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Evolução

Dizer que já era previsto o sucesso de Homem de Ferro 2 nos cinemas é chover no molhado: sequência de uma adaptação de quadrinhos bem realizada, campanha de marketing eficiente, ligação com outros filmes do universo Marvel, atraindo fãs de quadrinhos ou não, entre outros fatores. Talvez uma diferença a se observar no filme, comparado com outras adaptações de hq's, é como seu êxito depende do seu protagonista. Não apenas pelo fato óbvio de ser ele a vestir a armadura do super-herói, mas pela sua personalidade. Arrogante, debochado, excêntrico, infantil e narcisista (a ponto de revelar sua identidade secreta) não são características esperadas de alguém que luta contra ameaças à sociedade.

Mais surpreendente ainda é ver como o seu carisma é  justamente fruto de tais aspectos. Não se trata de um personagem unidimensional, principalmente ao fazer uma comparação com outro super-herói: enquanto Tony Stark faz questão de mostrar que ele e o Homem de Ferro ostentam a mesma personalidade, Bruce Wayne despreza tanto a sua figura de playboy rico que a utiliza para disfarçar a sua verdadeira natureza, revelada ao se vestir como Batman. São características semelhantes, mas que assumem diferentes inclinações para o espectador de acordo com as justificativas do herói. Caráter e extravagância para um, fardo e estratégia para outro. Batman, Homem de Ferro e outros super-heróis se mostram mais complexos do que aparentam ser. E são assim desde suas origens nos quadrinhos, fato felizmente representado (mas não sempre) nas últimas adaptações para o cinema.

Se hoje uma adaptação como Homem de Ferro 2 tem a sua estratégia de sucesso discutida de maneira tão cotidiana, é conveniente lembrar de um marco deste processo: o filme X-Men, lançado 10 anos atrás. Em uma época em que a lembrança mais recente de adaptação cinematográfica de quadrinhos era o fiasco multicolorido Batman e Robin (1997), a versão para as telas do grupo mutante atingiu um nível superior em relação a outras produções do gênero. Vale lembrar que, em 1998, Blade - O Caçador de Vampiros fez sucesso, mas foi um caso isolado, principalmente por mostrar um personagem pouco conhecido do público e fazer o protagonista adotar um estilo diferente dos quadrinhos. Já os X-Men eram populares no mundo inteiro, contribuindo para o aumento da expectativa do filme. Expectativa, aliás, cercada por desconfiança e até revolta. A mudança nos uniformes da equipe, por exemplo, gerou protestos.


Mas, além de trivialidades como uniformes inspirados no figurino de Matrix e a escolha de um ator desconhecido para interpretar o mutante mais popular da equipe, o principal obstáculo para o sucesso do filme era o preconceito contra os quadrinhos, como se tratasse apenas de conflitos superficiais do bem contra o mal, numa batalha utlizando poderes fantásticos. Não era o tipo de pensamento que antecipava, por exemplo, uma cena logo no início do filme, onde um senador faz o seguinte discurso:

"Eu tenho uma lista de mutantes identificados que residem nos Estados Unidos. Aqui tem uma garota em Illinois que pode atravessar paredes. O que a impede de atravessar as paredes do cofre de um banco, da Casa Banca ou [aponta para o público] da casa deles? E há ainda rumores, senhorita Grey, de mutantes tão poderosos que podem invandir nossas mentes e controlar nossos pensamentos, retirando nosso livre arbítrio concedido por Deus. (...) Senhoras e senhores, a verdade é que os mutantes são bem reais, e eles estão entre nós. Nós precisamos saber quem eles são e, acima de tudo, o que eles podem fazer!" 

Há preconceito e medo, mas também uma preocupação plausível. Mutantes sofrem discriminação assim como a parcela da sociedade composta por negros, homossexuais ou ateus (apenas para citar alguns exemplos) também sofre. Não é de se estranhar que alguns mutantes se revoltem. O que dizer de um mutante sobrevivente de um campo nazista? É o caso de Magneto, que, completamente descrente da humanidade, devolve o preconceito aos não-mutantes, que considera seres inferiores, passíveis de serem eliminados pela evolução da espécie. Charles Xavier, mentor dos X-Men, entende os sentimentos de Magneto (foi seu amigo na juventude), mas sabe que retaliação só levará a mais discórdia e, eventualmente, a destruição de ambos os lados.


O arco dramático, porém, não se limita ao medo e preconceito em torno dos mutantes. Contrariando a ideia de que ter poderes especiais sempre é algo positivo, a personagem Marie tem a habilidade de absorver os poderes e a vitalidade de qualquer pessoa que toque. Sem ainda saber que era uma mutante, ela fez o garoto que lhe deu o primeiro beijo ficar em coma por três semanas. Já ciente dos seus "dons", sabe que não pode tocar nenhum ente querido sem o risco de matá-lo. E, claro, sofre por isso.

Outro acerto do filme também foi o uso do humor, inclusive nas piadas com o próprio estereótipo de super-herói. Wolverine debocha dos codinomes dos membros de alguns mutantes (Ciclope, Tempestade, Magneto) e despreza os uniformes da equipe, mas se cala diante de outra alternativa (justamente os trajes originais dos quadrinhos). Fazia parte do esforço do filme em fazer o espectador imaginar aquela situação no mundo real (atitude que as versões para o cinema de V de Vingança, Cavaleiro das Trevas e Homem de Ferro também tiveram). Por estas e outras qualidades, incluindo as cenas de ação, o filme X-Men estimulou outras adaptações de hq's que vão além de um duelo de mocinhos e bandidos, sempre observando as ideias presentes no material original. A questão não é sempre reverenciar quadrinhos ou sua adaptações para o cinema, mas reconhecer quando uma obra do gênero se supera e incentiva a produção de outros títulos no mesmo nível ou ainda melhores, que é o que se espera.


Marca do desconhecido

"Muito, muito difícil. (...) Os estúdios precisam de uma marca que já tenha valor agregado, porque isso tem de alcançar uma plateia imensa para ter algum retorno. É corajoso por parte do estúdio bancar um filme como Avatar, mas, por outro lado, se der certo, a recompensa também é gigante. (...) As pessoas sabem demais antes de entrar no cinema".

James Cameron em entrevista publicada na revista SET, edição de setembro de 2009, respondendo como é chegar com uma ideia original para o cinema, sem reconhecimento prévio de marca. Durante a entrevista, ele se refere especificamente às adaptações de quadrinhos, atualmente o filão mais lucrativo para Hollywood. E Cameron foi certeiro: não se trata apenas de buscar as ideias de outras mídias, mas de aproveitar o valor da marca. E isso vem desde o início das projeções cinematográficas (como em Viagem à Lua, dirigido por George Méliès em 1902, influenciado pelo livro de Julio Verne). Olhando numa lista como esta ou esta, por exemplo, percebe-se a presença de remakes (Hora do Pesadelo, Fúria de Titãs, O Lobisomen) e sequências (Toy Story 3, o próximo Harry Potter, mais um Shrek, etc). Mas claro que as adaptações de quadrinhos estão lá também, de Homem de Ferro 2 a Kick-Ass. A importância do reconhecimento da marca antes da sessão fica mais evidente nesta lista, mostrando que, dos 30 filmes mais lucrativos da década, apenas dois não são baseados em obras anteriores (remake ou sequência) ou adaptações de um produto já estabelecido. 

Não há nada de errado em buscar inspirações em outras áreas além do cinema, principalmente porque excelentes filmes surgiram assim. É a força da imagem.  Claro que existem os riscos de fugir da essência da obra original. Mas a sensação de total desconhecimento do filme ao entrar na sala de cinema merece uma chance, o que é muito difícil em tempos de adaptações e internet. E este é mais um motivo de expectativa em torno de Avatar, além dos que já foram citados em um texto anterior. O ineditismo da obra. E em grandes proporções. Tentar ser original é sempre louvável. Principalmente vindo de alguém que não precisa se arriscar, como é o caso de James Cameron, diretor do filme de maior bilheteria da história do Cinema. Mesmo que Avatar fique abaixo do esperado, vale reconhecer o esforço. É uma pena que sempre é preciso um nome de peso para fazer um projeto original ir pra frente, como fez Peter Jackson ao produzir Distrito 9. Mas é a lógica de qualquer empreendimento capitalista. Faltar ideias é pior que faltar dinheiro. Mesmo que o preço seja se surpreender cada vez menos no cinema, já que fora da sala a vida sempre garante algumas surpresas, agradáveis ou não.

Baseado em...

Quando vi O Falcão Maltês pela primeira vez (foi lançado no Brasil com o título de Relíquia Macabra), gostei muito e só aumentou mais a vontade de ler o livro. Após descobrir um exemplar num sebo, revi o filme. Mesmo ciente das diferenças entre as duas linguagens, entre palavras e imagens, do beco sem saída ao comparar as lacunas para a imaginação da literatura com as novas dimensões propostas pelo cinema, senti mais reserva em relação ao filme. Uma reação natural, não se pode ficar indiferente diante do contentamento provocado por uma obra.  Haverá comparações. É uma resposta saudável, principalmente se as versões audiovisuais estimularem a procura pelas obras originais, como foi o caso das séries de TV Hilda Furacão e Os Maias. O resultado não é apenas a possibilidade de comparação, mas um enriquecimento cultural válido independentemente da qualidade de livro ou filme.

Ainda que as adaptações sejam formuladas para um público padrão para aumentar as chances de lucro, roteiristas e diretores não deixam de fazer uma leitura pessoal da obra original e transmitem isso no resultado final. O roteirista da versão cinematográfica de 2002 de O Conde de Monte Cristo disse que sempre achou que Edmond deveria ser o pai do filho de Mercedes. Pode ser clichê, mas era a opinião dele. Até em adaptações que buscam extrema fidelidade ao texto original apresentam toques próprios do diretor/roteirista. A versão cinematográfica de 1996 da peça Hamlet, dirigida por Kenneth Branagh, é conhecida por ser o primeiro filme a usar o texto de Shakespeare na íntegra (por isso as quatro horas de duração do longa), mas apresenta cenas somente descritas mas não interpretadas na peça original (como a infância de Hamlet ao lado de Yorick, cujo crânio é motivo do mónologo sobre a morte proferido pelo príncipe) ou apenas implícitas no texto da peça, como a relação sexual de Hamlet e Ofélia.

Ter consciência destes fatores e escolhas pode ajudar a apreciar um filme, mas o melhor mesmo é ainda lembrar que cinema e literatura são campos diferentes. Como Alan Moore disse em entrevista para a Trip, "a coisa ruim das adaptações feitas a partir de literatura, por exemplo, é que elas inevitavelmente perdem a voz do autor, o jeito que ele usa as palavras", o que não implica em repudiar qualquer adaptação, mas vê-las como são em primeiro lugar: como filmes, antes de serem baseados em qualquer outra mídia. O Silêncio dos Inocentes, Cidade de Deus, a trilogia O Senhor dos Anéis, Onde Os Fracos Não Têm Vez, Perfume - A História de um Assassino e Filhos da Esperança são ótimos filmes, independentemente de serem adaptações de livros. Da mesma forma, Carandiru, Tróia, O Código da Vinci, Guerra dos Mundos (2005), A Bússola de Ouro e alguns filmes do 007 são medíocres na tela, sejam eles bons ou não como livros.

Dito isto, por que é tão comum a sensação de que o livro é melhor que o filme? Possivelmente porque as palavras estimulam imaginação, os livros não têm tanta preocupação com a faixa etária do público nem precisam ficar preso a uma média-padrão de páginas, enquanto filmes precisam prestar muita atenção a censura e se encaixar a história em duas horas. Mas a principal razão mesmo é porque são campos diferentes, perde-se a prosa, o estilo do autor que conquista o leitor. Apesar de reconhecer a diferença entre as mídias, estou tentando lembrar de filmes que possam ser mais cativantes que os livros e não lembro de nenhum, o que prova que eu preciso ainda ler mais livros e assistir a mais filmes. Já li comentários dizendo que o filme O Iluminado, de Stanley Kubrick, é melhor que o livro ou que Os Pássaros, de Hitchcock, é superior ao conto. Mas não importa muito se não se conhece a obra original ou pior: não incita curiosidade alguma sobre o tema proposto.

Ego e estilo

"'O que você é?' Foi isto que aquela mulher me perguntou. Sou algum tipo de fantasma? Eu ainda me mexo. Ainda respiro. Ainda estou vivo." Esta é uma das falas em off do protagonista do filme The Spirit. Lendo tal frase como exemplo, quem gosta dos quadrinhos do personagem faz uma ideia ruim sobre sua adaptação para as telas. Spirit não é um fantasma e não tem dúvida alguma sobre sua natureza mortal (ainda mais por ser um detetive constantemente envolvido em brigas e tiroteios); raramente faz perguntas a si mesmo sobre outra coisa além do seu trabalho; não demonstra um raciocínio filosófico e melancólico como faz crer a frase acima. E os mais aborrecidos farão a advertência de que leitores não têm acesso aos pensamentos íntimos do detetive: poucas vezes um personagem da série faz uma narração em off da história apresentada, e Spirit não está entre eles.

Narração em off é um recurso comum em filmes noir, gênero do qual o quadrinhista Frank Miller é fã (Sin City é a melhor prova de sua admiração). Quase todos os seus trabalhos trazem este tipo de narração. É um meio de se conhecer melhor o personagem e de se identificar com ele. Muito comum em quadrinhos. Mas, no filme The Spirit, soa como preguiça e exercício estilístico de Miller. O resultado é ainda pior quando o próprio afirmou várias vezes que estava sendo fiel ao estilo de Will Eisner, criador do personagem. Não foi. O estilo de Eisner nas histórias de The Spirit foi influenciado pela fotografia dos filmes noir da época. Miller foi "influenciado" pelo visual de Sin City, de sua própria autoria.

Por outro lado, quando se observa o tom pastelão do filme, é possível argumentar que Miller fez um deboche da atmosfera pesada do cinema noir, já que o personagem não se leva muito a sério ainda nos quadrinhos. Se esta foi mesmo a intenção do diretor, novamente se revela um recurso pouco imaginativo: Miller foi "acusado" de fazer a mesma coisa com o personagem Batman em alguns quadrinhos (como na série Batman All Star), exagerando na composição violenta e fascista que ele próprio definiu para o herói na hq O Cavaleiro das Trevas. Aliás, o sentimento de proteção que Spirit nutre por Central City no filme tem ecos da visão de Batman sobre Gotham... E Miller ainda disse em entrevistas que "não gosta de mesmice".

The Spirit transparece ser mais uma manifestação de estilo (e ego) de Frank Miller do que uma homenagem às histórias de Will Eisner. E isto leva à questão em saber até que ponto um autor pode querer desenvolver suas próprias características sem sabotar a criatividade no trabalho. A mão de Tim Burton, por exemplo, pode ser sentida em quase todos os seus filmes, o que não o impede de dirigir obras diversas como o remake de O Planeta dos Macacos ou de A Fantástica Fábrica de Chocolate. Já M. Night Shyamalan desenvolveu um certo estilo de criar suspense, mas a insistência em bater na mesma tecla do mesmo jeito levou-o a resultados cada vez piores desde O Sexto Sentido e Corpo Fechado. Estabelecer uma identidade profissional é importante, mas nem sempre é preciso pagar o preço de limitar a criatividade e deixar de surpreender o espectador. 

Claro que sempre haverá casos em que o público deseja ver exatamente o previsto, como as referências de cultura pop de Tarantino ou a forte presença feminina nos dramas de Pedro Almodóvar. São temas onde o autor demonstra talento para desenvolvê-los e, portanto, nada mais natural que se queira ver mais do seu trabalho a partir daquela perspectiva. Mas, Hitchcocks à parte, o melhor é mesmo ter versatilidade sem perder estilo. E uma das melhores coisas que a consagração pública oferece é justamente uma liberdade maior de inovar, de experimentar novos gêneros e métodos aprendidos ao longo da carreira. Todo artista deveria ter isto em mente, em vez de ficar requentando velhas fórmulas por comodismo, convencimento ou medo de ser rejeitado.

Watchmen (ou como se passar cientificamente por um empolgado)

Tirando poeira de um trabalho que já me parece distante:

"Além da linguagem de ambos ser baseada em imagens seqüenciais, um motivo que justifica a crescente produção de filmes baseados em quadrinhos é o potencial midiático que cinema e histórias em quadrinhos possuem: são meios de comunicação de massa que exercem uma atração forte em relação ao público, tendo como principal atrativo a imagem e a forma como ela é trabalhada nestas mídias. A imagem faz parte do processo narrativo em que se desenvolvem as histórias nestas adaptações e também é essencial na formulação de estratégias criadas para vender produtos baseados nos filmes."

Há um grande número de trabalhos abordando as adaptações cinematográficas de quadrinhos. Boa parte deles só conheci depois de apresentar o artigo citado (vivendo e aprendendo...). Houve até um caso de plágio, mas essa é outra história que ainda estou tentando resolver. O fato é que, depois de falar sobre o tema na faculdade e em dois congressos, percebi muita coisa que deixei passar e o quanto ainda poderia ser estudado. Sim, estudado, pois falar a respeito, numa conversa informal de xingamentos e risadas, é uma atividade que eu e alguns amigos nunca deixamos de cumprir.

Cavaleiro das Trevas foi um divisor neste gênero. Não somente por ser a maior bilheteria do ano de 2008, mas por mostrar uma nova definição da abordagem mais humana e realista de um ser fantástico (e, claro, porque também tinha o Coringa em sua versão mais insana e perigosa). O diretor Christopher Nolan nunca escondeu a sua intenção de contar a história do Batman como se ela realmente pudesse ser aplicada no mundo real. E refletir o contexto sócio-político da realidade é algo que as grandes hq's fizeram. Entre elas, duas obras se destacam: The Dark Knight Returns, de Frank Miller, e Watchmen, de Alan Moore.

Watchmen é considerada a obra-prima dos quadrinhos. Não foi à toa que a sua versão nos cinemas gerou grande comoção pelo mundo: quem leu e releu a obra de Alan Moore sabe da enorme complexidade da história, não apenas pelo seu roteiro, mas pela estrutura narrativa. Depois de Cavaleiro das Trevas, a expectativa só fez aumentar.

Watchmen estreou. Tive lá minhas frustrações, embora não soubesse defini-las precisamente. Depois de anos de planejamentos e roteiros, um dos pilares das hqs's finalmente foi adaptado para o cinema em um momento onde os filmes baseados em quadrinhos significam lucro. Adaptado de forma fiel, ainda por cima. Já se pode imaginar os artigos que serão elaborados a partir disso. O lucro, a tecnologia digital, a importância da imagem... Pelo menos é o que consigo imaginar até agora.

De imediato, percebi o problema em comparar Batman e Watchmen. Cavaleiro das Trevas tenta mostrar Batman como se realmente ele pudesse existir além do cinema. Watchmen também parte da premissa de heróis mascarados no mundo real. Mas Batman existe desde o final da década de 30 do século passado. Já teve várias versões, de alegre bom-moço das onomatópeias a sombrio combatente quase fascista. A variedade de histórias e abordagens do personagem dá mais liberdade em suas adaptações, como mostram a série de TV dos anos 60 e os filmes de Tim Burton e Joel Schumacher. Watchmen é um arco fechado, sem derivações ou novas versões. Se isso se revelou uma vantagem em filmes como Sin City e 300, em Watchmen virou um problema. Sacrificar um personagem ou um evento pode comprometer seriamente a qualidade do roteiro original.

E foi o que houve. Mas há de se reconhecer que as falhas nesta parte não superam os acertos: ainda que haja forte quebra da narrativa em certos momentos, reunir as mais de 400 páginas da hq de forma plausível em um único filme deve ter sido um tremendo esforço (principalmente ao considerar a mudança no final). Quanto a situar a história no "mundo real"... Câmeras lentas, violência gráfica, golpes fantásticos que quebram a física são medidas para atrair público, mas dentro da proposta do filme não obtiveram um bom resultado. Guardadas as devidas proporções, lembrou o efeito da "edição de gibi" do Hulk de 2003: o clima dramático do filme é quebrado com efeitos de balões e páginas sendo viradas. Em Watchmen, o suposto realismo (na falta de um termo melhor) vai por água abaixo ao vermos um criminoso ser arrastado por vários metros por um único chute, principalmente quando quem desferiu o golpe deveria ser um herói relutante e fora de forma, apesar de no filme estar confiante e sorridente com a pancadaria.

Mas talvez o principal problema mesmo foi eu ter ficado com a sensação de que o diretor sacrificou muito da coerência em nome da fidelidade. Literalmente, ele tentou dar movimentos e falas aos quadrinhos, colocando numa roupagem mais moderna (o que até deu certo com o Coruja, mas terrivelmente errado com o Ozymandias). O problema nisso? A resposta é óbvia, mas encobre outras camadas: quadrinhos e cinema são mídias diferentes. Transpor a imagem do papel à película pode ter um efeito extraordinário, mas não basta ser somente uma fotografia: ela precisa interagir com outros elementos dentro uma história. A trilogia X-Men se saiu bem nesta última parte (embora ela tenha mesma vantagem do Batman de não ser um arco fechado de histórias).

Uma questão a ser levada em conta é a linguagem própria de cada meio. Emboa eu tenha dito antes o problema de comparar Cavaleiro das Trevas e Watchmen, não consigo imaginar agora um exemplo mais prático do que quero dizer. A cena do Coringa apreciando o vento na janela do carro de polícia funcionou espetacularmente no filme. Dificilmente seria aproveitada nos quadrinhos. O vento, as luzes da sirene, o movimento da câmera, tudo aquilo faz parte do significado da cena, em retratar a personalidade do Coringa, a sua tranquilidade e satisfação em aproveitar o vento mesmo depois da tragédia que provocou minutos antes. Tudo sem utilizar falas. O efeito da cena não seria o mesmo nos quadrinhos.



Já Watchmen aproveita todo o alcance que a linguagem das histórias em quadrinhos permite, como no seguinte recorte no enterro do Comediante (objeto de discussão no Curso de Cinema e Quadrinhos):

Observando todo o quadro, percebe-se que todos os três personagens estão juntos, lado a lado. Por que então separá-los com a linha branca divisória de quadrinhos? Uma possível interpretação é ver como os três personagens, embora juntos no momento, pessoalmente estão muito distantes um do outro, cada um ao seu próprio jeito. Ozzymandias, por exemplo, embora com semblante triste, está protegido da chuva, aludindo ao seu estilo de sempre planejar tudo. Dr. Manhattan, por sua vez, se protege da chuva criando uma aura própria, enquanto assume uma expressão de análise racional em vez de lamentação, ressaltando a sua condição cada vez mais distante da humanidade. Já Dreiberg, com o rosto triste, é atingido diretamente pela chuva, como se estivesse à mercê dela e não pudesse fazer nada, num comportamente semelhante ao que assume até certa parte da história. Além disso, em cada quadro há uma frase, dita pela mesma pessoa (no caso, o padre realizando o funeral). Em vez dos balões de fala do padre estarem ligados, cada frase sai justamente da linha divisória dos quadros, como se cada fala fosse direcionada especificamente a cada um deles, que reage do modo como está sendo mostrado, o que ressalta ainda mais a individualidade de cada um, como peças de um quebra-cabeça que se unem apenas pelo formato e não por vontade.

Como seria esta cena no cinema? Possivelmente, mostraria cada um dos personagens isoladamente, e em cada rosto se ouviria a fala do padre. E só então os três dividiriam a mesma cena, lado a lado. É possível reproduzir exatamente como no quadrinho, mas ficaria no mínimo confuso.

Cinema e quadrinhos têm como base a imagem e a arte sequencial, mas ainda são linguagem diferentes, com tempo de apreciação e interpretação diferentes. Simplesmente dar movimento e fala aos personagens no filme e reproduzir cada detalhe do cenário não é suficiente. Watchmen não afunda neste erro, mas passa perto. É louvável ver que a obra original, afinal de contas, foi respeitada, sem ser deturpada pelos clichês da maioria dos filmes de Hollywood. Ao que parece, isso foi suficiente para a maioria dos leitores da hq. Normal. Mas ainda acho que vale a pena aprender a analisar mais e, assim, apreciar melhor. Embora eu não troque o entusiasmo juvenil pela seriedade acadêmica diante das adaptações de quadrinhos para o cinema, ainda acho que dá pra levar os dois. Enquanto não faço outro trabalho acadêmico, vou ensaiando (às duras penas) aqui no blog. Um dia, quem sabe, acerto. Ou me rendo de vez à empolgação.

Abrangente

Há uns dias terminei um livro. Boa história, mas a estrutura lembrava um roteiro cinematográfico. Depois pude verificar: o autor realmente já havia feito o tratamento do roteiro de alguns filmes. Bons filmes, por sinal. Ser bom roteirista não o desqualifica como autor de livros, claro. Mas talvez as duas áreas estejam em conflito em vez de se complementarem. Foi a minha impressão, mesmo não sendo roteirista ou escritor. Tentar ser leitor atento, creio, me dá algum crédito.

Essa necessidade de visualização cinematográfica me ocupou a mente no último mês, desde as últimas
declarações de Alan Moore sobre cinema e quadrinhos. A "diluição da imaginação coletiva" provocada pelas adaptações de obras literárias para o cinema faz parte da postura sempre radical de Moore. Mas não deixa de ter razão em certos pontos. De uma forma ou de outra, sempre construímos visualmente o enredo de um livro durante a leitura. Ou mesmo quando apenas ouvimos a história. Mas ler já esperando pelo filme ou ter a iniciativa de ler a obra somente após vê-la adaptada para o cinema não é bom sinal. Quadrinhos e cinema são artes que dependem da imagem para existir. E a imagem é sempre atraente. Mas esperar sempre por ela ou julgá-la incessantemente necessária significa minar a imaginação da leitura.

Moore diz que sua obra Watchmen é "inerentemente infilmável". Existe alguma obra que não possa ser adaptada para o cinema? Seria o caso de definir exatamente o que é adaptação. Vários teóricos e leigos já discutem sobre o tema. Não é um ataque contra o cinema ou um manifesto a favor dos livros. Não chegar nem a ser um lamento, já que ainda me divirto bastante nessa cultura (espero ansiosamente o filme de Watchmen). É uma constatação, mais abrangente e talvez ainda mais desnecessária, da necessidade de sempre se fazer conhecer pelos outros. Natural, muito natural querer ser reconhecido, alimentar a auto-estima. Mas sabendo que há cada vez mais livros que parecem roteiros de filmes, quadrinhos que mais lembram storyboards, fotos cujo objetivo principal acaba sendo a exibição em sites de relacionamento em vez de servir como boa recordação e outros casos, é de se questionar quantos ainda gostam da atitude de mostrar menos e instigar mais.

Escolha

"Enfim, o filme de gênero é uma forma de expressão coletiva, um espelho voltado para a sociedade, que incorpora e reflete os problemas em comum e os valores dessa sociedade. A crítica de gêneros, por exemplo, considera que os musicais dos anos 30 podem ser explicados como uma fantasia escapista da Depressão; que o filme noir dos anos 40 expressa primeiramente as mudanças sociais e sexuais ocasionadas pela Segunda Guerra Mundial e, depois, a desilusão reinante após o conflito etc"

(A.C. Gomes de Mattos, Do cinetoscópio ao cinema digital: breve história do cinema americano, Editora Rocco)


Não somente o Cinema, mas qualquer manifestação artística direcionada ao consumo em massa reflete o contexto social, político e cultural. Nos quadrinhos, por exemplo, o Capitão América surgiu em 1941, esmurrando Hitler em sua primeira capa. Na literatura, autores como Dashiell Hammett e Raymond Chandler lançavam seus detetives cínicos e desiludidos em romances policias ambientados no final da década de 30, ainda amargurando os efeitos da Grande Depressão.

O diferencial do cinema, entretanto, é o seu alcance: ao contrário dos quadrinhos e dos livros, uma única cópia de um filme pode ser apreciada por centenas de pessoas simultaneamente, além de não exigir alfabetização para o entendimento da obra (não considerando as legendadas, obviamente). Além disso, a produção de um filme é milionária e mobiliza um imenso número de profissionais em sua realização, fazendo os estúdios adotarem todas as medidas possíveis para aumentar a margem de lucros e reduzir a de prejuízos, como qualquer empresa comercial; medidas como, por exemplo, a inclusão de cenas esperadas de romance ou ação (ou exclusão de cenas com forte conteúdo violento ou sexual) para conquistar um público maior.

Os filmes de gênero fazem parte desta estratégia. Se é anunciada uma comédia romântica adolescente, já se tem idéia do que será exibido. Considerando que, após o sucesso de X-Men e Homem-Aranha, os filmes de super-heróis baseados em quadrinhos já constituem um gênero cinematográfico, vem a pergunta: o que caracteriza um filme de super-herói, além da condição de seu protagonista? Grandiosas cenas de ação? Superpoderes? O herói salvando a mocinha e o mundo?

Sim. Com algumas variáveis e exceções, era a regra geral. Até assistir O Cavaleiro das Trevas.

Batman é um super-herói. Não tem superpoderes, mas transmite uma imagem fantástica a fim de causar tal impressão. Uma imagem de medo. Assumiu a tarefa de proteger Gotham City e, para isso, conclui que não pode respeitar as suas leis. Sua figura cresce tanto que inspira confiança receosa e um medo curioso. Até despertar outra figura fantástica que carrega o carta do coringa.

Determinar herói e vilão e suas características mais marcantes faz parte do gênero de super-herói. E O Cavaleiro das Trevas pára de fazer o esperado aqui. Há o confronto dos antagonistas, há cenas de ação, mas num ambiente pessimista, urgente, sem glória, como se a justiça cambaleasse diante do crime, mas nunca caindo totalmente. É um espelho da sociedade (ainda que conte com um morcego vigilante e um palhaço anárquico); da lei não acompanhando a justiça; do mal súbito, inexplicável e adormecido enquanto o homem não chega ao limite de seus esforços. É uma reviravolta no gênero, que o eleva a um novo patamar ao mesmo tempo em que o desconstrói. Não é de se estranhar que o filme receba de muitos veículos a classificação cinematográfica "policial". Mais correto seria drama policial.

Não há crença em milagres ou destino. Não há esperança, mas também não há desistência. Somente há confiança nas próprias ações, e esse comportamento encontra seu ápice nos dois antagonistas, cada um reforçando as próprias idéias diante da figura adversária. Tal reforço inevitavelmente identifica uma ligação entre os dois lados. Como disse a crítica Isabela Boscov, "o mais existencialista dos super-heróis ganha, assim, um adversário que é o seu exato oposto e complemento – um niilista".

Batman se adapta e reage aos desafios que sua metrópole impõe. Gotham City orienta seus passos. O Coringa, por sua vez, realiza o contrário: ameaça e faz a cidade seguir seus interesses até Batman interferir. Uma eterna ciranda que atinge seu clímax perto do fim, justamente quando troca seu compasso: Gotham oferece uma resposta que surpreende o palhaço e Batman antecipa o comportamento da população e faz com que ela siga o seu plano. É quando fica evidente o lado mais humano de qualquer herói ou vilão: sua capacidade de avançar para o bem ou para o mal, controlando sua própria vida para a nobreza ou para a tragédia, arcando com as conseqüências de cada decisão.

"Batman escolheu ser Batman. Nada determinava a sua escolha (...) O que a sua legenda nos diz, e talvez por isso dure tanto, é que o ser humano é cheio de imperfeições e maus impulsos, limitado pela biologia e condicionado por mitos e tradições, mas é livre para escolher o que quer ser. E decidir ser justo."


(Luiz Fernando Verissimo)

Não podemos viver sempre em extremos. Se de um lado está Batman e seu manto negro e de outro está o Coringa vestindo suas cores, a maioria de nós está no meio, vendo a vida em tons de cinza.

Controle

Obter o máximo de lucro possível (sempre) é a primeira justificativa para se produzir duas versões cinematográficas e não correlacionadas de um mesmo personagem dos quadrinhos em apenas 5 anos. Mas os dois filmes do Hulk (Hulk, dirigido por Ang Lee em 2003, e O Incrível Hulk, dirigido por Louis Leterrier e atualmente em cartaz) vão além desta questão, embora sempre comece pelo potencial financeiro.

Quando Bryan Singer foi convidado para dirigir o filme dos X-Men e soube que se tratava de heróis mutantes lançando raios pelos olhos e outros super-poderes, quis recusar a proposta. Voltou atrás ao ouvir um produtor dizer que os mutantes eram vítimas de preconceito social e perseguição (Martin Luther King foi citado nesse argumento). Era um potencial dramático eficaz, obviamente sem esquecer das cenas de ação. O filme teve grande sucesso em 2000. Três anos depois, a produção de Hulk seguiu caminho semelhante: convidaram um diretor conhecido pelos seus dramas para dirigir a história do cientista Bruce Banner, um homem cheio de frustrações, e o seu conflito por se transformar em um gigante verde toda vez que se irrita, o que o leva a lidar (às vezes de maneira trágica) com seus traumas diante da figura do pai, da mulher amada, da sociedade. Momentos de ação e destruição também estavam incluídos. Incentivado pelo enorme sucesso de Homem-Aranha, lançado no ano anterior, o filme foi aos cinemas. Não fez o sucesso esperado. Outros personagens fizeram.

De 2000 para cá, mais de quarenta filmes baseados em quadrinhos foram produzidos. É o filão mais lucrativo de Hollywood. Adaptações cinematográficas de quadrinhos quase sempre trazem a certeza do retorno nas bilheterias (qualidade artística é outro campo). Foi essa realidade que possibilitou a Marvel Entertainment, uma companhia norte-americana de entretenimento responsável pelos direitos autorais de vários personagens famosos dos quadrinhos, financiar seus próprios filmes, sem a participação de qualquer distribuidora (o primeiro foi Homem de Ferro). Isso garante mais liberdade e controle na direção dos filmes e, porventura, uma fidelidade maior às revistas, o que deve se converter em bons lucros com a venda de ingressos. Tal empreitada levará ao ambicioso projeto de lançar vários filmes de super-heróis, deixando ligações entre eles até reunir todos em um longa-metragem.

O Incrível Hulk integra este cenário. Evidentemente o interesse maior é de ordem financeira, mas a sua produção faz parte de uma nova fase da Marvel nos cinemas. Muitos personagens da editora (Homem-aranha, Motoqueiro Fantasma, Demolidor) ainda estão sob a custódia de alguns estúdios e, nos cinemas, fazem parte de universos que não se cruzam. Ainda não.

Quanto ao Hulk de 2003, é interessante ver um personagem através de diferentes ângulos. Respeitando os limites éticos, toda liberdade artística é válida, nem que seja para mostrar o que não se deve fazer (como um Motoqueiro Fantasma da vida). Não gostei do filme quando o vi pela primeira vez. E até agora não me agrada muito, um Hulk parecendo feito de chiclete e com uma edição homenageando os quadrinhos que tecnicamente é ótima, mas destoa muito do clima dramático da história. Mas agora vejo melhor suas qualidades. E também entendo com mais clareza porque prefiro O Incrível Hulk: mais do que ser fiel aos quadrinhos (o que já me cativa bastante), gostei de ver que não há sutilezas na raiva e no desespero do protagonista. No fim, acaba ecoando uma velha idéia sentimental: exercemos auto-controle demais; se é pra arrebentar, arrebente de vez. E em grande estilo.

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