqui, tanto por nostalgia como para ocasionalmente espantar as moscas do blog.

Das obras memoráveis do ano 2000, possivelmente Amnésia é a melhor delas. Não entendi completamente o filme na primeira vez em que assisti, consegui compreender na segunda tentativa, vi outras vezes para enxergar as pistas do roteiro e as sessões seguintes foram apenas para apreciação, ainda mais depois de visitar o site do filme. A tradução do título é enganosa. Apesar do protagonista, Leonard Shelby, esquecer das coisas, a doença dele é um tipo específico de amnésia, a anterógrada. Ele não consegue formar novas memórias a partir do trauma que causou a sua condição, apesar de se lembrar de toda a sua vida antes do ocorrido. Ele consegue compreender uma situação por apenas alguns minutos, depois esquece. Para dar alguma organização a sua vida, ele registra fatos e confere tarefas a si mesmo através de recados e fotografias. É este o sentido do título original: Memento é uma palavra latina que significa "lembra-te" e também tem o sentido de anotações, lembretes ou qualquer coisa que sirva para lembrar de alguma questão. É o resumo não apenas do dia-a-dia de Leonard, mas do seu propósito de justiça.



A estrutura de cronologia reversa do filme serve justamente para situar o espectador na condição de Leonard, em não saber como aquela cena ou situação teve início. Mas, conforme o filme avança (ou retrocede, no universo da história), passamos a entender o significado das fotografias e anotações de Leonard. A diferença é que podemos concluir se uma pista pode ser falsa ou não apenas pela memória e dedução, enquanto o personagem não pode contar com a primeira e mal pode confiar na segunda, já que ela depende justamente dos lembretes que escreve a si mesmo e nem sempre podem corresponder à verdade. E assim, conforme Leonard entende (ou julga entender) a sua trajetória, a expectativa de uma solução aumenta. E o que se encontra é uma resposta ambígua.

 

É quando a condição de Leonard  vai além de proporcionar uma ótima base para o suspense e toca numa questão mais profunda. O que Leonard busca é mais do que justiça, é um sentido para a sua vida. Se acordar todo dia sem saber onde se encontra já pode ser desesperador, imagina descobrir de novo e de novo possíveis destinos trágicos de entes queridos. E, por mais que seja forte o laço afetivo, ele depende tanto da memória como de instinto amoroso para se manter, talvez até mais. Como "saber" o que sentir se não se sabe o que aconteceu nos dias anteriores? Abraçar alguém de quem carrega boas lembranças, mas talvez esteja te traindo atualmente? Ou machucar um desafeto antigo, mas que agora busca te ajudar? Não é à toa que em algumas cenas Leonard, através dos lembretes, busca orientar não somente o próprio raciocínio, mas também os sentimentos. E como será este sentimento, se você sabe que o manipulou, mesmo que não se lembre de como o fez? Ele se torna mais natural por isso?

Desta forma, as atitudes de Leonard podem indicar tanto que ele encontrou uma forma de lidar com a sua doença ou então que ele evita desesperadamente arcar com as consequências dela. E, mesmo que nossa memória funcione perfeitamente, Leonard avisa que podemos distorcer nossas lembranças de acordo com o contexto do acontecimento. A mesma comida pode ter um sabor diferente para uma pessoa alegre e outra triste. Leonard considera isso uma vantagem na sua busca. Já os espectadores entendem que é mais um esforço dele de se concentrar em se manter ativo. E não se pode condená-lo, porque não saberíamos se nossas atitudes seriam diferentes na mesma situação. Principalmente porque lembrar ou esquecer são ações que não estão inteiramente dentro do nosso controle, mas ainda são melhores que depender somente de recados e fotos.

"Eu tenho que acreditar num mundo fora da minha própria mente. Eu tenho que acreditar que minha ações ainda têm sentido, mesmo que eu não possa lembrar delas. Eu tenho que acreditar que quando meus olhos estão fechados, o mundo ainda está lá. Eu acredito que o mundo ainda está lá? Ainda está lá fora?... Sim. Todos nós precisamos de espelhos para lembrar de quem nós somos. Eu não sou diferente."

Leonard Shelby


Interferência III

Três anos deste blog. Sinto-me bem com a data. Não é caso para comemoração, mas concordo com o Crápula Mor: não é bom deixar passar em branco. Questionava muito a razão de continuar escrevendo e ainda tenho minhas dúvidas. Mas já não pergunto tanto. Na verdade, pergunto bem menos, talvez por encarar muitas respostas. Registro de momentos e ideias. Opiniões sobre eventos. Passatempo. Terapia. Exercício estilístico. Necessidade de exteriorizar certos conhecimentos. Influência de bons textos lidos. Até representação de uma vaidade oculta, mesmo sendo improvável . Todos estes elementos combinados. Mais de uns, menos de outros, todos apontando para uma resposta óbvia: a satisfação em escrever. Claro que o assunto precisa ser minimamente agradável. Sem obrigações legais nem objetivos de lucro ou fama, a única razão de estar aqui é o gosto pela coisa, de ver os comentários de leitores habituais (que merecem toda a minha gratidão) e saber que deve haver gente que acompanha sem se manifestar (a quem também agradeço). E tudo começou como brincadeira.

Mas, como disse antes, ainda questiono algumas coisas. Afinal, são três anos postando com frequência e disciplina que, se fossem aplicadas em outras áreas da minha vida, provavelmente me deixariam mais tranquilo em relação ao futuro. Deve ser terapia mesmo. Ou (falta de) senso do ridículo. De qualquer forma, procuro saber um pouco mais sobre a blogosfera na tentativa de elucidar algumas indagações. Achei textos interessantes, mesmo que não se encaixem no tipo de relação que tenho ao escrever. Um exemplo é este aqui, falando da construção de celebridades na blogosfera. Interessante a parte em que os blogueiros entrevistados dizem não se interessar exatamente pela fama virtual, mas em ser uma referência sobre o tema proposto. Excelente justificativa. Mas, para isso, é preciso antes definir o tema do blog. Criar uma identidade. Ter um estilo, tanto visual como literário. Não é meu caso. Mas reconheço ser muito bom acompanhar blogs com tais características. Outro artigo curioso é este, abordando blog confessionais. Embora algumas vezes tenha decidido falar sobre eventos corriqueiros (como foi aqui e aqui), no geral não me interessa escrever sobre o cotidiano. Se um dia vivenciar uma experiência fascinante ou ter condições de criar uma fantasia suficientemente instigante ou até mesmo desenvolver um estilo mais leve e bem-humorado ao escrever, talvez mude de ideia. Quanto ao aspecto confessional dos textos, não há como fugir. Apenas mudar o grau de sutileza, com uma exposição de caráter mais jornalístico ou descaradamente íntima.

Por que escrever sem ter a obrigação de escrever? Não sei e me incomoda cada vez menos não saber. Talvez a razão seja justamente por não ser um dever. Já ouvi muitas vezes gente reclamando de atividades prazerosas que perderam a graça por se tornarem obrigatórias (ou seja, passaram a render lucros, mas não é uma alfinetada contra o capitalismo). Deve ser mais complicado quando o rendimento vem das neuras do autor, porque ele precisa estar constantemente aflito ou então disfarçar um texto calmo naquele vômito de ansiedades que atrai tantos leitores. Talento mesmo. Mas, sem talento ou dinheiro à vista, resta o gosto em escrever. E, ao longo desses três anos, acho que isso é o que realmente importa. Falando desta forma, parece uma resposta fácil, tão fácil que chega a ser risível. Pode ser. Mas demoro a acreditar em respostas fáceis, principalmente quando partem de mim mesmo. Por isso, não é surpresa eu levar tanto tempo para constatar que escrever aqui, seja por catarse ou hobby, me faz algum bem. E melhor: ficou mais fácil.  Só espero não me acomodar, mesmo sem ainda entender direito quais são meus parâmetros. Nunca é fácil, mesmo quando não é tão complicado.

Chave de ouro

O filme mais esperado para o fim deste ano é Avatar, dirigido por James Cameron. Onze anos depois de fazer a maior bilheteria da história do cinema mundial com Titanic (um hiato que só faz aumentar a expectativa para o filme seguinte), o diretor volta ao gênero da ficção científica, campo onde seu nome é referência graças a trabalhos como O Segredo do Abismo e O Exterminador do Futuro. Desenvolver e utilizar avançadas tecnologias de efeitos visuais no cinema para contar boas histórias é uma característica de Cameron, e promete seguir o estilo. Porém, além da fama e competência do diretor, a espera por Avatar representa a chance de um grande filme encerrar o ano de 2009 e a década.

Claro que este ano trouxe bons filmes, mas as obras mais esperadas ficaram abaixo do memorável (Star Trek e Inimigos Públicos foram as sessões mais gratificantes para mim). E o sentimento de que o cinema do último ano da década está deixando a desejar é reforçado pela memória de 1999, ano de lançamento de alguns filmes cultuados até agora: Matrix, Clube da Luta, O Sexto Sentido, Quero Ser John Malkovich. Há outros exemplos não tão célebres, mas que repercurtiram sensivelmente aos olhos dos espectadores, como O Informante, De Olhos Bem Fechados, Segundas Intenções e Beleza Americana. Um certo pessimismo diante da vida (talvez pela proximidade do fim do milênio) parece ter sido um componente importante para a fertilidade daquele período.

Porém, o filme lançado em 1999 cuja influência mais se sente nos últimos meses é A Bruxa de Blair. Não somente pelo formato documentário, câmera na mão, num estilo neoverité, visto ano passado em [REC] ou atualmente em Distrito 9. O grande êxito do filme foi se vender como se tratasse de uma história real: atores amadores que permitiram o uso de seus nomes reais para os personagens, sentindo frio, recebendo cada vez menos comida da equipe de produção, diálogos e gravações semi-improvisados, apenas seguindo vagas instruções dos diretores sem saber o que encontrariam pela frente, tudo para obter o efeito mais realista possível da degradação psicológica dos protagonistas.


Durante as filmagens, mesmo cientes de que se tratava de um obra de ficção, os atores acreditavam que a lenda da Bruxa realmente existia, até serem informados posteriormente que toda a mitologia da história foi concebida pelo criadores do filme. Além disso, os diretores fizeram para a TV um falso documentário (mockumentary) como material promocional, onde explicavam a origem da lenda e entrevistavam familiares e amigos dos estudantes desaparecidos. Criaram um site exibindo cartazes de "desaparecidos" com a foto dos atores e, no Festival de Cannes, espalharam folhetos informando que o paradeiro dos três estudantes ainda era desconhecido. Foi um dos pioneiros no uso da internet e do marketing viral, amplamente usado em filmes como Cavaleiro das Trevas, Cloverfield e o recente Paranormal Activity.


Agora, dez anos depois, os diretores anunciaram uma sequência para a história (eles rejeitaram veementemente o filme "Bruxa de Blair 2: O Livro das Sombras", lançado em 2000 sem a aprovação deles e com o propósito declarado de aproveitar a fama do primeiro filme). Vai ser interessante ver como todos esses anos influenciaram sua concepção do trabalho. Seria ainda mais interessante se a nova parte fosse lançada agora, para fazer tal qual o primeiro capítulo e encerrar o ano com chave de ouro, ainda que este ano não tenha sido brilhante como 1999. Resta esperar Avatar. Ou, quem sabe, mais dez anos.

Tartarugante III

"É o teu jeito, mas não precisa ser sempre assim, entendeu?"

"Também tem algumas tarefas que prefiro fazer só."

"Você, como sempre, mantendo uma sutileza elegante." (jeito irônico)

"Tu sabes que pode falar as coisas na real pra mim. Aliás, tu sempre falou!"

"Nem sei se você é mais otimista ou pessimista em relação à vida."

"Eu sei: tu já estaria me xingando nessa hora."

"Só não te xingo porque é verdade mesmo..."

"Depois de todo esse tempo, vejo que é pior quando você realmente não fala nada."

"Não humilha, véio!" (desarme pelo riso)

Olhando para a primeira parte e para a vez seguinte, não mudou tanto assim. Mas na verdade mudou. Só resta entender melhor. Como não haverá a quarta seleção para o próximo ano, é melhor encerrar com a frase mais certeira na alma, principalmente porque veio por escrito:

"tentar ficar bem na marra normalmente é traumático; como já conversamos em outros momentos, a tristeza faz parte da vida e negá-la pode ser uma forma de tornar tudo, incluindo a alegria, um pouco mais triste, banal e sem encanto."

...

Lista de chuvas

Depois de dias sem ver uma gota cair do céu, perguntei a alguns amigos se já haviam visto algum filme com uma cena de chuva memorável (para eles, claro). Um respondeu a primeira luta do filme chinês Herói, outro respondeu o clima da guerra em Forrest Gump, mais alguém disse que achava cenas com chuva clichês, mas lembrou do encontro sexual em Match Point. Interessante ver como quase todas as respostas revelam a personalidade do espectador: enquanto um se envolve rapidamente com uma luta, outro se identifica mais com romance, um terceiro com suspense, etc. Ao verem outras alternativas de cenas de chuva, concordavam que eram bons exemplos, mas não eram tão marcantes para eles. Claro que tem a ver com o contexto da cena e da própria pessoa. Lembro bem da sessão de O Tigre e o Dragão não pela qualidade da obra, mas porque cheguei totalmente molhado da chuva que caía na cidade. Entrei na sala deixando um rastro de água atrás. Não gostei muito do filme, mas foi memorável pelo frio intenso que senti com o ar condicionado.

Para mim, os filmes abaixo foram marcantes não somente pelas cenas de chuva ou por fatores exteriores à tela (exceto o último Matrix). Alegre ou triste, frio ou calor, sempre admiro a qualidade deles. E as cenas de chuva, clichês ou não, sempre ecoam na minha memória. Respostas revelando personalidade. Por aí.

Matrix Revolutions: a chuva é puro capricho para os efeitos especiais na luta final, com as gotas d'água sendo varridas pelas ondas de impacto causadas pelo choque dos golpes. Ficou muito bem feito. Pelo resultado, os irmãos Wachowski até hoje são apontados por muitos fãs como as melhores opções para dirigir um filme do Superman ou Dragonball. Mas estes personagens tomaram rumos esquisitos no cinema. Não fizeram sucesso. Bom sinal.

Se7en: o detetive interpretado por Brad Pitt é encurralado pelo assassino. Neste momento, a atitude do criminoso diante do policial parece ser o início do preparo para o último crime capital planejado. O personagem de Pitt não é capaz de reagir e é largado no chão, num beco onde a chuva parece fazer parte da sujeira e fragilidade julgadas pelo assassino.

Os Donos da Noite: uma perseguição de carros mostra que os personagens reagem não por serem heróis, mas por fazerem o que uma pessoa desesperada faria em situação semelhante: buscar proteção, a menos que algum ente querido esteja em perigo. Se for o caso, é preciso fazer alguma coisa, mesmo com a chuva atrapalhando, mesmo que tudo aponte para a tragédia.

Extermínio: não chove há dias na Londres devastada por um tipo de vírus que transforma as pessoas em criaturas irracionais e violentas. Quando volta a chover, os humanos sadios, incluindo o protagonista, não são muito diferentes dos infectados quando não há um sistema social a seguir. Em tal cenário, a sobrevivência é vinculada à destruição dos obstáculos.

Estrada para a Perdição: o diretor Sam Mendes usou a chuva na conclusão do seu primeiro trabalho, Beleza Americana. O mesmo acontece no confronto definitivo neste filme, adaptado de uma hq. Oculto pelas sombras e pelo temporal (como muito perigos na vida real), o protagonista realiza sua vingança sem glória.

Casa do Gilson, Nossa Casa: quem conhece Belém sabe que a chuva é parte da cidade, indo além de uma característica climática e sendo praticamente uma personagem de alegrias e desaforos. Neste documentário de Chico Carneiro sobre a casa famosa por suas apresentações de choro e samba, há partes em que simplesmente se vê as ruas e praças desertas recebendo as gotas. Nessas horas, como bem sabe quem conhece o lugar, vem a sensação de que todos viram coadjuvantes enquanto a chuva e a cidade assumem o lugar principal do dia.

O Fundo do Coração: em filmes de amor, cenas de chuva geralmente são associadas àquelas pequenas e arrebatadas discussões que terminam com uma epifania coroada por um beijo apaixonado. Francis Ford Coppola, em seu trabalho seguinte a Apocalypse Now, mostra o outro lado. Não ligar para a chuva ao pensar numa pessoa nem sempre signfica alegria. Romance também é tristeza. Silêncio. É belo também por isso.

Um Sonho de Liberdade: a fuga da prisão de Shawshank. Embora poucas pessoas gostem de serem encharcadas pela chuva, o total impedimento desta possibilidade é pior. A idéia de liberdade deve estar presente, mesmo que não seja realizada. O isolamento provavelmente muda a concepção de quem ignora gotas de chuva, vento no rosto, pôr-do-sol e outros fênomenos. Chuva como liberdade e redenção pode soar batido. Mas antes ser piegas que impossível.

Blade Runner: o replicante Roy Batty supera seu algoz em todos os sentidos possíveis. Força física, agilidade, provocar medo, sentir compaixão. Mas a maior vitória é justamente aceitar seu fim sem oferecer mais resistência, lembrando o que ele já presenciou e o que os humanos provavelmente não verão. Walter Benjamin apitando: se o momento da morte é o auge da experiência narrativa que um homem pode transmitir, a frase "tears in rain" é um dos melhores exemplos. Principalmente por não se tratar de um humano. Pelo menos no sentido biológico.

Cantando na Chuva: não gosto muito de musicais, mas é difícil ficar indiferente a este. Talvez porque, enquanto a maiorias das cenas de chuva listadas representam um momento ruim para o personagem, aqui acontece o oposto. É felicidade pura. Letra, coreografia, atuação (e Gene Kelly estava ardendo em febre quando fez a cena). Talvez uma felicidade muito inocente, própria do gênero e da época. Difícil outro momento tão carregado de alegria num filme (ironicamente, a música-título foi usada num trecho ultraviolento de Laranja Mecânica). Acho que justamente por isso, pela felicidade simbolizada e atualmente tão anacrônica, é que vale priorizá-la. Alguma coisa boa devemos guardar.

Década

Em 1977, Star Wars: Episódio IV - Uma Nova Esperança, dirigido e escrito por George Lucas, se tornava um dos precursores dos filmes blockbusters: além de aguardadas estréias no cinema, são grandes eventos comerciais precedidos por intensa campanha de marketing e com margem de lucros calculada em todas as escalas possíveis, desde os ingressos vendidos até o faturamento com o merchandising do filme. Em 2008, a campanha publicitária de O Cavaleiro das Trevas teve grande apelo na internet: edicões on-line do jornal de Gotham City, vídeos e mensagens do Coringa, quebra-cabeças que revelavam importantes aspectos do filme e outras idéias. Cloverfield - Monstro fez sua campanha praticamente toda amparada na avidez de internautas por imagens e informações do filme, divulgando notícias falsas, fotos suspeitas e aumentando a expectativa da estréia conforme sites de cultura pop (como o 100grana) discutiam o que podia se esperar do filme.

Não havia internet nos anos 70. Star Wars foi a maior bilheteria da década não apenas pela sua campanha de marketing, mas porque realmente tinha uma história fantástica baseada em arquétipos mitológicos que alimentou a fantasia e curiosidade de gerações. Além do aspecto comercial, há de se reconhecer que a luta entre Jedi e Sith envolvendo o uso da Força e dos sabres de luz é um marco na ficção científica que vai além dos lucros. Por isso, em 1999, dezesseis anos depois do lançamento do último filme da série (Episódio VI - O Retorno de Jedi), a expectativa na estréia de
Episódio I - A Ameaça Fantasma era espetacular: fãs dormindo nas ruas para guardar lugar na fila da bilheteria, pessoas que compravam ingresso para determinado filme apenas para conferir o trailer do novo capítulo e logo em seguida abandonar a sessão, gente fantasiada de Darth Vader circulando pelos corredores... O sucesso do filme cumpriu todas as expectativas comerciais, tanto que atualmente é a nona maior bilheteria da história do cinema.

Não foi bem recebido pela crítica, mas há o argumento de que a crítica especializada geralmente é avessa a filmes escancaradamente comerciais. Contudo, era mais do que isso. E não demorou a se perceber que
Episódio I de Star Wars se apoiou muito mais na legião de fãs conquistada do que na qualidade da história para fazer sucesso. Aproveitou-se de ser referência consolidada na ficção científica e teve seu mérito "artístico" ofuscado por um novo marco no gênero: Matrix, de Andy e Larry Wachowski.

Realidade virtual, inteligência virtual, homens contra máquinas, mensagens de religião e filosofia , influências de fantasia e cyberpunk, visual arrojado de super-herói (óculos substituindo máscaras e sobretudos no lugar de capas), kung-fu, tiroteios, efeitos especiais... Exageros à parte, é um emaranhado pós-moderno muito mais condizente com as perspectivas atuais de tecnologia e sociedade do que galáxias muito, muito distantes.

Já se passaram dez anos. Uma década desde a estréia de Matrix, Episódio I e outros filmes importantes para a cultura pop sobre os quais escreverei mais adiante. Dez anos foram mais que suficientes para confirmar uma idéia, mas o décimo aniversário é perfeito para celebrá-la: nunca fui afeito a Star Wars, mas tenho grande apreço por Matrix. Reconheço a importância da obra de George Lucas e sei que as sequências de Matrix deixaram a desejar. Mas não tem jeito: dez anos de empolgação adolescente mais tarde, ainda prefiro o conselho de "liberte sua mente" ao de "use a Força".

"Ao longo da história humana, nós dependemos de máquinas para sobreviver. Destino, ao que parece, não deixa de ter um senso de ironia." (Morpheus)

Interferência II

Não sei ao certo a razão de manter um blog. Ensinar e aprender? Conhecer e ser conhecido? Testar ferramentas da blogosfera? Não consigo fazer simples assim. Nunca me concentrei nestas perguntas. Hoje vale a indagação. Aliás, minha mania de questionar em vez de celebrar alguns momentos só me oferta mais perguntas e menos comemorações. Não deve ser bom sinal. Pelo menos ainda sou fiel às minhas idéias. Resta saber as intenções.

Como a internet é de natureza coletiva, procurei saber se outros blogueiros (menos aqueles que lucram nesta condição) se perguntavam o motivo de permanecer postando. Não reconheci tais perguntas nos textos. Na verdade, vi motivos e idéias para continuarem escrevendo ou deixarem tudo pra lá. Muitos ficam meses sem postar ou abandonam o lugar. Enjoaram, perderam as idéias ou arranjaram algo mais divertido pra fazer. Outros procuram saber as novidades da blogosfera, comentam diariamente em vários espaços, testam novos templates, novas ferramentas, indicam outros blogs. Às vezes chegam a me contagiar de vontade. Agradeço por isso. No fim, posso afirmar que não é escrever o meu principal motivo (mesmo não sabendo de todos eles) de continuar navegando por blogs. Ler diferentes textos, diferentes estilos, conhecer e quem sabe aprender com eles. Esta é a principal atração. Embora, comparado ao ano anterior, poucas composições tenham me tocado em 2008, gosto muito da vontade de reler uma postagem. Outra mania: ficar atento aos louros registrados em vez de reparar na expectativa de sucesso de um fato. E, novamente, isso não deve ser bom sinal. Minhas perguntas do início também não devem ser, não pelo caráter delas, mas pela minha confusão diante das respostas.

Não adianta ficar testando equilíbrio e paciência dando voltas em torno do tema. Este blog não é um projeto de vida, não é para liberar o peso da alma através da escrita, não é um canal de notícias de determinada área, como são as razões de alguns blogueiros que leio. Envolve isso, mas vai além. Talvez se entendesse melhor meus próprios motivos, investiria mais aqui ou então abandonaria de vez. Não sei. Ainda resta tempo. Até lá, termino o segundo ano deste blog sem muitas perspectivas, exatamente como começou. Minha vontade de escrever é fogo de palha, mas ainda resiste. Espero me sentir mais à vontade com palavras. Ou pelo menos me sentir mais confortável com as causas que me fazem escrevê-las.

Tartarugante II

"Por que você só fala quando falam com você?"

"Até queria dizer que você foi uma supresa quando começamos a conversar mais"

"Ele só tá reclamando. Deve ser culpa tua"

"Ela me disse que você era todo sério, grosso... que nada! Você é até zen..."

"Você gosta de complicar as coisas"

"Por que você não fala?"

"É o fundo preto?"

"Você está usando branco!"

" Você é legal. Te vi todo sério no início, mas depois te vi bebendo, escutando, gostei de você"

"É frieza demais da sua parte..."


Frases nos últimos doze meses. Nenhuma novidade, exceto me chamarem de zen. Até gostaria de ser assim, os mais íntimos merecem isso. Mas muitas pessoas só entendem mesmo a situação quando se poupa palavras e sorrisos. E, mesmo assim, o direito à revolta e ao ressentimento sempre existe. O mundo dá voltas...

Trilha

Sempre há momentos em que a vida deveria ter trilha sonora, como diz aquela comunidade. Este ano abrigou vários desses momentos, deixando mais claro do que gosto e, principalmente, do que não gosto. E as conseqüências estão vindo.

Uma lista das cenas de filmes e suas músicas que mexeram comigo (antes e durante 2007).

7 – Little Green Bag, de George Baker Selection: créditos iniciais de Cães de Aluguel, logo após a conversa sobre Madonna e gorjetas.

6 – Extreme Ways, de Moby: Jason Bourne se dirige à escuridão em Ultimato Bourne.

5 – Wise Up, de Aimme Man: belo momento de Magnólia, onde todos se unem, mas ainda sozinhos.

4 – Sparring Partner, de Paolo Conte: após um jantar de confissões e decepções, o casal protagonista de O Amor em 5 Tempos e seus convidados vão ao vinho e à dança.

3 – Wake Up, de Rage Against the Machine: Neo deixa um recado à Matrix e olha pro céu.

2 – Angel, de Massive Attack: Henry se martiriza enquanto o bar vira um delírio visual em A Passagem.

1 – Bittersweet Symphony, de The Verve: Kathryn descobre o que Sebastian deixou pra trás em Segundas Intenções.

Acredito que a lista vai mudar. Há muitos filmes e muitas músicas. O espírito nunca é o mesmo em cada um deles.

Interferência

Não sei mexer muito com palavras. A idéia do blog era esquisita. Escrever? Só se fosse por algum valor didático, como mostruário de erros e clichês, mesmo após revisões e mais revisões. De resto, não vale a pena um texto meu de caráter pessoal. Porém, incentivado por uma amiga , fiz o blog. Diversão apenas. Mas virou algo de terapia. A serenidade não digita tão bem quanto o impulso. Com a indignação e tristeza, as palavras correm estimando a sinceridade e presas à estupidez. Espírito calmo, vale mais correr pra pessoas queridas, doces ou filmes.

Conheci outros blogs. Tive a impressão de que muitos partilhavam a mesma característica: escrever não necessariamente para ser lido, mas para ficar tranqüilo. Paulistanices é uma exceção, sempre deixou claro que escrever é quase uma necessidade fisiológica, tamanho é o talento e a instabilidade (espero que ela esteja melhor). Bons textos, às vezes não necessariamente pela escrita, mas pela personalidade. E, mesmo com todo aquele banho de visual e letras, eu continuava com meus textos chatos, pesados, sinceros, buscando me trazer calma e experiência (a última parte sempre funcionou).

Mas tenho que agradecer pelos bons textos que li. De humor gaiato e inteligente, de sensibilidade esperta (embora pouco freqüente) ou capazes de escrever um tijolo com a graça de uma pluma. Gostei muito, nem sempre por ler, mas por entender algo mais. E, um ano após o primeiro post, talvez possa ir pegando o jeito e dar mais margem ao agradável. Textos ruins voltarão, mas a visão vai ficando mais atenta ao lado brilhante da moeda.


"Assim como não se ensina a escrever, tampouco se ensina a imaginar. Mas a imaginação pode ser estimulada, atiçada, e mesmo, e infelizmente, desperdiçada. Ao preferir a imaginação, o que se trabalha não é a língua, nem a história da literatura, e muito menos o "escrever bem", ou qualquer outro valor fixo. Trabalha-se, ao contrário, a diversidade, a irregularidade, o desvio e o susto."

(José Castello)

PS: ainda valendo a regra da sinceridade: se possível ser além do amor (qualquer que seja a sua medida, qualquer que seja a sua realidade) e do pieguismo, tenho muito que agradecer a ela. Por todos os momentos em que ela consegue entrar em sintonia comigo mesmo com minha inclinação natural a fazer jus ao título do blog. Espero de todo o coração que possa haver sempre momentos em que palavras possam ser substituídas por sorrisos e olhares. Por mais um ano. Por mais outros. Obrigado.

Tartarugante

"Você é o cara mais pessimista que conheço"


"Você é um tanto quanto, digamos, dark..."


"Como sempre, ele criticou" (falando de mim)


"As duas coisas" (resposta que ouvi quando questionei se os pais de hoje estão amolecendo ou eu que sou rigoroso demais)


"Não te vi... tava te procurando nos lugares mais escuros"


"Você gostou mesmo? Nossa, agora fiquei feliz!"


"Já ouvi dizer que você não fala muito"


"Hum...Tá tudo bem? Não precisa responder o que é, só me diz sim ou não"


"Você tá sorridente... tá engraçado" (vendo uma foto minha)

"Isso é papo de Jigsaw" (referência a minhas ponderações em uma conversa)


Frases nos últimos 12 meses. Menção honrosa para o "Ânimo, Igor!" e para "Você é muito bão! Só precisa de mais fé... porra, é uma atéia te falando isso!".

Talvez esteja melhorando. Vontade de ser mais egoísta e pôr muita coisa a perder. Como conclusão, mais tolerância (com os outros) e mais tranqüilidade (tanto que estou escrevendo isso aqui). Ainda quieto, por ora de saco cheio de ouvir as mesmas reclamações, os mesmos tipos de assunto, as mesmas coisas previsíveis, mesmo sabendo que a vida é assim pra ser vida. No limite, há provocação de alguma mudança ou atitude inesperada, geralmente pra pior. O risco de sair da mesmice que assusta todo mundo. É mais fácil merecer um tapa do que um beijo como surpresa.

Certezas: 1- é necessário sempre ter uma válvula de escape pra tudo; 2 - vale a pena se divertir, 3 - nunca duvide da capacidade de ninguém pra estragar qualquer coisa.

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