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O pecado da discrição

Vontade não falta de dizer "não é nada pessoal", mas seria mentira. É pessoal, claro. Não há outro jeito se tratando do facebook e outras redes de relacionamento. Estamos lá porque queremos conhecer, reencontrar, confraternizar e - santo verbo - compartilhar gostos e opiniões com outras pessoas. Também há os objetivos comerciais e de mobilização social, mas a base ainda é a relação pessoal. E tem muita coisa interessante e divertida. Vez ou outra aparece uma mensagem tocante. Se a paciência esgotar, basta diminuir o acesso. Ou cancelar a conta. 

É uma questão pessoal ficar viciado ou odiar o facebook. É algo muito revelador que, para centenas de milhões de usuários, ele seja um parâmetro de vida (em campos como matrimônio e sexo, com todo o exagero inerente a eles). A plenitude de uma boa ação sendo alcançada pela divulgação aos amigos e conhecidos virtuais. Ou, ideia mais radical,  determinada atitude não ser válida se não se inserir no facebook. Talvez intimidade ainda seja considerada como tal mesmo se tornando pública. Antes era mais fácil responder a esse tipo de questionamento. Talvez porque não importasse tanto.

De qualquer maneira, chegou o ponto de saturação. Para quem já estava familiarizado com orkut, era uma questão de tempo cansaço e irritação baterem cada vez mais ao ver as atualizações dos contatos. Postagens idiotas e ridículas saem a todo momento, não importa se o usuário é novato ou não. A opção de bloquear as atualizações ou cancelar a amizade sempre existiu. Futilidade faz parte do cenário. Mas, inevitavelmente, o exagero cresce à medida que a paciência diminui (e um fato justifica o outro). 

Muitas vezes, nos últimos meses, tive que esperar fotografarem o prato que pedimos em algum restaurante antes de começar a comer. Em segundos sai a imagem de uma bela refeição e a localização de onde estamos nos servindo. Foi divertido nas primeiras vezes. Porém, ver dezenas de pessoas fazerem a mesma coisa começa a cansar. Acontece o mesmo com filmes, aulas, passeios, catequizações, paixonites, dores-de-cotovelo, a filosofia "faz parte do meu show" - e da minha desgraça. Recentemente uma colega escreveu no mural dela "tomando um vinho super bem acompanhada". Pobre acompanhante. E, claro, houve momentos em que pedi abertamente para não divulgassem nada no facebook sobre certas novidades. Cobrir meus pecados com outros pecados.

Comentando sobre uma viagem com uma amiga, ela perguntou "cadê as fotos?". Tiramos várias fotos, algumas muito bonitas. Estão na câmera, mas falta a vontade de divulgar. Não há pressa, assim como ocorreu em outras viagens. Claro que vale registrar o momento, mas é melhor que isso não seja condição para aproveitar enquanto acontece e lembrar com carinho quando já passou. Parece uma ideia romântica, e das brabas, mas é por aí mesmo.  Lendo um texto sobre como as pessoas se conectam às redes sociais, lembrei de um amigo que encontrei em um congresso internacional. Contou-me muitas novidades: o doutorado na França, as viagens que fez durante os estudos, os momentos em que por falta de dinheiro ou outro alimento teve que abandonar o vegetarianismo, etc. 

Lembrando desse encontro, vem uma conclusão interessante: a sensação agradavel e reconfortante de saber de um amigo fora da internet. E eu não sou um cara muito sociável. Mas também não sou popular e, ainda assim, já me cobraram mais participação no facebook. Faz sentido, assim como faz entender que o facebook é uma rede que visa aproximar seus usuários, mas pode reforçar segregações (as acusações de orkutização do instagram, por exemplo). É natural a ideia de que um perfil no facebook seja uma compilação de melhores momentos da vida real (embora muitos divulguem fatos constrangedores e até dolorosos, o que não impede de receberem um "curtir" dos amigos). O problema é quando cada simples momento passa a constar desta seleção. Além de ser uma postura enganosa, afasta a noção de que perder a referência de simplicidade também faz perder a de excepcionalidade. 

Mesmo enjoado e perdendo moral no texto,  não pretendo sair do facebook. Alguns dos motivos estão no primeiro parágrafo. Tem muita coisa que gosto, apenas não estão superando o que é irritante. Melhor dar um tempo. Ser moderado, inclusive na hora de gostar dos outros. Aproveitando o lançamento de uma música, bom lembrar que essa cultura de curtir, gostar e fingir que é perfeito tem seu lado bom, mas também muito de pose. Pode mascarar o oposto. Reconhecer pontos de caos e discórdia, incluindo os próprios, ajuda no seu controle.  

Resposta

"Blog é literatura?". Pergunta que me faz voltar a escrever aqui, como resposta superficial de caráter opinativo. Um motivo válido, melhor do que as minhas últimas indagações e abstrações sobre o que me fazia manter um blog, chegando ao cúmulo da postagem anterior. Desta vez tenho um bom pretexto: uma pergunta interessante, vinda de uma amiga estimada e respeitada e, de quebra, tira um pouco da ferrugem e da preguiça deste espaço. Não que essa última parte signifique grande coisa em tempos de mudanças de cidade e semestres letivos.

À primeira vista, a resposta da pergunta já está compreendida na própria apresentação do problema. "Se considerarmos o conceito de literatura como a arte de criar e recriar textos capazes de produzir efeito estético e provocar a catarse, a resposta é sim. Mas, e se consideramos a definição de Literatura do ponto de vista canônico, será que a resposta é a mesma?" Não é a mesma. Além da natural resistência dos acadêmicos da instituição (a qual  pude constatar mais de uma vez, tanto ao vivo como por relatos, começando quando fui pesquisar se quadrinhos são literatura), pode-se argumentar que os blogs não apresentam nenhuma grande novidade em relação a outros modelos literários (já li, e num livro, que o hipertexto nas postagens é uma otimização das referências bibliográficas ao final da obra), que a história deles é muito recente para se definir como literatura ou - chegando a uma etapa mais filosófica - que as várias conexões informativas presentes nos blogs estimulam a dispersão do leitor, indo contra a abstração mais profunda e centrada que uma obra literária canônica deveria ter. Não teria um poder transcendental ao ser humano. Isso levaria a uma pergunta mais abrangente: blog é uma forma de arte?

Quanto ao efeitos estético e catártico da blogosfera, não tem como não questionar como eles se configuram diante das redes sociais. Porque, mais do que estética, a catarse é a palavra-chave. E, na internet, quanto mais rápidos forem produção e retorno, tanto melhor. Como se uma declaração de amor ou uma reclamação do trânsito tivessem efeito apenas se fossem publicadas quase no instante que foram mentalmente formuladas. E no máximo em 140 caracteres. Neste sentido, os blogs se aproximam mais de um estilo literário do que o twitter ou o facebook. E não é surpresa que, embora longe de perderem sua relevância, os blogs despertam cada vez menos atenção como representações pessoais do que como espaços jornalísticos ou institucionais. É a cibercultura. Daqui a pouco vão enjoar das hashtags e partir pra outra.

Mas, considerando a estética, penso em alguns tweets, com um sorriso de resignação e inveja, que conseguiram expressar melhor meus pensamentos do que várias linhas que já escrevi. Belos aforismos do espírito. Sendo assim, twitter é literatura? E quem manda bem em 140 caracteres teria o mesmo resultado em blogs? É mais uma questão de software ou de estilo pessoal? Talvez sejam perguntas que fujam da questão principal, mas que passam pela mente ao lembrar de texto, hipertexto, link, internet, catarse, imagem, estética. E que, para uma reflexão mais aprofundada, exige mais do que consultas à wikipédia ou, num sucinto mais arcaico, da leitura da coleção Primeiros Passos.

Por isso, desejo sorte à Repórter de Sandálias na discussão sobre o tema, mesmo sabendo que ela vai depender muito mais da competência que possui, e que não é pequena. Afinal, mais do que uma graduada em Comunicação com mestrado em Letras - portanto, mais do que apta a considerar o melhor do diálogo de ambos os campos -, é alguém que demonstra atenção e sensibilidade para captar o interesse alheio naquilo que é sua motivação profissional e pessoal: o ato de escrever. 

Tanto que me incentivou a voltar aqui. Obrigado.


Cem

- Então... centésima postagem, não é isso?

- É.

- Por isso resolveu escrever como diálogo?

- Foi um dos motivos. Não sabia bem o que escrever a respeito, mas queria escrever. E, como já estava ficando de saco cheio do meu próprio texto, achei que escrever em discurso direto poderia ajudar, sem pensar tanto antes de digitar. Pode não ser uma boa saída, pode ficar ridículo, mas incentiva um pouco.

- E com quem está conversando?

- Pois é... o que dizem de um diálogo com uma só voz?

- Seria então apenas sobre você mesmo?

- Haveria outra maneira? Digo, o blog todo é sobre mim. Tentei escrever sobre assuntos variados, sendo objetivo, mas não deixa de ser minha perspectiva. Certo, não há assuntos tão variados assim, mas não há um tema específico, uma linha-chave. Nenhuma novidade até aí.

- E quais foram as últimas novidades?

- Nenhuma. De certa forma, isso me entristece um pouco, mas não é nenhuma surpresa. Percebi que escrevo mais num estado mediano, quando não estou nem muito alegre nem muito triste. Não necessariamente alegria ou tristeza, mas num ponto morno, por assim dizer. Quando nada me empolga ou desanima demais. Mas, além disso, uma hora cansa. Por isso já falei muitas vezes sobre o que leva a ter um blog pessoal, sem objetivo de lucro ou vínculo institucional. Vi algumas coisas, artigos, matérias, outros blogs, compartilhei links. E, pra variar, isso cansou também. Como já me disseram: por que ficar procurando motivo?

- E encontrou alguma resposta ou desistiu de procurar?

- Dei um tempo. Como eu disse, já li e escrevi sobre isso, principalmente quando o blog fez aniversário. Encontrei alguns motivos, mas não necessariamente uma motivação. Podia deixar pra lá, como cheguei a fazer, mas sei que uma hora vou voltar a escrever, nem que sejam velhas abobrinhas. Gosto, fico enjoado, dou um tempo, volto depois e o processo reinicia. Tudo isso sendo afetado pelo tempo disponível e estado emocional. É um círculo. Não é complicado entender.

- Falando assim, parece que já encontrou uma resposta.

- É, percebi isso agora. Já ouvi que tenho uma tendência a complicar questões que, no fundo, não são muito complexas. Minha mãe já disse isso. Até já me disseram que é por isso que não fico tão deslocado ao trabalhar com textos acadêmicos, pelo menos nas Ciências Humanas. Foi uma brincadeira, claro, mas admito que, quando lembro de alguns textos e aulas, especialmente metodologia, penso que tem um fundo de verdade. Mas e daí? Não me orgulho, mas não chega a ser uma condenação moral. Além disso, o blog é de quem? E outra coisa: vi que, justamente por essas perguntas, muitas vezes bobas, é que surgiram textos tão estimulantes, falando não somente de blogs, mas da expressão humana de maneira geral. Toda essa ansiedade é inerente e estimulante à linguagem. Confunde, pode encher o saco, mas faz parte.

- E você acha que já escreveu algum texto estimulante?

- Depende que tipo de estímulo, não é? Se for para estimular a ter um blog próprio, acho que não, até porque nunca tive essa intenção. Se for para ver ou rever alguns filmes, por exemplo, então sim, tive uma ou outra postagem que valeu. Pelo menos eu gosto de reler.

- Então você relê muita coisa do blog?

- Relia mais, principalmente nos dois primeiros anos, quando dava mais atenção ao blog. Mas geralmente não curto muito o que escrevi. Tem uns textos legais, outra parte ruim, quase constrangedora, e a maioria não fede nem cheira.

- Já apagou muitos textos?

- Não. Nenhum, para falar a verdade.

- Mas você disse que tem uma parte ruim do blog. Por que não apagou?

- Para chegar à centésima postagem... Brincadeira. Mesmo lembrando que este diálogo é o texto número 100 do blog, incluindo partes boas e ruins, eu não apaguei nada porque acho que cada postagem se encaixava no contexto que a escrevi. E isso me traz lembranças e, às vezes, ajuda a entender alguma situação atual ou recordar o caminho que fiz até ali. Isso não é muito comum, entretanto. Alguns textos eu não apaguei apenas para me lembrar de não escrever daquele jeito novamente. Aliás, essa própria conversa pode ser um exemplo disso no futuro.

- Sim, você também já falou sobre isso em outros textos do blog. Mas isso não acaba ficando previsível? Digo, é um blog de você para você mesmo. Uma hora você sabe a resposta antes da pergunta, pelo menos nas postagens de caráter mais pessoal. Se você quer um texto ruim ou uma lembrança boa, vai saber onde procurar porque já olhou ali outras vezes, não é? Uma hora isso não deixa de funcionar?

- Você acabou de mostrar a tendência de complicar as coisas. Mais um pouco e talvez até a psicanálise possa oferecer um diagnóstico dessa conversa como uma manifestação do ego e tal... Mas tem razão. Uma hora fica chato e não rende mais. Mas já li e reli, então por que apagar no final das contas? Não sei ao certo. Costumo ler outras fontes para melhorar ou no mínimo mudar as perspectivas. Mas aí veio outra questão: quanto mais eu lia, menos escrevia. Talvez seja um sintoma geral ou não. Comigo acontece. Mas o blog não fica parado por muito tempo por eu estar lendo muito. Tem a ver, mas não é a principal razão. É mais aquilo que disse antes, do círculo de enjoar e voltar. 

- E, no momento, você está enjoado ou na ativa com o blog? 

- Não sei. Há um certo conforto na indefinicão das intenções, não é? Parece um pouco quando nós somos os primeiros a nos censurar, como se a autocrítica tirasse o direito dos outros de apontar nossos erros. Mas aqui eu posso fazer isso, então não sei mesmo.

- Então o centésimo post pode ser o último?

- Improvável, mas talvez seja um dos últimos deste blog. Faz um tempo que penso em ter outro blog para assunto mais específicos. Cinema, adaptações de quadrinhos ou games, crônicas de rpg,  livros acadêmicos, sei lá, uma coisa que me fizesse ser mais objetivo.. E como isso ajudaria minha vontade ocasional de escrever, pode ser que este blog possa aos poucos ir ficando de lado. Talvez trouxesse até um benefício prático para mim, em vez de me fazer ficar matutando sobre questões pseudo-existenciais.

- Se houvesse uma outra pessoa além de você nessa conversa, o que você diria?

- Agradeceria a paciência de quem leu o blog por tanto tempo. Mas isso eu diria se houvesse outra pessoa ou não. É algo que merece ser expresso. Tirando isso, não sei. Que vale a pena escrever, nem que seja para escrever mais daquele jeito. Que os melhores textos costumar ter uma linguagem clara, mas nem sempre isso se aplica a estouros emocionais ou textos de caráter expressamente artístico. Enfim, que é sempre bom tentar melhorar. Nada de novo. Acho que, no fundo, tudo isso quer dizer que a sensação de progresso ou o sentimento de evolução valem a pena, mesmo que não se saiba qual é o topo. Mas com certeza não é o centésimo post de um blog.

Carrossel (Interferência IV)

Três meses sem postar. Trabalho, estudo, casa. Mas também já estava enchendo. Algumas coisas mudaram agora, perto do fim do ano. Mudaram até um pouco antes. Não escrevi mesmo assim. Nem era vazio de pauta: tinha assunto, faltava a vontade. E, em diversas ocasiões, também a competência. Como uma das graças aqui é não ter presença obrigatória, ficou às moscas mesmo. Tempo necessário para ler mais, aprender mais na internet, ver outros projetos, torcer pelo sucesso de alguns planos e, invariavelmente, olhar para o teto - ou para o chão - e se perguntar o que exatamente estou fazendo. Fingindo controle sobre os dados na mesa ou desafiando o relógio na parede. Junto com as respostas vieram outras perguntas, lembrando de dúvidas anteriores, e ficou a sensação de subir no carrossel e querer opções variadas de trajetos e destinos. Já estava ridículo, foi melhor se afastar um pouco. Agora, retomando o espaço, dá pra exercitar a memória e lembrar de filmes e fatos que talvez rendessem textos razoáveis (pelo menos para quem escreve). Mas fica pra depois. Por enquanto, permanece apenas a conclusão de que foi um ano movimentado. O quarto ano deste blog. E, embora tenha escrito menos (e pior) do que nos anos anteriores, continuar aqui ainda é uma vontade. Por mais algum tempo, enquanto também acompanho outros textos, prolíficos ou hesitantes. Algumas vezes, isso basta. Em outras, o melhor é rir e dar um tempo. E torcer para que tudo volte ao "normal". Se houver tal opção...

O antes hoje

À Prova de Morte demorou três anos para chegar aos cinemas brasileiros. O filme faz parte do projeto Grindhouse, concebido pelo diretores Robert Rodriguez e Quentin Tarantino, como uma homenagem aos filmes B dos anos 70, baratos e com ênfase em temas como sexo e violência para animar as bilheterias (exploitation films). Como a qualidade das películas não era das melhores, eram comum as sessões duplas pelo preço de um único ingresso. Até os cartazes eram feitos para divulgar a "promoção" de filmes dois-em-um. Portanto, Planeta Terror (a parte de Rodriguez) e À Prova de Morte (segmento de Tarantino) deveriam ser exibidos em uma sessão contínua, como era feito antigamente. Ambos os filmes têm uma imagem suja, envelhecida, como se fossem realizados naquela época. E ambos fracassaram nas bilheterias nos Estados Unidos. Quem hoje tem tempo e paciência para aguentar no cinema 3 horas de filmes "toscos"? O melhor era a exibição de cada obra separadamente.

Planeta Terror eu vi no começo de 2008, numa sala cheia de jovens casais empolgados com a proposta de terror barato, mulheres atraentes e cenas absurdas. Divertido. Mas não vendeu muitos ingressos por aqui. Então o estúdio segurou a outra parte, À Prova de Morte, para evitar prejuízos. E ficou assim até agora, quando os direitos de exibição passaram para outra empresa. Nesta semana, eu pude ver o filme. Sala lotada novamente, mas muita gente nem sabia o que esperar. Aproveitaram o preço promocional do ingresso, o título curioso (nenhum pôster estava pendurado, apenas um papel informando os horários) e consideraram uma alternativa à franquia Crespúsculo ou Shrek e suas dezenas de adolescentes na fila.

O clima geral foi de decepção, principalmente das mulheres. Mas, perto do fim, houve uma euforia predominantemente feminina. É uma boa ilustração de como Tarantino conduziu seu trabalho: uma parte onde as mulheres são sensuais e manipuladas, outra onde não são tão lascivas, mas demonstram resistência ao perigo. E, para variar, há um desfile de características do "estilo" Tarantino como pés femininos, recriações de cenas de outros filmes do diretor, tomadas dentro de porta-malas, referências a filmes obscuros, longos diálogos (alguns cansativos)... abrindo caminho para o mais do mesmo até Bastardos Inglórios. As sequências de ação são estimulantes e uma das razões disso é a opção de Tarantino em evitar ao máximo efeitos visuais, tornando as cenas mais críveis no seu impacto e violência. E impossível não citar uma sequência ao som da música Down in Mexico que, para mim, se tornou antológica.

Mas o meu maior interesse é reparar na passagem do tempo e as mudanças que ela trouxe no intervalo entre Planeta Terror e À Prova de Morte. No filme de Rodriguez, havia tempo de sobra, vontade maior de escrever, público mais homogêneo na sala e uma boa disposição em assistir vários filmes. Já ao assistir Tarantino era cansaço, tempo mais escasso, espectadores diferentes, mulheres reclamando, jovens mais fúteis. E gostei mais de À Prova de Morte, talvez por julgar que passei a entender um pouquinho mais do que gosto em Cinema. Comparar momentos da vida a partir de sessões de filmes pode revelar alguma coisa do que aprendemos ao longo do processo. Estudos, filmes, livros, experiências, divertidas ou não. Tudo junto e misturado, mesmo com cada coisa em seu lugar. Momentos Down in Mexico. A vida grindhouse.

Além do Plano Piloto

Quem gosta de Brasília? Só quem já morou lá, eu diria. Não conheço quem foi apenas visitante ou turista e caiu de amores pela cidade e seu clima seco, suas divisões em quadras (quadras, superquadras ou entrequadras) e setores (Hoteleiro, Gráfico, Comercial Norte, Cultural Sul, etc) e suas ruas sem esquinas, batizadas não com nomes de pessoas ilustres, mas com siglas orientadas pelos pontos cardeais a partir das referências do Eixo Rodoviário e do Eixo Monumental (o "Eixão"). Curioso, engraçado ou - o mais provável - estranho. Admirável é pedir muito. Não se perder de imediato, também

É possível admirar, quem sabe, as construções que aparecem toda semana no noticiário: Palácio do Planalto, Palácio da Alvorada, Itamaraty, Supremo Tribunal Federal, Esplanada dos Ministérios e, claro, o Congresso Nacional. É o Niemeyer imperante. Mas a beleza arquitetônica de tais edifícios, se reconhecida e respeitada, dificilmente supera dois obstáculos. O primeiro é de ordem material e imediata: mesmo belos e famosos, tudo é cimento e ferro. E, ao contrário do Cristo Redentor, a vista ao redor não é de tirar o fôlego. Aliás, pode ter o efeito contrário, justamente pela segunda barreira, de ordem moral e ainda mais perigosa: o imaginário que se tem de Brasília, alimentado principalmente pela mídia. Capital federal, casa do poder político nacional, centro dos escândalos que revelam o lado corrupto e inescrupuloso dos eleitos pelo povo para representar o próprio.

Mas as boas-vindas e as decepções não se resumem ao que a televisão mostra da Praça dos Três Poderes. Sempre há mais o que se conhecer. Catedral, Panteão, Complexo Cultural, Torre de TV, Memorial JK e outros. Ainda ferro e cimento, mas indispensáveis para conhecer e aprender. Brasília é assim mesmo: não se apóia na sua natureza, mas na sua curta e conturbada história. Ainda assim, deve se ver além dos seu prédios. Muito além. A vastidão e amplitude características da cidade. Marca os olhos, tanto ao se caminhar pelas ruas com poucos pedestres como ao se olhar por cima. E haja céu...

 Foto tirada da Torre de TV em setembro de 2006. Atualmente, a fonte circular, como quase toda a cidade, está em obras

Por isso, Brasília não tem multidões sufocantes, mesmo com todas as passeatas, protestos e marchas que possam acontecer. A aglomeração apertada comum no Círio de Nazaré ou no Ano Novo de Copacabana não tem espaço por ter tanto espaço. Mais uma distinção aprazível. Há também o seu lado não tão agradável: poucas pessoas caminham pelas ruas e, se os curitibanos têm fama de serem reservados e até frios com forasteiros, então é preciso conhecer os brasilienses. Longe de serem como os alemães. Mas não costumam puxar conversa. 

 Multidão se dispersando minutos após o fim do Desfile de Independência em 2006

E o que se sabe dos costumes e da cultura de Brasília? Sim, Legião Urbana veio de lá. Plebe Rude e Capital Inicial também. E, para quem passou os primeiros anos de vida na cidade durante metade da década de 80, gostar da música deles não era nem um pouco difícil. A história, mais uma vez, fez o resto. Ainda há muitas e muitas bandas de garagem, mas outros ritmos musicais já se consolidaram. Destaque para o choro. Móveis Coloniais de Acaju tá mandando bem. Falando em bandas, havia a ideia (que o próprio Renato Russo ajudou a espalhar) de que os jovens sempre tocavam algum instrumento porque não havia muito o que fazer na vida noturna da cidade. Quantos anos se passaram para que o cenário mudasse? Outra coisa é que fazer concursos públicos lá é realmente quase um estilo de vida. E não sei definir características do sotaque ou do linguajar brasiliense. Sei que, devido à rivalidade com os vizinhos, gritar "goiano!" para alguém no trânsito é, no mínimo, uma advertência irritada. E "baú" pode ser gíria para ônibus. Mas não dá para notar um traço forte como tem os cariocas ou expressões próprias como o "égua" paraense ou o "uai" mineiro. Não é de se estranhar. Afinal, Brasília é muito jovem e ainda sente influências de todos os brasileiros que migram para lá.

No aniversário de 50 anos da cidade, é tudo que conheço ou lembro de Brasília na prática, fora das pesquisas na internet. E quase nada além do Plano Piloto. Hoje, é vista como uma metrópole que mal consegue acompanhar seu próprio crescimento, o que não deixa de ser uma ironia triste, já que é conhecida por ter sido planejada para ser a capital brasileira. Para muitos, é um símbolo de arrogância política, um erro histórico. Para muitos outros, é apenas uma cidade sem carisma, principalmente por aparecer tanto na televisão (quisera eu conhecer outra capitais sem visibilidade do Centro-Oeste e do Norte para comparar). Brasília não foi feita para deslumbrar. Isso é tarefa do Rio. Nem caberia dizer agora para qual objetivo foi feita, além do óbvio de ser a capital do País. A História não retrocede. Mas penso que, se há 50 anos o Brasil olhava para lá, agora é bom voltar o olhar para o resto do território nacional. Seria bom se isso fosse feito de qualquer lugar do País e em qualquer dia do ano. Nunca parei para imaginar como eu seria se continuasse minha infância em Taguatinga, fortalecendo o que chamam de raízes. Pelo menos posso afirmar que uma das melhores coisas de ter saído foi ter uma noção melhor das diferenças do Brasil. O reconhecimento de que se sabe pouco. A vontade de conhecer mais. E, às vezes, olhar para o começo de tudo.

Parabéns,

  Janeiro de 2010

Rememorável

Ano passado tive a oportunidade de assistir ao curta-metragem Quarto de Espera e, na ocasião, comentei o fato do filme dar certo ânimo ao espectador por oferecer tantas interpretações para, logo em seguida, jogar água fria nele, pois o diretor não dava certeza de nenhuma metáfora ou simbolismo, nem parecia disposto a colaborar na discussão. No início deste ano, mais uma vez pude ver o curta. Também acompanhei novamente o diretor na mesa de debate. Foi pior. Após uma sutil reclamação por encaixarem o seu trabalho num dia onde a maioria dos curtas tinha um tom bem-humorado, dificultando a apreciação da atmosfera sombria do filme pelo público, finalmente declarou como via a história do jovem usando uma máscara de gás: o cúmulo da violência e bestialidade humanas, onde quase não se troca mais palavras. Menos de dois minutos falando e logo passou o microfone. A plateia, cansada de assistir filmes e participar de festas na noite anterior, não se pronunciou. O mediador passou a palavra a outros diretores. E não lembrei mais do filme até ler esta crítica.

Gosto de críticas por isso: elas fornecem outras perspectivas de análise da obra, por mais estranhas ou ridículas que possam ser. Nunca havia julgado os planos de Quarto de Espera como "desoladoramente longos, tumefactos, infletidos pelo peso de uma duração que não se escalona pela linha progressiva do tempo cotidiano ou da narrativa, para frente e para fora, mas justamente no sentido/direção contrários". Chuto que o diretor também não. É mais uma opção ao se rever a obra: compreender um tempo que não avança e um peso que não se define. Não se definir, aliás, parece ser mesmo o forte do filme. Não houvesse duas ocasiões em que esperei o diretor apontar direções (não respostas), julgaria tal característica um ponto positivo. Como vi o silêncio do pai diante da criança, resta ver algumas observações alheias, como a que diz que o "ponto de vista se objetiva, se faz matéria; matéria opaca, turva, mas trabalhada com a precisão siderúrgica que lhe infunde, no timing exato do corte e no encadeamento sincopado dos planos, a sombria densidade de um pesadelo feito carne". Não vi tanto assim. Ou melhor: vi além do filme. Por isso ainda não entendi a que veio.

E talvez a função do curta e daquela crítica nem seja compreender ou ser compreendido. Pode ser só chamar a atenção, como realmente deve fazer. Despertar o interesse sem ser sensacionalista, talvez um pouco blasé. Guerra ao Terror ganhou o Oscar porque críticas do mundo inteiro chamaram a atenção para um filme que passou despercebido nos cinemas. No caso de Quarto de Espera, apenas uma foto do filme é capaz de chamar mais atenção que várias críticas (a bendita máscara de gás). Mas valem as críticas, assumidas ou não, mesmo que algumas afastem mais do que convoquem. Saber que público e os críticos estão se manifestando é sempre um bom sinal. O pior de uma obra não é quando a maioria julga a qualidade ruim ou abaixo da expectativa: é quando ela não se fixa de maneira alguma no espectador, que chega  o mais perto possível da indiferença. Por isso a importância da troca de opiniões e análises, para chamar a atenção e evitar que se caia rapidamente no esquecimento, mesmo que não se chegue a lugar nenhum, como aqui.

Moda ou moral

Se Eu Fosse Você 2 conseguiu a quinta maior renda do cinema no Brasil, apesar da pirataria, alto custo dos ingressos e outros fatores de crise. Anticristo chocou muita gente (com razão) e causou intensa polêmica com cenas de violência explícita e seu discurso sobre as mulheres. Atividade Paranormal, filme de baixíssimo custo, conseguiu seu sucesso apoiado em campanha de marketing pela internet e num boca-a-boca entre os espectadores sobre o terror do filme (exatamente como A Bruxa de Blair fez uma década atrás). Avatar, provavelmente o filme mais caro já feito até hoje, trouxe revoluções tecnológicas em seus efeitos visuais e definiu um novo parâmetro para o uso do cinema 3D. E é mesmo um filme muito bom. Mas, de todas estas "comoções" e burburinhos provocados por filmes lançados este ano, o sucesso de Lua Nova tem maior destaque porque, definitivamente, ele vai muito além das qualidades do filme ou da eficiência da campanha de marketing.

Para variar, é a adaptação de um livro: o segundo volume da série literária Crepúsculo, best-seller e sucesso entre o público adolescente. Conta a história do amor entre uma jovem e um vampiro. Ele, apesar de existir há mais de um século, ainda frequenta a escola e se dedica integralmente à namorada, mesmo que ela seja décadas mais nova e inexperiente. Ela, fascinada com um vampiro que não bebe sangue humano e ainda brilha como diamante sob a luz do sol, quer largar tudo para ficar com ele (valores do feminismo são algo muito, muito distante). Sim, impossível não ser terreno fértil de escárnio com uma trama assim. Mas funcionou porque simplesmente apresentou uma nova roupagem do amor romântico, puro e idealizado para adolescentes. Tão puro que é uma metáfora para a castidade, como se o sexo fosse um passo para trás na afirmação honesta dos sentimentos.  Para uma geração cada vez mais precoce, amparada na liberdade audiovisual da internet, acostumada a aproveitar a efemeridade de seus gostos, ainda impressiona ver como os jovens tratam o romantismo não como estratégia de sedução,  mas como valor de relacionamento. Não somente os jovens, claro. Mas, de uma forma ou de outra, os mais experientes sabem que não é bem assim, embora não signifique que tudo sempre acabará como um conto de A Vida Como Ela É.

Mas também é preciso levar em conta as crenças de eternidade comuns a adolescentes. Amigos para sempre e afins. Por que seria diferente no namoro? Inúmeras fotos e declarações em sites de relacionamento, alianças de compromisso, contato direto por celular, planos e mais planos, etc. Para muitos, é apenas um comportamento típico da idade. Para outros, é um traço para a vida toda. Alguns concluem que companheirismo e fidelidade são fases, outros determinam que sejam valores morais em qualquer relacionamento. E há aqueles que ainda não entenderam direito o que pensar... Talvez o romantismo seja mesmo inerente ao ser humano, nem que seja apenas um resultado das reações químicas que ocorrem no cérebro ao se deparar com a possibilidade, mesmo ainda distante, de acasalamento, reprodução e continuidade da espécie. De fato, mesmo com todas as rusgas e injúrias existentes (e até mesmo por causa delas), é bom ter alguém que simplesmente faz bem e causa a vontade de ser uma pessoa melhor para ela e para si próprio. Talvez por isso (ou por nada disso, quem garante...), o amor romântico persiste. Seja em Camões ou em Crespúsculo, seja como moral ou moda.

Interferência III

Três anos deste blog. Sinto-me bem com a data. Não é caso para comemoração, mas concordo com o Crápula Mor: não é bom deixar passar em branco. Questionava muito a razão de continuar escrevendo e ainda tenho minhas dúvidas. Mas já não pergunto tanto. Na verdade, pergunto bem menos, talvez por encarar muitas respostas. Registro de momentos e ideias. Opiniões sobre eventos. Passatempo. Terapia. Exercício estilístico. Necessidade de exteriorizar certos conhecimentos. Influência de bons textos lidos. Até representação de uma vaidade oculta, mesmo sendo improvável . Todos estes elementos combinados. Mais de uns, menos de outros, todos apontando para uma resposta óbvia: a satisfação em escrever. Claro que o assunto precisa ser minimamente agradável. Sem obrigações legais nem objetivos de lucro ou fama, a única razão de estar aqui é o gosto pela coisa, de ver os comentários de leitores habituais (que merecem toda a minha gratidão) e saber que deve haver gente que acompanha sem se manifestar (a quem também agradeço). E tudo começou como brincadeira.

Mas, como disse antes, ainda questiono algumas coisas. Afinal, são três anos postando com frequência e disciplina que, se fossem aplicadas em outras áreas da minha vida, provavelmente me deixariam mais tranquilo em relação ao futuro. Deve ser terapia mesmo. Ou (falta de) senso do ridículo. De qualquer forma, procuro saber um pouco mais sobre a blogosfera na tentativa de elucidar algumas indagações. Achei textos interessantes, mesmo que não se encaixem no tipo de relação que tenho ao escrever. Um exemplo é este aqui, falando da construção de celebridades na blogosfera. Interessante a parte em que os blogueiros entrevistados dizem não se interessar exatamente pela fama virtual, mas em ser uma referência sobre o tema proposto. Excelente justificativa. Mas, para isso, é preciso antes definir o tema do blog. Criar uma identidade. Ter um estilo, tanto visual como literário. Não é meu caso. Mas reconheço ser muito bom acompanhar blogs com tais características. Outro artigo curioso é este, abordando blog confessionais. Embora algumas vezes tenha decidido falar sobre eventos corriqueiros (como foi aqui e aqui), no geral não me interessa escrever sobre o cotidiano. Se um dia vivenciar uma experiência fascinante ou ter condições de criar uma fantasia suficientemente instigante ou até mesmo desenvolver um estilo mais leve e bem-humorado ao escrever, talvez mude de ideia. Quanto ao aspecto confessional dos textos, não há como fugir. Apenas mudar o grau de sutileza, com uma exposição de caráter mais jornalístico ou descaradamente íntima.

Por que escrever sem ter a obrigação de escrever? Não sei e me incomoda cada vez menos não saber. Talvez a razão seja justamente por não ser um dever. Já ouvi muitas vezes gente reclamando de atividades prazerosas que perderam a graça por se tornarem obrigatórias (ou seja, passaram a render lucros, mas não é uma alfinetada contra o capitalismo). Deve ser mais complicado quando o rendimento vem das neuras do autor, porque ele precisa estar constantemente aflito ou então disfarçar um texto calmo naquele vômito de ansiedades que atrai tantos leitores. Talento mesmo. Mas, sem talento ou dinheiro à vista, resta o gosto em escrever. E, ao longo desses três anos, acho que isso é o que realmente importa. Falando desta forma, parece uma resposta fácil, tão fácil que chega a ser risível. Pode ser. Mas demoro a acreditar em respostas fáceis, principalmente quando partem de mim mesmo. Por isso, não é surpresa eu levar tanto tempo para constatar que escrever aqui, seja por catarse ou hobby, me faz algum bem. E melhor: ficou mais fácil.  Só espero não me acomodar, mesmo sem ainda entender direito quais são meus parâmetros. Nunca é fácil, mesmo quando não é tão complicado.

Década como pretexto

O site Rotten Tomatoes, referência na avaliação crítica de filmes e também conhecido por suas listas, fez sua seleção dos 100 piores filmes da década. Os anos 2000. Ainda é estranho dizer isso. Mas é o tempo, afinal. Este período de tempo entre 2000 e 2009, tão marcante para pessoas da minha idade, na era dos vinte e tantos anos. Soa esquisito, mas não necessariamente ruim. Algo sempre vale a pena. E, no cinema, também há algo para se comemorar, principalmente com a quebra da maldição das sequências: já não é incomum assistir a continuações superiores à primeira parte, embora este ano tenha trazido X-Men Origens: Wolverine, Transformers 2, Os Normais 2 e 13º Distrito: Ultimato (nas locadoras).

Na década de 2000, o Cinema passou a sofrer fortemente o impacto da pirataria, onde é possível encontrar os últimos lançamentos (incluindo aqueles que não chegaram na cidade) na calçada das ruas. Por isso, tal qual a tentativa do Cinema de resistir à ascensão da TV nos anos 50 investindo na produção de filmes épicos para aproveitar as dimensões da tela panorâmica, novamente há uma concentração na realização de filmes em formatos que aproveitem a exclusividade técnica de algumas salas, como os cinemas digitais, 3D ou Imax. Além disso, os estúdios passaram a investir em fórmulas e ideias já consagradas pelo público para fazer seus filmes, aumentando assim as chances de lucro. E veio a onda de continuações de sucessos, remakes e, claro, das adaptações de quadrinhos, consolidadas como um gênero cinematográfico. Do primeiro X-Men até Watchmen, nunca se investiu em tantos filmes baseados em hq's como nos últimos anos, provavelmente atingindo seu auge ano passado, como O Cavaleiro das Trevas. Foi a década em que o cinema nacional cresceu, a partir de Cidade de Deus. Cinema nacional além da Globo Filmes, embora não tenha como não reconhecer que seus filmes sejam os principais responsáveis pelo aumento do público nas salas para um longa-metragem brasileiro. Já entre as modas de filmes, os remakes de obras asiáticas de terror explodiram nos anos 2000, explorando maldições envolvendo crianças e tecnologias, começando por O Chamado. E, como é próprio das modas, um dia elas enchem: não é à toa que Uma Chamada Perdida, de 2008, está em segundo lugar na lista, embora seja muito pior que o primeiro colocado.

Sobre a lista dos piores, o gênero comédia predomina entre os escolhidos, sendo seguido por suspense/terror. Não é fácil fazer rir ou sentir tensão. São duas reações sentimentais muito marcantes, presentes nos momentos mais significativos da vida. Quando bem-sucedidas, elas se fixam na memória. Assim como as sessões de cinema que nunca se esquece. Talvez faça uma lista delas. Não para ser memorizada, claro. Apenas para cumprir o propósito das listas: ser pretexto e fornecer, sem se levar muito a sério, um pouco de referência para debate descontraído e memória. Principalmente memória. Afinal, o tempo passa.


Tartarugante III

"É o teu jeito, mas não precisa ser sempre assim, entendeu?"

"Também tem algumas tarefas que prefiro fazer só."

"Você, como sempre, mantendo uma sutileza elegante." (jeito irônico)

"Tu sabes que pode falar as coisas na real pra mim. Aliás, tu sempre falou!"

"Nem sei se você é mais otimista ou pessimista em relação à vida."

"Eu sei: tu já estaria me xingando nessa hora."

"Só não te xingo porque é verdade mesmo..."

"Depois de todo esse tempo, vejo que é pior quando você realmente não fala nada."

"Não humilha, véio!" (desarme pelo riso)

Olhando para a primeira parte e para a vez seguinte, não mudou tanto assim. Mas na verdade mudou. Só resta entender melhor. Como não haverá a quarta seleção para o próximo ano, é melhor encerrar com a frase mais certeira na alma, principalmente porque veio por escrito:

"tentar ficar bem na marra normalmente é traumático; como já conversamos em outros momentos, a tristeza faz parte da vida e negá-la pode ser uma forma de tornar tudo, incluindo a alegria, um pouco mais triste, banal e sem encanto."

...

Lista de chuvas

Depois de dias sem ver uma gota cair do céu, perguntei a alguns amigos se já haviam visto algum filme com uma cena de chuva memorável (para eles, claro). Um respondeu a primeira luta do filme chinês Herói, outro respondeu o clima da guerra em Forrest Gump, mais alguém disse que achava cenas com chuva clichês, mas lembrou do encontro sexual em Match Point. Interessante ver como quase todas as respostas revelam a personalidade do espectador: enquanto um se envolve rapidamente com uma luta, outro se identifica mais com romance, um terceiro com suspense, etc. Ao verem outras alternativas de cenas de chuva, concordavam que eram bons exemplos, mas não eram tão marcantes para eles. Claro que tem a ver com o contexto da cena e da própria pessoa. Lembro bem da sessão de O Tigre e o Dragão não pela qualidade da obra, mas porque cheguei totalmente molhado da chuva que caía na cidade. Entrei na sala deixando um rastro de água atrás. Não gostei muito do filme, mas foi memorável pelo frio intenso que senti com o ar condicionado.

Para mim, os filmes abaixo foram marcantes não somente pelas cenas de chuva ou por fatores exteriores à tela (exceto o último Matrix). Alegre ou triste, frio ou calor, sempre admiro a qualidade deles. E as cenas de chuva, clichês ou não, sempre ecoam na minha memória. Respostas revelando personalidade. Por aí.

Matrix Revolutions: a chuva é puro capricho para os efeitos especiais na luta final, com as gotas d'água sendo varridas pelas ondas de impacto causadas pelo choque dos golpes. Ficou muito bem feito. Pelo resultado, os irmãos Wachowski até hoje são apontados por muitos fãs como as melhores opções para dirigir um filme do Superman ou Dragonball. Mas estes personagens tomaram rumos esquisitos no cinema. Não fizeram sucesso. Bom sinal.

Se7en: o detetive interpretado por Brad Pitt é encurralado pelo assassino. Neste momento, a atitude do criminoso diante do policial parece ser o início do preparo para o último crime capital planejado. O personagem de Pitt não é capaz de reagir e é largado no chão, num beco onde a chuva parece fazer parte da sujeira e fragilidade julgadas pelo assassino.

Os Donos da Noite: uma perseguição de carros mostra que os personagens reagem não por serem heróis, mas por fazerem o que uma pessoa desesperada faria em situação semelhante: buscar proteção, a menos que algum ente querido esteja em perigo. Se for o caso, é preciso fazer alguma coisa, mesmo com a chuva atrapalhando, mesmo que tudo aponte para a tragédia.

Extermínio: não chove há dias na Londres devastada por um tipo de vírus que transforma as pessoas em criaturas irracionais e violentas. Quando volta a chover, os humanos sadios, incluindo o protagonista, não são muito diferentes dos infectados quando não há um sistema social a seguir. Em tal cenário, a sobrevivência é vinculada à destruição dos obstáculos.

Estrada para a Perdição: o diretor Sam Mendes usou a chuva na conclusão do seu primeiro trabalho, Beleza Americana. O mesmo acontece no confronto definitivo neste filme, adaptado de uma hq. Oculto pelas sombras e pelo temporal (como muito perigos na vida real), o protagonista realiza sua vingança sem glória.

Casa do Gilson, Nossa Casa: quem conhece Belém sabe que a chuva é parte da cidade, indo além de uma característica climática e sendo praticamente uma personagem de alegrias e desaforos. Neste documentário de Chico Carneiro sobre a casa famosa por suas apresentações de choro e samba, há partes em que simplesmente se vê as ruas e praças desertas recebendo as gotas. Nessas horas, como bem sabe quem conhece o lugar, vem a sensação de que todos viram coadjuvantes enquanto a chuva e a cidade assumem o lugar principal do dia.

O Fundo do Coração: em filmes de amor, cenas de chuva geralmente são associadas àquelas pequenas e arrebatadas discussões que terminam com uma epifania coroada por um beijo apaixonado. Francis Ford Coppola, em seu trabalho seguinte a Apocalypse Now, mostra o outro lado. Não ligar para a chuva ao pensar numa pessoa nem sempre signfica alegria. Romance também é tristeza. Silêncio. É belo também por isso.

Um Sonho de Liberdade: a fuga da prisão de Shawshank. Embora poucas pessoas gostem de serem encharcadas pela chuva, o total impedimento desta possibilidade é pior. A idéia de liberdade deve estar presente, mesmo que não seja realizada. O isolamento provavelmente muda a concepção de quem ignora gotas de chuva, vento no rosto, pôr-do-sol e outros fênomenos. Chuva como liberdade e redenção pode soar batido. Mas antes ser piegas que impossível.

Blade Runner: o replicante Roy Batty supera seu algoz em todos os sentidos possíveis. Força física, agilidade, provocar medo, sentir compaixão. Mas a maior vitória é justamente aceitar seu fim sem oferecer mais resistência, lembrando o que ele já presenciou e o que os humanos provavelmente não verão. Walter Benjamin apitando: se o momento da morte é o auge da experiência narrativa que um homem pode transmitir, a frase "tears in rain" é um dos melhores exemplos. Principalmente por não se tratar de um humano. Pelo menos no sentido biológico.

Cantando na Chuva: não gosto muito de musicais, mas é difícil ficar indiferente a este. Talvez porque, enquanto a maiorias das cenas de chuva listadas representam um momento ruim para o personagem, aqui acontece o oposto. É felicidade pura. Letra, coreografia, atuação (e Gene Kelly estava ardendo em febre quando fez a cena). Talvez uma felicidade muito inocente, própria do gênero e da época. Difícil outro momento tão carregado de alegria num filme (ironicamente, a música-título foi usada num trecho ultraviolento de Laranja Mecânica). Acho que justamente por isso, pela felicidade simbolizada e atualmente tão anacrônica, é que vale priorizá-la. Alguma coisa boa devemos guardar.

Faz sentido para aqueles que entendem

Talvez o pior de se ver um artista transformando o seu sucesso em extravagânica, depois despencando para o ridículo a acabar beirando o ostracismo, é perceber que ele próprio não sabe explicar claramente como tudo aquilo aconteceu. Não se trata de vista grossa ou ego inflamado ou ainda delírios de grandeza, embora não se possa descartar nenhum desses fatores. Há uma infinidade de informações sobre carreira e vida pessoal, possibilitando delimitar o período onde as coisas começaram a desandar e apontar quais foram os motivos para tanto. Mas não é possível ouvir os pensamentos nem acessar as memórias do artista. Por isso incomoda ver que, por mais que mídia e a própria pessoa falem de sua trajetória, no fim resta um olhar de auto-questionamento. Provavelmente porque tal situação não é exclusividade dos famosos.

Assistindo ao documentário Loki, por exemplo, pode-se dizer que Arnaldo Bapstista começou sua descida quando experimentou LSD. Antes reconhecido internacionalmente pelo seu talento frente ao grupo Os Mutantes, ele passou a chamar mais atenção por sua postura cada vez mais excêntrica e incompreensível, falando de viagens à lua e outros assuntos estranhos. Outro caso, ainda mais simbólico, é ver como Michael Jackson passou a ser representado mais pela patética figura de rosto deformado e absurdamente endividada (mesmo sendo multimilionária) do que pela referência histórica necessária para entender a música a partir da década de 80. Talvez a opressão e a ganância do pai tenham causado traumas que, anos depois, refletiram na insatisfação com a própria aparência e na falta de limites com os gastos de dinheiro (além de sua obsessão por temas infantis, chegando ao extremo das acusações de pedofilia). E, no caso de Arnaldo Bapstista, talvez o fim do seu relacionamento com Rita Lee tenha sido mais avassalador do que o vício em alucinógenos. Talvez. Ninguém sabe melhor do que ele, embora ele mesmo pareça não entender plenamente.

No filme JCVD, Jean-Claude Van Damme toca no mesmo ponto, embora de forma mais bem-humorada e menos dramática. Numa sátira à própria carreira, o astro de filmes de ação demonstra conhecer bem quais são os principais motivos das críticas contra ele. Ao mesmo tempo que isso se revela bom terreno para comentários engraçados, também mostra que olhar para si mesmo não é só alegria. E cai numa questão comum a todos os famosos, mas que envolve também muitos anônimos: cada um entende melhor que ninguém a própria vida, mas todo o resto do mundo parece ter mais facilidade em explicá-la (como se precisasse de explicações). Uma sensação interna de estranhamento familiar presente em cada um, onde "a resposta vem antes da pergunta", como diz Van Damme. Mas, infelizmente ou não, para muitos que não encontram o sentido na resposta, resta arriscar a pergunta.

Violência gratuita

Um dos traços mais marcantes do Coringa de O Cavaleiro das Trevas e do Chigurh de Onde os Fracos Não Têm Vez é não apresentar razões para a sua crueldade. Não era cobiça, desejo de vingança ou traumas psicológicos. Surgem como o Mal absoluto, sem origens ou explicações para suas atitudes. E apenas por demonstrarem o desejo (ou a indiferença, no caso de Chigurh) de "ver o mundo pegar fogo", impossibilitando qualquer tentativa de compreender tal crueldade, eles se tornam ainda mais perigosos, porque se tornam imprevisíveis.



Mas, diante de qualquer personagem carismático (especialmente os vilões), há uma considerável chance de frustração em conhecer suas origens. Hannibal Lecter, de O Silêncio do Inocentes intrigava por ter sido um psquiatra renomado, médico erudito, gosto refinando, perfeito cavalheiro. No entanto, matava pessoas e comia partes de seus corpos. Sem aparentes justificativas para seu comportamento, restava uma hipótese: a escolha consciente pelo mal, o que era mais assustador. Mas com o lançamento de Hannibal - A Origem do Mal, descobrimos que tudo é resultado do trauma de ter visto sua irmã caçula devorada por soldados nazistas. Não ignorando a tragédia do fato, mas imaginar a maldade de Lecter como uma opção, e não uma consequência, era melhor. O desconhecimento sempre tem o poder de assutar.


No caso de Michael Myers, assassino slasher da série Halloween de 1978, a intenção dos criadores possivelmente foi mostrar um ser de absoluta crueldade incompreensível. Mas o fato de Myers matar preferencialmente moças e rapazes com vida sexual ativa e consumidores de drogas lícitas e ilícitas permitia interpretar a violência como uma espécie de punição social (como pensa John Doe, de Se7en) ou como uma catarse provocada pela admiração mórbida que cada um de nós porventura tenha (chegando ao nível do sadismo de filmes como Jogos Mortais e Albergue). Contudo, o diretor John Carpenter sempre disse que o objetivo era simplesmente assustar. E o fato do vilão não ter motivos para a matança e ser virtualmente indestrutível contribuía para tanto. No remake de 2007, dirigido por Rob Zombie, o menino Myers é maltratado pelo padrasto desempregado, pela irmã promíscua e pelos colegas na escola que vivem lembrando que sua mãe é uma stripper. Desta vez há motivos que possam justificar sua violência, o que quebra um pouco a aura maligna pretendida no original de 1978 e foi o principal alvo de críticas ao filme. Ainda assim, não deixa de impressionar ver o garoto comer e brincar com doces na noite de Dia das Bruxas e, logo em seguida, iniciar um banho de sangue.


Violência nos filmes sempre tem lugar no entretenimento. Mas ainda há obras que procuram mostrar que machucar e matar, para algumas pessoas, é um ato divertido ou, no mínimo, desprovido de qualque gravidade (Laranja Mecânica e Assassinos por Natureza). Ou ainda uma bola de neve que pode crescer a ponto de destruir todos os envolvidos e não-envolvidos (Tropa de Elite). Mas a violência como um fim em si mesma incomoda, não apenas por nos fazer reconhecer que possuímos instintos violentos e curiosidades mórbidas (como explica a rápida disseminação de spams que dizem ter imagens de acidentes como o do avião da Air France), mas também por lembrar que existe violência sem explicação, origem ou entendimento. E que os filmes divertem, mas os melhores lembram que a realidade pode ser pior.

Metade do real

Fui buscar o resultado de um exame médico. Sempre há filas na porta do elevador. Como ninguém gosta de filas e não era num andar muito alto, fui pelas escadas. No último lance de degraus para chegar ao terceiro andar, um moeda vem caindo na minha direção. Atrás dela, um garoto de uniforme escolar, braço estendido e palma aberta mirando o dinheiro em queda, talvez uns dez anos de idade. Pisei na moeda para evitar que ela descesse ainda mais. Mas antes de notar a moeda ou o garoto, eu já estava fazendo o movimento de pisar no próximo degrau. Para pegar a moeda a tempo, o pé foi mais rápido. Acabei pisando com força. Fez barulho.

O garoto parou. Afastei o pé da moeda e dei espaço para ele. Ele não se mexeu e olhava para mim. Mesmo uns três degraus acima, ainda ficava um pouco abaixo da linha dos meus olhos. Olhei para a moeda, depois para o garoto, novamente para a moeda e me indaguei o que diabos ele esperava. Avancei mais um degrau para chegar ao meu destino. Ele se afastou e então percebi que estava assustado. Tato típico com crianças. Senti-me ridículo. Também achei o garoto ridículo por julgar que eu iria querer o dinheiro. Mas ele estava tenso. E, ridículo ou não, era uma criança assustada. O que eu poderia alegar?

Ajoelhei-me, peguei os cinquenta centavos e estendi a mão. Olhou para a moeda, depois olhou pra mim, mais uma vez pra moeda e então a pegou. Continuei a subir. Dobrei para subir o próximo lance e então percebi que ele desceu alguns degraus e parou. Quando me viu olhar em sua direção, esticou totalmente o braço, levantou o polegar e fez o sinal de positivo, joia. Depois continuou a descer. E eu fiquei parado. Um daqueles momentos pra tentar racionalizar a situação. Depois de racionalizar, filosofar a respeito. Não é de propósito, apenas acontece. Então parei e voltei a subir, lembrando das vezes em que fui alertado sobre "pensar demais". Era um garoto que se espantou com um pisão repentino no seu dinheiro. O que o universo tem a ver com isso? Não é uma tentativa de entender inteiramente a realidade do mundo, não é uma metáfora sobre as descobertas na infância, não é uma crítica velada ao desejo por dinheiro, não é um objeto de estudo antropológico sobre a disputa territorial humana.

Porque ainda há fatos que não merecem explicação por serem óbvios. E isto já é um fato óbvio. Mas, se escrever sobre isso já implica enxergar além da obviedade da afirmação e do ocorrido, o que fazer? Não sei. Nem me incomodo no momento. Às vezes é bom sentir a tranquilidade de correr só atrás do imediato. Só às vezes...

Igualmente diferente

Vi a matéria ontem no Fantástico e depois li a respeito no 100grana. 25 de maio, Dia Mundial do Nerd. Não sabia. 25 de maio de 1977 foi o lançamento do primeiro filme da série Star Wars. Coincidentemente, comentei a data no início do ano. Star Wars é referência bíblica em cultura pop. Por isso a escolha do dia da sua premiére para comemoração dos nerds. O início dos blockbusters. Não gosto muito da série. Sem dúvida reconheço a sua importância e qualidades (principalmente nas séries animadas e nos games). Mas me divirto muito mais rindo dos seus fatores ridículos. E não são poucos. Talvez pensasse diferente se tivesse nascido na década de 70. Mas não é este o meu incômodo com o Dia Mundial do Nerd. Melhor dizendo, meu incômodo com as manifestações a respeito deste dia.

Gosto de conversar sobre cinema e hq's. Acompanho as teorias sobre minhas séries de TV favoritas. Já fui em muitas estreias de filmes baseados em quadrinhos. Fui em eventos sobre animes e mangás. Até hoje leio sobre RPG, embora não participe de uma partida há meses (e não é preciso um tabuleiro, como disse a matéria do Fantástico). E também já argumentei contra gente que considerava ridícula a ideia de gostar de tudo isso (porque realmente há preconceito, o lado mais grave da ignorância em qualquer campo). Mas nunca pensei em mim ou nos meus amigos como nerds. Rótulos são irritantes e simplistas. Se servirem pela praticidade como referência histórica, topográfica, acadêmica ou pessoal, que seja. Não muda o fato de que é preciso saber mais e melhor sobre o contexto se quiser sentir orgulho de receber alguma denominação. E, por algum tempo, era isso que me irritava: a incursão imediata em uma categoria, nem que fosse por detalhes. Sendo assim, Umberto Eco é nerd porque escreveu sobre James Bond e Steve Canyon, mesmo sob uma visão acadêmica, e Federico Fellini entra na lista por ter sido fã de Stan Lee e dos quadrinhos da Marvel. E o argumento "todo mundo é um pouco nerd" desestimula a conversar mais sobre o assunto. Da mesma forma todo mundo pode ser um pouco roqueiro, poeta, professor... Talvez seja este o motivo do orgulho.

Depois de me acostumar à ideia de que rótulos, embora chatos, nem sempre são pejorativos, veio o fanatismo e visão limitada no meio. Um exemplo vem de uma parte dos aficcionados por mangás e animes, sempre julgando os comics norte-americanos como lixo e clichês (e, como suposta consequência, tudo o que foi produzido nos Estados Unidos). Não deixando de reconhecer a qualidade artística geralmente superior de muitos mangás em relação aos quadrinhos norte-americanos, mas saber da influência que os artistas do Japão receberam durante a ocupação norte-americana do país na Segunda Guerra Mundial ou que Osamu Tezuka, referência histórica dos mangás, foi fortemente influenciado por Walt Disney e Max Fleischer, certa mudaria tal perspectiva. Conhecer as referências do que nos agrada, afinal de contas, no mínimo aumenta nosso interesse pela obra e seu autor.

Ou talvez não. Estou sendo chato e ingênuo demais quando deveria haver apenas alguma alegria diante das obras preferidas de cultura pop, sem pensar muito a respeito. Certo. Pelo menos uma coisa é possível afirmar sem medo: o melhor de ser nerd, assim como em qualquer outra denominação "alternativa" cultural, é ser reconhecido como diferente, com algum destaque entre a maioria, um brilho entre a massa. Se todos fossem fãs de Star Wars, a graça seria detestar George Lucas e ser adepto do estilo "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça". Um exemplo muito simplista, mas não equivocado. Exatamente como ser nerd, exatamente como ser "diferente".

Apenas o suficiente

Após dias sem ler blogs que acompanho, eis o seguinte trecho do texto publicado dia 18 de abril na Ilustrada no Cinema:

“A emoção maior acontece quando mil pessoas estão sentadas no escuro, olhando a mesma cena, e todas apreendem algo que não está sendo dito. Esta é a grande vibração, o milagre _o que nos prende aos filmes para sempre. É o que gostaríamos de poder fazer na vida real. Todos vendo algo e compreendendo juntos, sem que ninguém tenha que dizer uma palavra. Aí está uma boa razão para que o melhor som que uma plateia possa fazer _tanto no teatro quanto no cinema_ é som nenhum, apenas o silêncio absoluto”.

Palavras do diretor Mike Nichols em matéria do New York Times. Nichols dirigiu "A Primeira Noite de um Homem", "Closer", entre outros. Seu filme mais recente foi "Jogos de Poder". Closer teve impacto sobre mim, assisti duas vezes no cinema e desde então não vi mais, embora lembre claramente de suas cenas e diálogos. O silêncio elogiado por Nichols está lá, mas o filme é adaptado de uma peça teatral e, portanto, os diálogos são sua força, tão ou mais expositivos da intimidade que uma cena de nudez ou sexo.

Mas meu objetivo não é falar sobre Closer. É tentar expressar o quanto a declaração de Nichols me comove. Tentativa desde já falha; explicar o valor do silêncio através de palavras não dá bom resultado. Nichols se saiu muito bem. Aproveito o seu discurso. Diálogos são importantes, mas antes de tudo o Cinema deve contar sua história através de imagens. Nossas memórias mais importantes também descansam em imagens, creio. Não é possível esquecer as palavras. Todo estudante de Comunicação precisa trabalhar com isso. E eu preciso me expressar mais e melhor, sair do mutismo da ansiedade e do fastio, principalmente a partir do próximo mês. Exigirá esforço.


Mas sempre vale lembrar de momentos em que silêncio não significa falta de opção. Apenas ser o suficiente.


"É o que gostaríamos de poder fazer na vida real. Todos vendo algo e compreendendo juntos, sem que ninguém tenha que dizer uma palavra"

Papelão por escrito

Letras de músicas. Impressas em papel. Reli todas, mesmo com muitas delas gravadas, cantadas e, em alguns casos, até berradas ao longo dos anos. Era estranho. Difícil de acreditar que alguém imprima letras de músicas. A internet fornece inúmeros dados sobre as bandas. Não precisa passar pro papel. Gasta tinta, energia, espaço pra guardar e ignora o fato de haver destino melhor para as árvores derrubadas. Mas ali estavam, de Led Zepellin a Massive Attack, as letras espalhadas entre outros papeis, cadernos, pastas e revistas no chão do quarto. E eu decidindo se jogava fora ou não.

Talvez eu tenha as letras no papel porque queria lê-las quando bem entendesse, rabiscá-las se desse vontade. Poder transmitir o que se sente ou alterar o significado das coisas de acordo com a própria percepção. A escrita oferece essa possibilidade, principalmente quando se está sozinho. E, pela escrita e leitura, produzi toda aquela papelada revirada no chão do meu quarto. Anotações sobre filmes, rascunhos de trabalho e cartas, listas de coisas a se fazer (e que não foram feitas), muitos textos pessoais, com a legibilidade da letra atrelada ao estado emocional do momento. Pensava sobre o que descartar, o que merecia ser alimentado além da memória, o que ia pro lixo ou de volta pro armário durante a minha viagem. Havia muita coisa ruim, revelada pelo tempo ou por qualquer estalo intelectual após um momento de descanso. Matéria feita de impulso, sem revisão, às vezes sem conclusão. Senti certo alívio em lembrar que tudo aquilo era sincero, às vezes vomitado, não importando a qualidade. E assim fui vendo como algumas das minhas ideias foram sendo modificadas, enquanto outras se consolidaram ao longo dos anos.

Levo tempo para arrumar meu armário. A bagunça, as lembranças e as ponderações não estão somente no papel. Faz questionar como cheguei a opiniões e conclusões a respeito de muita coisa hoje. E não entendo parte desta trajetória. Simplesmente não entendo. Nem garanto que, se eu entender, me tornarei uma pessoa mais tranquila. Se confundo discrição com indiferença, se avancei o limite entre medo e passividade, se embaralho cinismo com amargura. Gostaria que não fosse assim, sem eu precisar complicar tudo. Mas aconteceu diferente. Correu a ponto de eu hesitar em responder quando me perguntaram se eu era otimista ou pessimista em relação à vida para, horas depois, ainda pensar na pergunta e sentir os olhos marejados por não definir uma resposta. E até agora a melhor conclusão que tive foi a de que preciso ter menos textos e mais fotos. Imagens parecem mais simples. Mas não acredito que me livre da escrita. Ainda preciso dela, ainda que sem muita vontade. Até lá, preciso decidir o que vou jogar fora. Se não é fácil com as lembranças e confusões, pelo menos que seja com a papelada. Nem que se resuma a escolher quais músicas vou acompanhar com a letra, com um lápis por perto, mesmo que nunca seja utilizado.

Impaciência

Benjamin Button nasceu velho e rejuvenesce com o passar dos anos. Sua amada, sua família e seus amigos começam a sentir o corpo mais pesado e lento, a pele mais flácida, a beleza se esvai, a memória não funciona tão bem como antes. E ele fica mais jovem, mais bonito, mais capaz. E mais experiente. Também cada vez mais só. Raiva, revolta, desespero, amargura. Nada disso. Benjamin Button aceita. Lamenta, mas não muito. Deve-se aceitar o fim quando ele chega, diz o filme. Uma fábula sobre a vida, sobre as suas surpresas e inevitabilidades, perdas e aprendizados, experiências e memórias. E amor, principalmente sobre amor. Bom filme. Seria melhor se seu protagonista fosse menos babaca.

As circunstâncias moldam o jeito de viver de cada um. Cada um leva sua vida a partir de suas experiências. Principalmente de seus traumas, jogando mais Freud na receita (sem esquecer o tempero da genética). Se Benjamin Button nasceu já esperando morrer em breve e se ele convive desde a infância com a morte de residentes no asilo onde cresce, é natural que ele reconheça a finitude da vida e a abrace de forma simples e pouco ambiciosa. Se todos fossem serenos e prestativos como ele, talvez o mundo fosse um lugar melhor. Mas, por algum motivo, todas as pessoas que conheço se identificam mais com a filosofia de outro personagem de Brad Pitt, Tyler Durden: "nós todos crescemos com a TV acreditando que um dia seríamos milionários, deuses do cinema e estrelas do rock. Mas não vamos. E estamos lentamente aprendendo este fato. E estamos muito, muito putos".

Aprendemos que para viver em sociedade controlamos e disfarçamos muitos de nossos instintos. Nenhuma novidade. Por isso os vilões são mais interessantes que os heróis, por isso gostamos de quem foge das regras, por isso damos atenção diferente para quem admite que salva o mundo apenas porque não há outro lugar pra morar. Catarse faz parte do carisma. Talvez seja a resposta de muita coisa. Histórias como Crime e Castigo no século XIX, Annie Hall na década de 70, Clube da Luta em 1999 (mais uma pérola que completa dez anos), Closer em 2004 e O Cavaleiro das Trevas no ano passado (na figura do Coringa) marcam por lembrarem que a vida não parece ter um sentido especial, místico ou divino. Nossas raízes são hormônios e instintos, incluindo o da sobrevivência e o da subjugação alheia no amor e na guerra.

Mas sabemos que a vida tem que ser mais do que isso, senão não estaríamos aqui (sorte demais?). Temos que olhar uns pros outros e achar um objetivo, um sentido, uma válvula de escape nas artes, nas bebidas, no sexo, nos amigos, nos blogs, nos trabalhos, nos estudos... todas essas coisas que lembram que a vida é mais do que a própria vida e, por isso, escolhemos continuar levando o mundo, invejando quem não têm medo das regras, mas cientes de que eles só existem porque, afinal, estamos todos aqui. Ainda sentindo revolta e indignação para continuar evoluindo. Ainda alimentando incertos sentimentos por certas pessoas que nos fazem trabalhar para que elas fiquem bem. Ainda pensando muito e não entendendo tanto.

"Escolha uma vida. Escolha um emprego. Escolha uma carreira, uma família. Escolha uma televisão enorme. Escolha lavadoras, carros, CD players e abridores de latas elétricos. Escolha saúde, colesterol baixo e plano dentário. Escolha uma hipoteca a juros fixos. Escolha sua primeira casa. Escolha seus amigos. Escolha roupas esporte e malas combinando. Escolha um terno numa variedade de tecidos. Escolha fazer consertos em casa e pensar na vida domingo de manhã. Escolha sentar-se no sofá e ficar vendo game shows chatos e alienantes na TV comendo porcaria. Escolha apodrecer no final, beber num lar que envergonha, os filhos egoístas que pôs no mundo para substituí-lo. Escolha seu futuro. Escolha uma vida. Mas por que eu deveria fazer uma coisa dessas?"


(Trainspotting)

Terapia

Há três dias tenho idéias para escrever aqui. Idéias rapidamente adiadas ou esquecidas por motivos diversos, boa parte deles desconhecida até por mim. Aqui e ali eu me via tentando não pensar no próximo ano, procurando escrever sobre outros assuntos, como as maiores bilheterias do ano. Mas desanimava. Algo errado, claro. Talvez seja isso: inclinar-me cada vez mais a evitar expectativas não só me tira o ânimo dos mergulhos desejados, mas também me tira o fôlego dos necessários. E para isso afetar um espaço tão pessoal e, em certa medida, tão individualista como este blog, dependente somente da minha vontade e sem precisar dar satisfações, é porque não tinha idéia do erro das minhas intenções. Ainda não tenho totalmente, mas entendo mais agora. Assim espero.

Nem erro talvez seja, mas não anda me fazendo bem simplesmente por não estar fazendo nada. Senti algo semelhante no fim do ano passado. Mal de época? Não sei. Gostaria de dizer que me importa saber se é inércia pré-reveillon ou algo a mais que demorei um ano pra dar mais atenção, mas sinceramente não me interessa. Não gosto. Paradoxal escrever sobre isso e dizer que não há interesse, mas eu precisava fazer uma última análise antes da meia-noite.

Não posso imitar o Cony e outros idosos e dizer que não espero nada do próximo ano assim como não esperei nada do ano anterior, pois espero. Não espero encontrar cisnes pelo mundo nem fazer toda criança feliz, mas eu preciso considerar alguma coisa. É uma necessidade de sobrevivência psíquica e emocional. Sempre estamos no equilíbrio da expectativa e da frustração. Não se pode dizer que o resultado sempre seja gratificante. Mas, francamente, é sempre bom perceber que valeu a pena. Se não valeu, há sempre o próximo reveillon. Algum motivo deve haver para comemorar até não esperar mais por nada, somente pelo fim. Durante o meio, brindemos! Ou voltemos a escrever...

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