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Evolução

Dizer que já era previsto o sucesso de Homem de Ferro 2 nos cinemas é chover no molhado: sequência de uma adaptação de quadrinhos bem realizada, campanha de marketing eficiente, ligação com outros filmes do universo Marvel, atraindo fãs de quadrinhos ou não, entre outros fatores. Talvez uma diferença a se observar no filme, comparado com outras adaptações de hq's, é como seu êxito depende do seu protagonista. Não apenas pelo fato óbvio de ser ele a vestir a armadura do super-herói, mas pela sua personalidade. Arrogante, debochado, excêntrico, infantil e narcisista (a ponto de revelar sua identidade secreta) não são características esperadas de alguém que luta contra ameaças à sociedade.

Mais surpreendente ainda é ver como o seu carisma é  justamente fruto de tais aspectos. Não se trata de um personagem unidimensional, principalmente ao fazer uma comparação com outro super-herói: enquanto Tony Stark faz questão de mostrar que ele e o Homem de Ferro ostentam a mesma personalidade, Bruce Wayne despreza tanto a sua figura de playboy rico que a utiliza para disfarçar a sua verdadeira natureza, revelada ao se vestir como Batman. São características semelhantes, mas que assumem diferentes inclinações para o espectador de acordo com as justificativas do herói. Caráter e extravagância para um, fardo e estratégia para outro. Batman, Homem de Ferro e outros super-heróis se mostram mais complexos do que aparentam ser. E são assim desde suas origens nos quadrinhos, fato felizmente representado (mas não sempre) nas últimas adaptações para o cinema.

Se hoje uma adaptação como Homem de Ferro 2 tem a sua estratégia de sucesso discutida de maneira tão cotidiana, é conveniente lembrar de um marco deste processo: o filme X-Men, lançado 10 anos atrás. Em uma época em que a lembrança mais recente de adaptação cinematográfica de quadrinhos era o fiasco multicolorido Batman e Robin (1997), a versão para as telas do grupo mutante atingiu um nível superior em relação a outras produções do gênero. Vale lembrar que, em 1998, Blade - O Caçador de Vampiros fez sucesso, mas foi um caso isolado, principalmente por mostrar um personagem pouco conhecido do público e fazer o protagonista adotar um estilo diferente dos quadrinhos. Já os X-Men eram populares no mundo inteiro, contribuindo para o aumento da expectativa do filme. Expectativa, aliás, cercada por desconfiança e até revolta. A mudança nos uniformes da equipe, por exemplo, gerou protestos.


Mas, além de trivialidades como uniformes inspirados no figurino de Matrix e a escolha de um ator desconhecido para interpretar o mutante mais popular da equipe, o principal obstáculo para o sucesso do filme era o preconceito contra os quadrinhos, como se tratasse apenas de conflitos superficiais do bem contra o mal, numa batalha utlizando poderes fantásticos. Não era o tipo de pensamento que antecipava, por exemplo, uma cena logo no início do filme, onde um senador faz o seguinte discurso:

"Eu tenho uma lista de mutantes identificados que residem nos Estados Unidos. Aqui tem uma garota em Illinois que pode atravessar paredes. O que a impede de atravessar as paredes do cofre de um banco, da Casa Banca ou [aponta para o público] da casa deles? E há ainda rumores, senhorita Grey, de mutantes tão poderosos que podem invandir nossas mentes e controlar nossos pensamentos, retirando nosso livre arbítrio concedido por Deus. (...) Senhoras e senhores, a verdade é que os mutantes são bem reais, e eles estão entre nós. Nós precisamos saber quem eles são e, acima de tudo, o que eles podem fazer!" 

Há preconceito e medo, mas também uma preocupação plausível. Mutantes sofrem discriminação assim como a parcela da sociedade composta por negros, homossexuais ou ateus (apenas para citar alguns exemplos) também sofre. Não é de se estranhar que alguns mutantes se revoltem. O que dizer de um mutante sobrevivente de um campo nazista? É o caso de Magneto, que, completamente descrente da humanidade, devolve o preconceito aos não-mutantes, que considera seres inferiores, passíveis de serem eliminados pela evolução da espécie. Charles Xavier, mentor dos X-Men, entende os sentimentos de Magneto (foi seu amigo na juventude), mas sabe que retaliação só levará a mais discórdia e, eventualmente, a destruição de ambos os lados.


O arco dramático, porém, não se limita ao medo e preconceito em torno dos mutantes. Contrariando a ideia de que ter poderes especiais sempre é algo positivo, a personagem Marie tem a habilidade de absorver os poderes e a vitalidade de qualquer pessoa que toque. Sem ainda saber que era uma mutante, ela fez o garoto que lhe deu o primeiro beijo ficar em coma por três semanas. Já ciente dos seus "dons", sabe que não pode tocar nenhum ente querido sem o risco de matá-lo. E, claro, sofre por isso.

Outro acerto do filme também foi o uso do humor, inclusive nas piadas com o próprio estereótipo de super-herói. Wolverine debocha dos codinomes dos membros de alguns mutantes (Ciclope, Tempestade, Magneto) e despreza os uniformes da equipe, mas se cala diante de outra alternativa (justamente os trajes originais dos quadrinhos). Fazia parte do esforço do filme em fazer o espectador imaginar aquela situação no mundo real (atitude que as versões para o cinema de V de Vingança, Cavaleiro das Trevas e Homem de Ferro também tiveram). Por estas e outras qualidades, incluindo as cenas de ação, o filme X-Men estimulou outras adaptações de hq's que vão além de um duelo de mocinhos e bandidos, sempre observando as ideias presentes no material original. A questão não é sempre reverenciar quadrinhos ou sua adaptações para o cinema, mas reconhecer quando uma obra do gênero se supera e incentiva a produção de outros títulos no mesmo nível ou ainda melhores, que é o que se espera.


Ego e estilo

"'O que você é?' Foi isto que aquela mulher me perguntou. Sou algum tipo de fantasma? Eu ainda me mexo. Ainda respiro. Ainda estou vivo." Esta é uma das falas em off do protagonista do filme The Spirit. Lendo tal frase como exemplo, quem gosta dos quadrinhos do personagem faz uma ideia ruim sobre sua adaptação para as telas. Spirit não é um fantasma e não tem dúvida alguma sobre sua natureza mortal (ainda mais por ser um detetive constantemente envolvido em brigas e tiroteios); raramente faz perguntas a si mesmo sobre outra coisa além do seu trabalho; não demonstra um raciocínio filosófico e melancólico como faz crer a frase acima. E os mais aborrecidos farão a advertência de que leitores não têm acesso aos pensamentos íntimos do detetive: poucas vezes um personagem da série faz uma narração em off da história apresentada, e Spirit não está entre eles.

Narração em off é um recurso comum em filmes noir, gênero do qual o quadrinhista Frank Miller é fã (Sin City é a melhor prova de sua admiração). Quase todos os seus trabalhos trazem este tipo de narração. É um meio de se conhecer melhor o personagem e de se identificar com ele. Muito comum em quadrinhos. Mas, no filme The Spirit, soa como preguiça e exercício estilístico de Miller. O resultado é ainda pior quando o próprio afirmou várias vezes que estava sendo fiel ao estilo de Will Eisner, criador do personagem. Não foi. O estilo de Eisner nas histórias de The Spirit foi influenciado pela fotografia dos filmes noir da época. Miller foi "influenciado" pelo visual de Sin City, de sua própria autoria.

Por outro lado, quando se observa o tom pastelão do filme, é possível argumentar que Miller fez um deboche da atmosfera pesada do cinema noir, já que o personagem não se leva muito a sério ainda nos quadrinhos. Se esta foi mesmo a intenção do diretor, novamente se revela um recurso pouco imaginativo: Miller foi "acusado" de fazer a mesma coisa com o personagem Batman em alguns quadrinhos (como na série Batman All Star), exagerando na composição violenta e fascista que ele próprio definiu para o herói na hq O Cavaleiro das Trevas. Aliás, o sentimento de proteção que Spirit nutre por Central City no filme tem ecos da visão de Batman sobre Gotham... E Miller ainda disse em entrevistas que "não gosta de mesmice".

The Spirit transparece ser mais uma manifestação de estilo (e ego) de Frank Miller do que uma homenagem às histórias de Will Eisner. E isto leva à questão em saber até que ponto um autor pode querer desenvolver suas próprias características sem sabotar a criatividade no trabalho. A mão de Tim Burton, por exemplo, pode ser sentida em quase todos os seus filmes, o que não o impede de dirigir obras diversas como o remake de O Planeta dos Macacos ou de A Fantástica Fábrica de Chocolate. Já M. Night Shyamalan desenvolveu um certo estilo de criar suspense, mas a insistência em bater na mesma tecla do mesmo jeito levou-o a resultados cada vez piores desde O Sexto Sentido e Corpo Fechado. Estabelecer uma identidade profissional é importante, mas nem sempre é preciso pagar o preço de limitar a criatividade e deixar de surpreender o espectador. 

Claro que sempre haverá casos em que o público deseja ver exatamente o previsto, como as referências de cultura pop de Tarantino ou a forte presença feminina nos dramas de Pedro Almodóvar. São temas onde o autor demonstra talento para desenvolvê-los e, portanto, nada mais natural que se queira ver mais do seu trabalho a partir daquela perspectiva. Mas, Hitchcocks à parte, o melhor é mesmo ter versatilidade sem perder estilo. E uma das melhores coisas que a consagração pública oferece é justamente uma liberdade maior de inovar, de experimentar novos gêneros e métodos aprendidos ao longo da carreira. Todo artista deveria ter isto em mente, em vez de ficar requentando velhas fórmulas por comodismo, convencimento ou medo de ser rejeitado.

Watchmen (ou como se passar cientificamente por um empolgado)

Tirando poeira de um trabalho que já me parece distante:

"Além da linguagem de ambos ser baseada em imagens seqüenciais, um motivo que justifica a crescente produção de filmes baseados em quadrinhos é o potencial midiático que cinema e histórias em quadrinhos possuem: são meios de comunicação de massa que exercem uma atração forte em relação ao público, tendo como principal atrativo a imagem e a forma como ela é trabalhada nestas mídias. A imagem faz parte do processo narrativo em que se desenvolvem as histórias nestas adaptações e também é essencial na formulação de estratégias criadas para vender produtos baseados nos filmes."

Há um grande número de trabalhos abordando as adaptações cinematográficas de quadrinhos. Boa parte deles só conheci depois de apresentar o artigo citado (vivendo e aprendendo...). Houve até um caso de plágio, mas essa é outra história que ainda estou tentando resolver. O fato é que, depois de falar sobre o tema na faculdade e em dois congressos, percebi muita coisa que deixei passar e o quanto ainda poderia ser estudado. Sim, estudado, pois falar a respeito, numa conversa informal de xingamentos e risadas, é uma atividade que eu e alguns amigos nunca deixamos de cumprir.

Cavaleiro das Trevas foi um divisor neste gênero. Não somente por ser a maior bilheteria do ano de 2008, mas por mostrar uma nova definição da abordagem mais humana e realista de um ser fantástico (e, claro, porque também tinha o Coringa em sua versão mais insana e perigosa). O diretor Christopher Nolan nunca escondeu a sua intenção de contar a história do Batman como se ela realmente pudesse ser aplicada no mundo real. E refletir o contexto sócio-político da realidade é algo que as grandes hq's fizeram. Entre elas, duas obras se destacam: The Dark Knight Returns, de Frank Miller, e Watchmen, de Alan Moore.

Watchmen é considerada a obra-prima dos quadrinhos. Não foi à toa que a sua versão nos cinemas gerou grande comoção pelo mundo: quem leu e releu a obra de Alan Moore sabe da enorme complexidade da história, não apenas pelo seu roteiro, mas pela estrutura narrativa. Depois de Cavaleiro das Trevas, a expectativa só fez aumentar.

Watchmen estreou. Tive lá minhas frustrações, embora não soubesse defini-las precisamente. Depois de anos de planejamentos e roteiros, um dos pilares das hqs's finalmente foi adaptado para o cinema em um momento onde os filmes baseados em quadrinhos significam lucro. Adaptado de forma fiel, ainda por cima. Já se pode imaginar os artigos que serão elaborados a partir disso. O lucro, a tecnologia digital, a importância da imagem... Pelo menos é o que consigo imaginar até agora.

De imediato, percebi o problema em comparar Batman e Watchmen. Cavaleiro das Trevas tenta mostrar Batman como se realmente ele pudesse existir além do cinema. Watchmen também parte da premissa de heróis mascarados no mundo real. Mas Batman existe desde o final da década de 30 do século passado. Já teve várias versões, de alegre bom-moço das onomatópeias a sombrio combatente quase fascista. A variedade de histórias e abordagens do personagem dá mais liberdade em suas adaptações, como mostram a série de TV dos anos 60 e os filmes de Tim Burton e Joel Schumacher. Watchmen é um arco fechado, sem derivações ou novas versões. Se isso se revelou uma vantagem em filmes como Sin City e 300, em Watchmen virou um problema. Sacrificar um personagem ou um evento pode comprometer seriamente a qualidade do roteiro original.

E foi o que houve. Mas há de se reconhecer que as falhas nesta parte não superam os acertos: ainda que haja forte quebra da narrativa em certos momentos, reunir as mais de 400 páginas da hq de forma plausível em um único filme deve ter sido um tremendo esforço (principalmente ao considerar a mudança no final). Quanto a situar a história no "mundo real"... Câmeras lentas, violência gráfica, golpes fantásticos que quebram a física são medidas para atrair público, mas dentro da proposta do filme não obtiveram um bom resultado. Guardadas as devidas proporções, lembrou o efeito da "edição de gibi" do Hulk de 2003: o clima dramático do filme é quebrado com efeitos de balões e páginas sendo viradas. Em Watchmen, o suposto realismo (na falta de um termo melhor) vai por água abaixo ao vermos um criminoso ser arrastado por vários metros por um único chute, principalmente quando quem desferiu o golpe deveria ser um herói relutante e fora de forma, apesar de no filme estar confiante e sorridente com a pancadaria.

Mas talvez o principal problema mesmo foi eu ter ficado com a sensação de que o diretor sacrificou muito da coerência em nome da fidelidade. Literalmente, ele tentou dar movimentos e falas aos quadrinhos, colocando numa roupagem mais moderna (o que até deu certo com o Coruja, mas terrivelmente errado com o Ozymandias). O problema nisso? A resposta é óbvia, mas encobre outras camadas: quadrinhos e cinema são mídias diferentes. Transpor a imagem do papel à película pode ter um efeito extraordinário, mas não basta ser somente uma fotografia: ela precisa interagir com outros elementos dentro uma história. A trilogia X-Men se saiu bem nesta última parte (embora ela tenha mesma vantagem do Batman de não ser um arco fechado de histórias).

Uma questão a ser levada em conta é a linguagem própria de cada meio. Emboa eu tenha dito antes o problema de comparar Cavaleiro das Trevas e Watchmen, não consigo imaginar agora um exemplo mais prático do que quero dizer. A cena do Coringa apreciando o vento na janela do carro de polícia funcionou espetacularmente no filme. Dificilmente seria aproveitada nos quadrinhos. O vento, as luzes da sirene, o movimento da câmera, tudo aquilo faz parte do significado da cena, em retratar a personalidade do Coringa, a sua tranquilidade e satisfação em aproveitar o vento mesmo depois da tragédia que provocou minutos antes. Tudo sem utilizar falas. O efeito da cena não seria o mesmo nos quadrinhos.



Já Watchmen aproveita todo o alcance que a linguagem das histórias em quadrinhos permite, como no seguinte recorte no enterro do Comediante (objeto de discussão no Curso de Cinema e Quadrinhos):

Observando todo o quadro, percebe-se que todos os três personagens estão juntos, lado a lado. Por que então separá-los com a linha branca divisória de quadrinhos? Uma possível interpretação é ver como os três personagens, embora juntos no momento, pessoalmente estão muito distantes um do outro, cada um ao seu próprio jeito. Ozzymandias, por exemplo, embora com semblante triste, está protegido da chuva, aludindo ao seu estilo de sempre planejar tudo. Dr. Manhattan, por sua vez, se protege da chuva criando uma aura própria, enquanto assume uma expressão de análise racional em vez de lamentação, ressaltando a sua condição cada vez mais distante da humanidade. Já Dreiberg, com o rosto triste, é atingido diretamente pela chuva, como se estivesse à mercê dela e não pudesse fazer nada, num comportamente semelhante ao que assume até certa parte da história. Além disso, em cada quadro há uma frase, dita pela mesma pessoa (no caso, o padre realizando o funeral). Em vez dos balões de fala do padre estarem ligados, cada frase sai justamente da linha divisória dos quadros, como se cada fala fosse direcionada especificamente a cada um deles, que reage do modo como está sendo mostrado, o que ressalta ainda mais a individualidade de cada um, como peças de um quebra-cabeça que se unem apenas pelo formato e não por vontade.

Como seria esta cena no cinema? Possivelmente, mostraria cada um dos personagens isoladamente, e em cada rosto se ouviria a fala do padre. E só então os três dividiriam a mesma cena, lado a lado. É possível reproduzir exatamente como no quadrinho, mas ficaria no mínimo confuso.

Cinema e quadrinhos têm como base a imagem e a arte sequencial, mas ainda são linguagem diferentes, com tempo de apreciação e interpretação diferentes. Simplesmente dar movimento e fala aos personagens no filme e reproduzir cada detalhe do cenário não é suficiente. Watchmen não afunda neste erro, mas passa perto. É louvável ver que a obra original, afinal de contas, foi respeitada, sem ser deturpada pelos clichês da maioria dos filmes de Hollywood. Ao que parece, isso foi suficiente para a maioria dos leitores da hq. Normal. Mas ainda acho que vale a pena aprender a analisar mais e, assim, apreciar melhor. Embora eu não troque o entusiasmo juvenil pela seriedade acadêmica diante das adaptações de quadrinhos para o cinema, ainda acho que dá pra levar os dois. Enquanto não faço outro trabalho acadêmico, vou ensaiando (às duras penas) aqui no blog. Um dia, quem sabe, acerto. Ou me rendo de vez à empolgação.

Abrangente

Há uns dias terminei um livro. Boa história, mas a estrutura lembrava um roteiro cinematográfico. Depois pude verificar: o autor realmente já havia feito o tratamento do roteiro de alguns filmes. Bons filmes, por sinal. Ser bom roteirista não o desqualifica como autor de livros, claro. Mas talvez as duas áreas estejam em conflito em vez de se complementarem. Foi a minha impressão, mesmo não sendo roteirista ou escritor. Tentar ser leitor atento, creio, me dá algum crédito.

Essa necessidade de visualização cinematográfica me ocupou a mente no último mês, desde as últimas
declarações de Alan Moore sobre cinema e quadrinhos. A "diluição da imaginação coletiva" provocada pelas adaptações de obras literárias para o cinema faz parte da postura sempre radical de Moore. Mas não deixa de ter razão em certos pontos. De uma forma ou de outra, sempre construímos visualmente o enredo de um livro durante a leitura. Ou mesmo quando apenas ouvimos a história. Mas ler já esperando pelo filme ou ter a iniciativa de ler a obra somente após vê-la adaptada para o cinema não é bom sinal. Quadrinhos e cinema são artes que dependem da imagem para existir. E a imagem é sempre atraente. Mas esperar sempre por ela ou julgá-la incessantemente necessária significa minar a imaginação da leitura.

Moore diz que sua obra Watchmen é "inerentemente infilmável". Existe alguma obra que não possa ser adaptada para o cinema? Seria o caso de definir exatamente o que é adaptação. Vários teóricos e leigos já discutem sobre o tema. Não é um ataque contra o cinema ou um manifesto a favor dos livros. Não chegar nem a ser um lamento, já que ainda me divirto bastante nessa cultura (espero ansiosamente o filme de Watchmen). É uma constatação, mais abrangente e talvez ainda mais desnecessária, da necessidade de sempre se fazer conhecer pelos outros. Natural, muito natural querer ser reconhecido, alimentar a auto-estima. Mas sabendo que há cada vez mais livros que parecem roteiros de filmes, quadrinhos que mais lembram storyboards, fotos cujo objetivo principal acaba sendo a exibição em sites de relacionamento em vez de servir como boa recordação e outros casos, é de se questionar quantos ainda gostam da atitude de mostrar menos e instigar mais.

Controle

Obter o máximo de lucro possível (sempre) é a primeira justificativa para se produzir duas versões cinematográficas e não correlacionadas de um mesmo personagem dos quadrinhos em apenas 5 anos. Mas os dois filmes do Hulk (Hulk, dirigido por Ang Lee em 2003, e O Incrível Hulk, dirigido por Louis Leterrier e atualmente em cartaz) vão além desta questão, embora sempre comece pelo potencial financeiro.

Quando Bryan Singer foi convidado para dirigir o filme dos X-Men e soube que se tratava de heróis mutantes lançando raios pelos olhos e outros super-poderes, quis recusar a proposta. Voltou atrás ao ouvir um produtor dizer que os mutantes eram vítimas de preconceito social e perseguição (Martin Luther King foi citado nesse argumento). Era um potencial dramático eficaz, obviamente sem esquecer das cenas de ação. O filme teve grande sucesso em 2000. Três anos depois, a produção de Hulk seguiu caminho semelhante: convidaram um diretor conhecido pelos seus dramas para dirigir a história do cientista Bruce Banner, um homem cheio de frustrações, e o seu conflito por se transformar em um gigante verde toda vez que se irrita, o que o leva a lidar (às vezes de maneira trágica) com seus traumas diante da figura do pai, da mulher amada, da sociedade. Momentos de ação e destruição também estavam incluídos. Incentivado pelo enorme sucesso de Homem-Aranha, lançado no ano anterior, o filme foi aos cinemas. Não fez o sucesso esperado. Outros personagens fizeram.

De 2000 para cá, mais de quarenta filmes baseados em quadrinhos foram produzidos. É o filão mais lucrativo de Hollywood. Adaptações cinematográficas de quadrinhos quase sempre trazem a certeza do retorno nas bilheterias (qualidade artística é outro campo). Foi essa realidade que possibilitou a Marvel Entertainment, uma companhia norte-americana de entretenimento responsável pelos direitos autorais de vários personagens famosos dos quadrinhos, financiar seus próprios filmes, sem a participação de qualquer distribuidora (o primeiro foi Homem de Ferro). Isso garante mais liberdade e controle na direção dos filmes e, porventura, uma fidelidade maior às revistas, o que deve se converter em bons lucros com a venda de ingressos. Tal empreitada levará ao ambicioso projeto de lançar vários filmes de super-heróis, deixando ligações entre eles até reunir todos em um longa-metragem.

O Incrível Hulk integra este cenário. Evidentemente o interesse maior é de ordem financeira, mas a sua produção faz parte de uma nova fase da Marvel nos cinemas. Muitos personagens da editora (Homem-aranha, Motoqueiro Fantasma, Demolidor) ainda estão sob a custódia de alguns estúdios e, nos cinemas, fazem parte de universos que não se cruzam. Ainda não.

Quanto ao Hulk de 2003, é interessante ver um personagem através de diferentes ângulos. Respeitando os limites éticos, toda liberdade artística é válida, nem que seja para mostrar o que não se deve fazer (como um Motoqueiro Fantasma da vida). Não gostei do filme quando o vi pela primeira vez. E até agora não me agrada muito, um Hulk parecendo feito de chiclete e com uma edição homenageando os quadrinhos que tecnicamente é ótima, mas destoa muito do clima dramático da história. Mas agora vejo melhor suas qualidades. E também entendo com mais clareza porque prefiro O Incrível Hulk: mais do que ser fiel aos quadrinhos (o que já me cativa bastante), gostei de ver que não há sutilezas na raiva e no desespero do protagonista. No fim, acaba ecoando uma velha idéia sentimental: exercemos auto-controle demais; se é pra arrebentar, arrebente de vez. E em grande estilo.

Semelhança

Nota: o texto deveria ter sido postado ontem. Imprevistos, não quis mudar, ficou pra hoje.

Há poucos dias morreram os atores Brad Renfro (a criança de "O Cliente", vítima de overdose de drogas no dia 15, estava com 25 anos) e Luiz Carlos Tourinho (rosto conhecido do humor na Globo, seu aneurisma cerebral rompeu no dia 21, estava com 43 anos). Nunca chamaram a minha atenção antes, é fato. Mas duas mortes repentinas de atores famosos em menos de uma semana não se ignora facilmente.

Depois de ouvir que "o novo Coringa morreu" e confirmar a notícia na internet, a supresa foi forte. Queria falar com alguém que, assim como eu, alimentava a expectativa de ver o Heath Ledger atuando no próximo filme do Batman. Falei com um dos lisos e ele, após me perguntar (e também perguntando a si mesmo) o que deve ter provocado a morte do Ledger, disse que era quase como "um marketing bizarro".

Nem eu e nem ninguém que conheço dava bola para os papéis ou filmes do Ledger até ele ser confirmado para o papel de Coringa em "The Dark Knight". Protestos ridículos pela escolha, principalmente depois dele ter interpretado (com talento reconhecido) o cowboy homossexual de "Brokeback Mountain". Vieram as fotos promocionais e o trailer e o novo Coringa ganhou respeito. Psicopata e insano, tão extravagante quanto perigoso. Todos aguardavam ansiosos o resultado final, sabendo que tanto a recompensa quanto a frustração podem vir em medidas generosas. Geralmente, a tendência é negativa. Mas o que seria da vida se o cinema, a tv, a literatura e outras artes não criassem essa vontade de se ver reconhecido ou de se evadir figurativamente em uma obra?

Os motivos da expectativa para o novo Coringa vão além do fato dele ser antagonista de um provável sucesso de bilheteria, seqüência de um filme que revitalizou nas telas um personagem icônico dos quadrinhos (o alcance que o reconhecimento do símbolo do morcego possui só é comparável ao S do Superman). Batman é um personagem desequilibrado e seus inimigos não ficam atrás. A maioria deles é reflexo de conflitos comuns a muitas pessoas consideradas normais. Claro que tais conflitos são elevados a uma potência muito maior e podem ser retratados de forma exagerada, mas têm fundo na mente humana. Como já escreveu o Alan Moore em A Piada Mortal, "só é preciso um dia ruim para reduzir o mais são dos homens a um lunático". E ele estava se referindo ao Coringa. Ledger, que contava 28 anos de idade, disse que as filmagens do "The Dark Knight" o deixaram exausto a ponto de atrapalhar seu sono, por isso ele começou a tomar o remédio que supostamente o matou ontem (ainda não há conclusões). Semelhança trágica.

Resta conferir nos cinemas se Heath Ledger fez um bom trabalho. E lembrar que, além de cinema e quadrinhos buscarem grandes histórias na realidade humana mesmo com um enredo fantástico, a melhor lembrança de que a vida é real é sua efemeridade. Esteja no fundo como Brad Renfro ou auge como Heath Ledger, um dia ela acaba.

"O que temos a temer, além do sol?"

Cassidy é um vampiro irlandês que bebe muita cerveja, fala palavrão demais, só usa roupas velhas e desbotadas e nunca larga os seus óculos escuros. É desbocado e só bebe sangue para regenerar ferimentos graves que tenha sofrido ou para atacar algum desafeto.

Em uma história atualmente nas bancas (Preacher nº2, da editora Pixel), Cassidy encontra outro vampiro. Cabelos compridos, roupas elegantes, capa escura, toma sangue como se fosse vinho e sempre exibe uma relação poética de admiração e melancolia com a vida eterna (ou não-vida).Cassidy é "Garotos Perdidos" e Elmore Leonard. O outro é "Entrevista com Vampiro" e Anne Rice. Punk de um lado, sinfonia gótica de outro. E gosto dos dois. E os dois enjoam.

As coisas vão mudar. Não sei ainda em que escala e velocidade. Outras continuarão, por gosto ou lei. Ainda na comparação, vampiros não morrem, precisam de sangue e proteção do sol. As regras param por aí. O resto é momento. Uns mais longos que outros. E momentos, nesse momento, não precisam de explicação. 

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