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Além do Plano Piloto

Quem gosta de Brasília? Só quem já morou lá, eu diria. Não conheço quem foi apenas visitante ou turista e caiu de amores pela cidade e seu clima seco, suas divisões em quadras (quadras, superquadras ou entrequadras) e setores (Hoteleiro, Gráfico, Comercial Norte, Cultural Sul, etc) e suas ruas sem esquinas, batizadas não com nomes de pessoas ilustres, mas com siglas orientadas pelos pontos cardeais a partir das referências do Eixo Rodoviário e do Eixo Monumental (o "Eixão"). Curioso, engraçado ou - o mais provável - estranho. Admirável é pedir muito. Não se perder de imediato, também

É possível admirar, quem sabe, as construções que aparecem toda semana no noticiário: Palácio do Planalto, Palácio da Alvorada, Itamaraty, Supremo Tribunal Federal, Esplanada dos Ministérios e, claro, o Congresso Nacional. É o Niemeyer imperante. Mas a beleza arquitetônica de tais edifícios, se reconhecida e respeitada, dificilmente supera dois obstáculos. O primeiro é de ordem material e imediata: mesmo belos e famosos, tudo é cimento e ferro. E, ao contrário do Cristo Redentor, a vista ao redor não é de tirar o fôlego. Aliás, pode ter o efeito contrário, justamente pela segunda barreira, de ordem moral e ainda mais perigosa: o imaginário que se tem de Brasília, alimentado principalmente pela mídia. Capital federal, casa do poder político nacional, centro dos escândalos que revelam o lado corrupto e inescrupuloso dos eleitos pelo povo para representar o próprio.

Mas as boas-vindas e as decepções não se resumem ao que a televisão mostra da Praça dos Três Poderes. Sempre há mais o que se conhecer. Catedral, Panteão, Complexo Cultural, Torre de TV, Memorial JK e outros. Ainda ferro e cimento, mas indispensáveis para conhecer e aprender. Brasília é assim mesmo: não se apóia na sua natureza, mas na sua curta e conturbada história. Ainda assim, deve se ver além dos seu prédios. Muito além. A vastidão e amplitude características da cidade. Marca os olhos, tanto ao se caminhar pelas ruas com poucos pedestres como ao se olhar por cima. E haja céu...

 Foto tirada da Torre de TV em setembro de 2006. Atualmente, a fonte circular, como quase toda a cidade, está em obras

Por isso, Brasília não tem multidões sufocantes, mesmo com todas as passeatas, protestos e marchas que possam acontecer. A aglomeração apertada comum no Círio de Nazaré ou no Ano Novo de Copacabana não tem espaço por ter tanto espaço. Mais uma distinção aprazível. Há também o seu lado não tão agradável: poucas pessoas caminham pelas ruas e, se os curitibanos têm fama de serem reservados e até frios com forasteiros, então é preciso conhecer os brasilienses. Longe de serem como os alemães. Mas não costumam puxar conversa. 

 Multidão se dispersando minutos após o fim do Desfile de Independência em 2006

E o que se sabe dos costumes e da cultura de Brasília? Sim, Legião Urbana veio de lá. Plebe Rude e Capital Inicial também. E, para quem passou os primeiros anos de vida na cidade durante metade da década de 80, gostar da música deles não era nem um pouco difícil. A história, mais uma vez, fez o resto. Ainda há muitas e muitas bandas de garagem, mas outros ritmos musicais já se consolidaram. Destaque para o choro. Móveis Coloniais de Acaju tá mandando bem. Falando em bandas, havia a ideia (que o próprio Renato Russo ajudou a espalhar) de que os jovens sempre tocavam algum instrumento porque não havia muito o que fazer na vida noturna da cidade. Quantos anos se passaram para que o cenário mudasse? Outra coisa é que fazer concursos públicos lá é realmente quase um estilo de vida. E não sei definir características do sotaque ou do linguajar brasiliense. Sei que, devido à rivalidade com os vizinhos, gritar "goiano!" para alguém no trânsito é, no mínimo, uma advertência irritada. E "baú" pode ser gíria para ônibus. Mas não dá para notar um traço forte como tem os cariocas ou expressões próprias como o "égua" paraense ou o "uai" mineiro. Não é de se estranhar. Afinal, Brasília é muito jovem e ainda sente influências de todos os brasileiros que migram para lá.

No aniversário de 50 anos da cidade, é tudo que conheço ou lembro de Brasília na prática, fora das pesquisas na internet. E quase nada além do Plano Piloto. Hoje, é vista como uma metrópole que mal consegue acompanhar seu próprio crescimento, o que não deixa de ser uma ironia triste, já que é conhecida por ter sido planejada para ser a capital brasileira. Para muitos, é um símbolo de arrogância política, um erro histórico. Para muitos outros, é apenas uma cidade sem carisma, principalmente por aparecer tanto na televisão (quisera eu conhecer outra capitais sem visibilidade do Centro-Oeste e do Norte para comparar). Brasília não foi feita para deslumbrar. Isso é tarefa do Rio. Nem caberia dizer agora para qual objetivo foi feita, além do óbvio de ser a capital do País. A História não retrocede. Mas penso que, se há 50 anos o Brasil olhava para lá, agora é bom voltar o olhar para o resto do território nacional. Seria bom se isso fosse feito de qualquer lugar do País e em qualquer dia do ano. Nunca parei para imaginar como eu seria se continuasse minha infância em Taguatinga, fortalecendo o que chamam de raízes. Pelo menos posso afirmar que uma das melhores coisas de ter saído foi ter uma noção melhor das diferenças do Brasil. O reconhecimento de que se sabe pouco. A vontade de conhecer mais. E, às vezes, olhar para o começo de tudo.

Parabéns,

  Janeiro de 2010

Um novo primeiro lugar

Apesar de acreditar no filme desde as primeiras notícias sobre ele, não imaginava a bilheteria de Avatar superando a de Titanic, especialmente em tão pouco tempo. Ainda não vendeu mais ingressos, mas o preço destes subiu desde 1997, seguindo a inflação e o custo de novas tecnologias como o 3D e as telas IMAX. O resultado é claro: apenas James Cameron superou James Cameron. Expectativa aliada à qualidade da obra, mesmo estando muito, muito longe da perfeição. Ainda acho O Exterminador do Futuro 2 seu melhor filme, mas, pessoalmente, fico feliz de ter contribuído com a arrecadação das dez maiores bilheterias da história do cinema. Até mesmo com Titanic e o primeiro filme da série Harry Potter, dois trabalhos que me desagradaram quando deixei a sala de exibição.

Fui ver Titanic meses após a sua estreia. Muitas adolescentes já carregavam revistas e fotos do Leonardo DiCaprio. A música tema cantada pela Celine Dion tocava sem parar nas rádios. Já conhecia o bordão "eu sou o rei do mundo" mesmo antes de saber o contexto onde ele era proferido. Resisti, mas acabei topando ir ao cinema. Setenta minutos sozinho numa fila cheia de casais para comprar o ingresso, mais quinze para poder entrar na sala, muito abafada mesmo com o ar condicionado. Antes das luzes apagarem, escutei duas moças dizerem que era a terceira vez que assistiam ao filme. Durante a exibição, um e outro grito de "lindo" quando o protagonista aparecia em cena. Perto do fim, lágrimas e mais lágrimas. A única vez que vi mais gente chorando no cinema foi ao assistir A Paixão de Cristo. Quando voltei para casa, debaixo de chuva, me sentia um idiota. Já a sessão de Harry Potter foi muito mais tranquila. Não me arrependo, mas até hoje implico com o filme.

Passei um bom tempo me opondo a Titanic. Mas anos depois, assistindo em casa, achei o filme melhor. Reparei com mais atenção nos cenários, nos movimentos de câmeras e continuei achando impressionante a sequência do naufrágio. Fiquei em paz com aquele ingresso que me custou tanto esforço e ajudou a bilheteria a constar no Guiness Book. Mas sempre torci para que um filme que eu considerasse superior tomasse o primeiro lugar. Acompanhava toda semana, por exemplo, a arrecadação de O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, mas ele não conseguiu ultrapassar Titanic. Por isso, quando soube do sucesso avassalador de Avatar, fiquei feliz não só por ele ser um trabalho superior, mas por eu ter ido ao cinema mais de uma vez assistir. E talvez vá de novo, se deixar a empolgação falar mais alto. Fico imaginando se, anos depois, verei o filme e meu gosto por ele mudará, pra melhor ou pior, dependendo das minhas experiências até lá. E se ainda virá uma obra cinematográfica que possa rivalizar com Avatar e eu a considere melhor para que eu possa torcer mais uma vez por qualidade e quantidade.

Atuações e intenções

Marco Ricca, diretor do filme Cabeça a Prêmio (inspirado no livro de Marçal Aquino, que comentei brevemente há mais de um ano), disse em um encontro com público e crítica que não quis se prender muito à obra original, pois um filme por si só já é algo bastante diferente. Disse também que fez questão de trabalhar com atores famosos. Ele vê um preconceito contra artistas conhecidos na televisão, onde o público ou vê a fama inversamente proporcional ao talento ou se recusa a acreditar em papéis fora do estigma estabelecido no imaginário do telespectador (Tony Ramos, por exemplo, tentou fazer um papel de vilão e não deu muito certo). Como adaptação cinematográfica é um assunto recorrente (e até enjoativo) por aqui, melhor se concentrar na outra parte do discurso: a fama alcançada na televisão e que, às vezes, acaba engessando os atores.

O diretor disse que queria dar tempo aos atores, deixá-los respirar em cena, planos sem pressa. Decisão muito natural,  lembrando que Ricca tem formação como ator e é sua estreia na direção. E ele sabe que, para trabalhar com as sutilezas na expressividade de um ator, o melhor campo é o Cinema. Sim, Teatro exige imensa dedicação do intérprete e geralmente é a base dos atores mais talentosos, mas, devido à distância física do palco e à perspectiva única de visão que tem o público, é preciso se apoiar muito nos gestos e na linguagem corporal para o desenvolvimento da atuação. Já a TV precisa ter um ritmo rápido e popular para não ficar atrás das emissoras concorrentes, então não há espaço para longos planos e para o silêncio. E era justamente nisso que Ricca queria trabalhar ao lado dos atores escolhidos. Por exemplo, Eduardo Moscovis entrou em contato com Ricca e pediu um papel no filme. Não foi aceito de imediato, mas acabou entrando. Conforme as gravações corriam, decidiram que o personagem seria cada vez mais silencioso. E Moscovis fez um trabalho surpreendente ao mostrar seu assassino geralmente calado, mostrando apenas suas linhas de expressão (também é preciso abandonar a vaidade) e seu olhar de dúvida, raiva, tristeza ou cansaço. Um trabalho que dificilmente teria espaço na TV aberta, principalmente em telenovelas. Como disse o roteirista João Emanuel Carneiro: "Você escreve uma cena em que o personagem tem que dizer 'Eu te amo'. Existem mil maneiras de dizer 'eu te amo' sem ser tão evidente, sem sublinhar tanto a frase (...). No cinema, há outros recursos para transmitir o clima, as intenções. Na TV, as intenções precisam estar presentes no texto".

Claro que não se trata de um ataque contra a televisão, nem de dizer que boas atuações só existem no cinema ou teatro. Glória Pires, Patrícia Pillar, Cláudia Abreu, Tony Ramos, Luis Mello, entre outros atores mais conhecidos pela TV, oferecem ótimas interpretações. Mas gente que veio do teatro ou do cinema (ou que migra da TV para estes meios) parece ter mais chance de ser versátil e, consequentemente, apresentar trabalhos mais intensos. Dira Paes, Alice Braga, Wagner Moura, Lázaro Ramos, Caio Blat, João Miguel, entre tantos outros. Por isso, foi bom ver Marco Ricca investir nas possibilidades que o cinema oferece à interpretação, ainda que Cabeça a Prêmio apresente alguns problemas, principalmente na sua estrutura. Mas, como foi dito antes, melhor deixar pra lá mais comentários sobre o filme e terminar lembrando como é bom ver uma boa atuação, seja em TV, Teatro ou Cinema.

Pipoca e aniquilação

Uma das piadas mais recorrentes no twitter sobre o blecaute que atingiu pelo menos dez Estados na noite de ontem foi que tudo não passava de um marketing viral para a estreia do filme 2012. O fim do mundo pode começar com estranhos fenômenos que abrem portas para a violência geral diante da dificuldade ou impossibilidade de segurança pública e punição para os infratores. Mas é difícil acreditar que o novo filme do diretor Roland Emmerich dê atenção a uma possível anarquia destrutiva decorrente da iminência do fim dos tempos. O destaque irá para as cenas de destruição de monumentos famosos e outras localidades, como já foi visto em Independence Day e O Dia Depois de Amanhã, também dirigidos por Emmerich. Percebe-se que, além do seu gosto por desastres de escala mundial, o diretor abraçou sem medo o objetivo de fazer filmes para massagear o ego do público norte-americano, mesmo tendo nascido na Alemanha. O feriado de independência dos Estados Unidos é o dia da vitória da raça humana contra os aliens; os franceses são culpados pela acidente nuclear que provocou a mutação no monstro Godzilla (nos originais japoneses, a terra de Obama é a culpada) e cabe aos norte-americanos a tarefa de derrotá-lo; em O Patriota, a batalha pela independência dos Estados Unidos é mostrada de maneira muito clara: os colonos só querem liberdade e justiça (incluindo para os escravos), mas a maldade britânica não permite. Não é de se estranhar que ele tenha demonstrado interesse em dirigir Transformers, mas a Dreamworks preferiu entregar o filme a Michael Bay, outro patriota sem muitas sutilezas.

Mas o problema maior não é ver a predominância da bandeira dos Estados Unidos, até porque isso não atrapalha uma diversão bem montada. O incômodo é ver como insistem em mostrar que, na iminência  da destruição do planeta, cada indivíduo mostra seu valor mais puro e nobre, se preocupando em discutir relações e curar traumas familiares (e são justamente aqueles que sobrevivem aos desastres globais). Em qualquer situação de extremo risco, qualquer pessoa  em sã consciência só terá duas preocupações: sobreviver e proteger entes queridos. Sem muita conversa para ensinamentos ou dignidade de valores, priorizando a união de esforços como o objetivo de continuar viva, não para arranjar amigos, o que não necessariamente reflete o lado mais bonito do ser humano (algo que o filme Extermínio retratou bem, mesmo não tratando da extinção da Terra).

Filmes que enfocam sobre o fim da humanidade, e não do planeta, costumam ser mais interessantes (Filhos da Esperança e Eu Sou A Lenda, por exemplo). Claro que, em obras como Guerra dos Mundos, o fim do mundo não é para assustar, mas para divertir. Acaba não atraindo mais, só mesmo pela pipoca, o que obviamente não é nenhum pecado. Não é errado não ser exigente. Mas também não é erro reparar mais em exemplos do tema que despertam o interesse, como o filme Presságio, lançado este ano. Mais do que ver grandes cenas de desastres, interessa se identificar com os personagens e suas reações diante de um problema que, mesmo que a humanidade ainda não tenha experiência prática em enfrentá-lo, já se sabe que não pode ser contornado.

A lisura de um mérito

Sentir orgulho é bom. Não o orgulho como pura soberba ou ufanismo (embora, claro, seja essencial respeitar a própria dignidade). Mas o sentido de recompensa e regozijo é importante, principalmente porque deriva de se acreditar em algo ou alguém. Não é fácil confiar no futuro, aceitar os riscos do caminho, os momentos de desânimo, os obstáculos justos e injustos, tudo para atingir a meta. Para muitos, a dificuldade começa aí mesmo: saber qual é o objetivo final a se cumprir. Afinal, saber onde se quer chegar é a motivação de tudo. Outro problema é a chance de sentir orgulho ser inversamente proporcional ao pessimismo. E com tantos problemas e casos como exemplos da realidade, é natural não esperar muita coisa. Desta forma, o resultado agrada não pelo próprio merecimento, mas porque a expectativa era baixa. Não carrega traços de orgulho para quem participa ou entusiasmo para quem assiste.

A expressão máxima do orgulho nacional é o futebol. A seleção brasileira foi classificada para a próxima Copa. Desde agora há mobilizações para unir a nação na torcida pelo time. Bom pro esporte, mas é uma pena o contentamento nacional se resumir a isso. Um otimismo coletivo ajuda muito a alimentar a confiança individual. Evidentemente, não significa fechar os olhos para os problemas. Só a reparar melhor no lado mais brilhante da moeda. Difícil para quem se acostumou a ser muito crítico ou taciturno. Chatos de plantão. Mas talvez valha o esforço. Lembrando de momentos de orgulho individual (um difícil trabalho concluído, um beijo roubado ou uma criança aprendendo o que se ensina), fica mais fácil encarar. Pelo menos é possível argumentar que, antes de apelar para o lado emotivo, há estatísticas comprovando que otimistas vivem mais. E viver com orgulho é melhor ainda.

Por isso, fico feliz com o 100Grana aparecendo numa matéria da revista Época. Não senti o êxtase que os idealizadores do site sentiram, claro. Peguei o bonde andando, com tudo facilitado. Eventualmente colaboro com alguma coisa. Mas acompanhei, mesmo de longe, o esforço inicial da equipe. Plantão à espera de novidades, acompanhamento do número de visitas, o trabalho de divulgação em eventos de cultura pop, a formação da própria identidade no meio de tantos outros sites com o mesmo tema (lembrando que estão na Amazônia), as tentativas de atualizar a página mesmo com outros trabalhos (remunerados) para realizar. Fazer as coisas sem dinheiro é difícil. Em muitos casos, é impossível. Mas, vendo o reconhecimento que o site tem agora, vem à tona uma ideia romântica: antes de tudo, é preciso se comprometer, acreditar, vestir a camisa. É preciso respeitar momentos assim, mesmo com a imprevisibilidade do futuro. Tentar aprender alguma lição deles. Parabenizar os envolvidos. Reconhecer a conquista. Admirar o orgulho justo.

Aproveitar o momento

Durante o ensino médio, havia um evento anual cujo objetivo era estimular a boa convivência entre os estudantes e o interesse pela matemática e outras ciências. Algo assim. Participando pela primeira vez, eu estava encostado numa das arquibancadas, desaminado por algum motivo. Era o momento da apresentação de algumas bandas. Nenhuma me interessava: brega e forró predominavam e minha paciência para multidão era menor ainda. Aliás, a paciência para pessoas de modo geral era menor. Coisas de idade e personalidade, embora acredite numa parcela maior de culpa da primeira naquele dia. Tenso por hormônios, calado por natureza, invocado com a situação. E assim eu via o forró no ginásio.

Então a banda no palco começou a tocar os primeiros acordes de Another Brick on The Wall. Fiquei aturdido, mais ainda quando um amigo gritou para seguí-lo e correu em direção à multidão. Acompanhei. Foram pulos e esbarrões "seguindo" a música, cantando a letra. Diversão. Todos desajeitados: um amigo tropeçou enquanto pulava, outro teve o bolso do uniforme rasgado, eu machuquei a boca ao bater no ombro de um cara que saltava com todas as forças. Voltamos para a arquibancada, descansamos e fomos embora.

Repeti essa ação outras vezes durante os anos seguintes, em lugares variados. Casa de shows, praia, meio da rua, estacionamento, gramado de algum condomínio, casa de amigos e desconhecidos. Nem sempre tão lúcido, mas certamente muito agitado. Meu entendimento de rock vem daí: se divertir, aproveitar a hora e depois partir. Claro que depois estendi esse comportamento a outros gêneros, principalmente música eletrônica (e o amigo que puxou todo o grupo no dia no ginásio já aproveitou tudo; a última que vi foi um carimbó semi-bêbado). Mas com rock é diferente. Talvez porque pensar em rock é lembrar da juventude em todas as suas vertentes: ânimo, rebeldia, desespero, decepções, vontade de revolucionar para no fim apenas se divertir sem culpa. Mas acima de tudo aproveitar o momento de ser jovem. E, apesar da idade contar bastante pra isso, nem sempre ela é primordial. Sempre haverá o momento de se divertir, descansar e ir embora.

"It's been a long time since I rock and roll
It's been a long time since I did the stroll
Let me get it back, let me get it back
Let me get it back, baby, where I came from
It's been a long time, been a long time
Been a long lonely
Lonely, lonely, lonely
Lonely time
Yes, it has"

Led Zeppelin

Público e revista

Somente agora consegui a nova edição da revista SET. Depois de ser ameaçada de cancelamento, a publicação voltou em junho com uma nova equipe editorial. Prometeram dar mais espaço ao cinema nacional. Publicaram na seção de cartas respostas no orkut sobre o que os leitores esperavam da nova SET. A mais interessante foi de um leitor dizendo que apenas desejava que a revista voltasse a ser séria, não apenas um conglomerado de nerds comentando suas adaptações de hq favoritas. Tem razão. Gosto muito de filmes e quadrinhos, mas muitas vezes sentia na revista menos crítica e mais histeria. Exatamente como em alguns sites de entretenimento e cultura pop.

Vi muitas reclamações no orkut. Por que leriam uma coluna sobre financiamento de filmes nacionais ou sobre o sucesso de comédias da Globo Filmes, como Se Eu Fosse Você 2 e Divã? Queriam matérias descontraídas sobre Transformers 2 ou Wolverine. Um leitor foi sensato: disse que sobre arrasa-quarteirões ele buscava notícias na internet; por quase 10 reais ele queria material diferente do olhar de "animador de torcida" frequente em blogs e certos sites. E era bastante incômodo ver as mesmas matérias da SET tanto no site como nas páginas da revista.

Lembrou a postura do Digestivo Cultural ao dizer que os jornais (papel) estão chegando ao fim. O jornalismo impresso retrocedendo diante do virtual. Com a internet, todo mundo pode divulgar notícias. Internet nunca exigiu diploma... Jornalismo e crítica de cinema, ainda lembrando da revista SET: parecem demonstrar não exigirem qualquer conhecimento especial, só assistir a bastante filmes e escrever razoavelmente bem. Quase parece fácil, pra ser sincero. Basta querer, se arriscar e ter alguma sorte. E, claro, demonstrar competência. Se possível.

Dito isto, bom ver a SET e suas mudanças, ainda que poucas. Por mais que seja divertido (às vezes), uma hora cansa o cheiro de "babação de ovo" para blockbusters, especialmente adaptações de quadrinhos. Se ficar mais exigente significa ser mais chato, paciência. Pelo menos com revistas e jornais. Na internet vale o gosto de cada um. E espero que o site da revista volte melhor, sem ser mera cópia digital do papel. Mas o impresso também deve melhorar. Lembrar que a tradução de Closer aqui ficou Perto Demais, não Mais Perto. Não exagerar em listas top 10 (foram duas nesta edição). Evitar construções como "a ajuda não veio na forma de um soldado do futuro. E, sim, como um Cavaleiro das Trevas" ao se referir ao ator Christian Bale ou "diretor de Dogville toca o terror no Festival de Cannes" para falar do polêmico O Anticristo, de Lars Von Trier. Tentar ser jovial não significa se expressar tão ridiculamente. E lembrar que qualquer revista, antes de ter fãs, precisa ter leitores.

Metade do real

Fui buscar o resultado de um exame médico. Sempre há filas na porta do elevador. Como ninguém gosta de filas e não era num andar muito alto, fui pelas escadas. No último lance de degraus para chegar ao terceiro andar, um moeda vem caindo na minha direção. Atrás dela, um garoto de uniforme escolar, braço estendido e palma aberta mirando o dinheiro em queda, talvez uns dez anos de idade. Pisei na moeda para evitar que ela descesse ainda mais. Mas antes de notar a moeda ou o garoto, eu já estava fazendo o movimento de pisar no próximo degrau. Para pegar a moeda a tempo, o pé foi mais rápido. Acabei pisando com força. Fez barulho.

O garoto parou. Afastei o pé da moeda e dei espaço para ele. Ele não se mexeu e olhava para mim. Mesmo uns três degraus acima, ainda ficava um pouco abaixo da linha dos meus olhos. Olhei para a moeda, depois para o garoto, novamente para a moeda e me indaguei o que diabos ele esperava. Avancei mais um degrau para chegar ao meu destino. Ele se afastou e então percebi que estava assustado. Tato típico com crianças. Senti-me ridículo. Também achei o garoto ridículo por julgar que eu iria querer o dinheiro. Mas ele estava tenso. E, ridículo ou não, era uma criança assustada. O que eu poderia alegar?

Ajoelhei-me, peguei os cinquenta centavos e estendi a mão. Olhou para a moeda, depois olhou pra mim, mais uma vez pra moeda e então a pegou. Continuei a subir. Dobrei para subir o próximo lance e então percebi que ele desceu alguns degraus e parou. Quando me viu olhar em sua direção, esticou totalmente o braço, levantou o polegar e fez o sinal de positivo, joia. Depois continuou a descer. E eu fiquei parado. Um daqueles momentos pra tentar racionalizar a situação. Depois de racionalizar, filosofar a respeito. Não é de propósito, apenas acontece. Então parei e voltei a subir, lembrando das vezes em que fui alertado sobre "pensar demais". Era um garoto que se espantou com um pisão repentino no seu dinheiro. O que o universo tem a ver com isso? Não é uma tentativa de entender inteiramente a realidade do mundo, não é uma metáfora sobre as descobertas na infância, não é uma crítica velada ao desejo por dinheiro, não é um objeto de estudo antropológico sobre a disputa territorial humana.

Porque ainda há fatos que não merecem explicação por serem óbvios. E isto já é um fato óbvio. Mas, se escrever sobre isso já implica enxergar além da obviedade da afirmação e do ocorrido, o que fazer? Não sei. Nem me incomodo no momento. Às vezes é bom sentir a tranquilidade de correr só atrás do imediato. Só às vezes...

Alguma coisa a se celebrar

Durante pesquisa para seminário sobre internet e web, encontrei uma dissertação sobre o tema e, em suas páginas, o seguinte trecho:

"Desde sua fundação, o IBASE acreditava na importância da disseminação das informações para o desenvolvimento da sociedade, constituindo assim um discurso que pugnava pela democratização do acesso aos computadores e às suas redes de comunicação."

(Marcelo Sávio Revoredo Menezes de Carvalho. A trajetória da Internet no Brasil: do surgimento das redes de computadores à instituição dos mecanismos de governança. COOPE/UFRJ, 2006)

O Ibase teve importância estratégica para a consolidação da internet no Brasil. A parte sobre "disseminação das informações para o desenvolvimento da sociedade" é uma das mais interessantes. E se torna ainda mais com a polêmica do blog da Petrobras, onde a empresa divulgava perguntas de jornalistas (e as respectivas respostas da assessoria) antes da publicação da matéria. Ontem a empresa anunciou que irá divulgar perguntas e respostas a partir da zero hora do dia em que está prevista a publicação da reportagem. Foi uma decisão sensata, mas gostaria que ela demorasse um pouco mais a acontecer. Queria ver mais questionamentos sobre o que vale a informação e, principalmente, os grandes jornais em tempos como esse.

Difícil escolher um ponto de partida. CPI, questionamentos, o próprio blog... Melhor começar com o que chamou a minha atenção para o caso: a nota de repúdio da ANJ à iniciativa da Petrobras. Foi importante porque, assim que soube da blog, não concordei com a atitude de publicar perguntas dos jornalistas antes da publicação das reportagens. Não há nenhuma lei que impeça o entrevistado de divulgar os questionamentos aos quais foi submetido, mas não deixa de ser uma falta de consideração com o trabalho intelectual e investigativo do jornalista. E então li a nota da ANJ.

"Numa canhestra tentativa de intimidar jornais e jornalistas..."
" ...prática contrária aos princípios universais de liberdade de imprensa..."
"...configura uma violação do direito da sociedade a ser livremente informada..."

Posso estar muito enganado, mas de acordo com a nota da ANJ entendi que a liberdade de imprensa e o direito da sociedade a ser livremente informada não são questões complementares. A primeira assume ares de prioridade a certos órgãos, enquanto a outra é apenas consequência para o povo. Internet não se inclui como ferramenta no direito ao livre acesso à informação? Qual seria o problema em ler a versão da empresa e depois ler a matéria do jornal em questão (ou vice-versa, desde que seja possível comparar as duas versões)? Se tal prática fosse estimulada, não seria melhor para o direito à informação que a sociedade possui?

Acredito que a liberdade e velocidade da internet ajudaram muitos de nós a conhecer melhor a política de interesses que rege a relação entre empresas e imprensa. Alguns sabiam antes, outros perceberam mais tarde. Uns mais ingênuos, outro nem tanto. Mas todos ficamos mais atentos, principalmente quem estuda e trabalha com Comunicação. Não se trata mais de discutir a questão da "imparcialidade" jornalística, isso já é batido. Mas desconfiamos muito das matérias dos jornais e desconfiamos ainda mais das respostas das assessorias de imprensa (que, embora ainda contem com profissionais que valorizam a importância do jornalismo institucional, são naturalmente voltadas para a convergência de interesses do assessorado). Estamos mais céticos. Também menos ignorantes. Alguma coisa deve ser celebrada nesse resultado.

O principal trunfo dos jornalistas sempre foi a exclusividade de suas reportagens. A internet alterou significativamente este cenário. Chamar a atenção importa mais que informar. Escândalos, denúncias, absurdos da vida, tudo que não seja rotineiro. Como disse o Crápula Mor, ocorre "uma lógica midiática da valorização do incomum". Porém, no ritmo em que estamos, há o risco de incomuns serem os questionamentos que o jornalismo dos grandes veículos deveria provocar. Por isso aprecio tanto a internet. Por isso gostaria que a polêmica do blog da Petrobras durasse mais. Mesmo sabendo que não há altruísmo que supere os interesses próprios de cada lado, sempre é útil aproveitar os ganchos e questionar mais e saber mais quando o objetivo, romântico ou não, é o desenvolvimento da sociedade.

Apenas o suficiente

Após dias sem ler blogs que acompanho, eis o seguinte trecho do texto publicado dia 18 de abril na Ilustrada no Cinema:

“A emoção maior acontece quando mil pessoas estão sentadas no escuro, olhando a mesma cena, e todas apreendem algo que não está sendo dito. Esta é a grande vibração, o milagre _o que nos prende aos filmes para sempre. É o que gostaríamos de poder fazer na vida real. Todos vendo algo e compreendendo juntos, sem que ninguém tenha que dizer uma palavra. Aí está uma boa razão para que o melhor som que uma plateia possa fazer _tanto no teatro quanto no cinema_ é som nenhum, apenas o silêncio absoluto”.

Palavras do diretor Mike Nichols em matéria do New York Times. Nichols dirigiu "A Primeira Noite de um Homem", "Closer", entre outros. Seu filme mais recente foi "Jogos de Poder". Closer teve impacto sobre mim, assisti duas vezes no cinema e desde então não vi mais, embora lembre claramente de suas cenas e diálogos. O silêncio elogiado por Nichols está lá, mas o filme é adaptado de uma peça teatral e, portanto, os diálogos são sua força, tão ou mais expositivos da intimidade que uma cena de nudez ou sexo.

Mas meu objetivo não é falar sobre Closer. É tentar expressar o quanto a declaração de Nichols me comove. Tentativa desde já falha; explicar o valor do silêncio através de palavras não dá bom resultado. Nichols se saiu muito bem. Aproveito o seu discurso. Diálogos são importantes, mas antes de tudo o Cinema deve contar sua história através de imagens. Nossas memórias mais importantes também descansam em imagens, creio. Não é possível esquecer as palavras. Todo estudante de Comunicação precisa trabalhar com isso. E eu preciso me expressar mais e melhor, sair do mutismo da ansiedade e do fastio, principalmente a partir do próximo mês. Exigirá esforço.


Mas sempre vale lembrar de momentos em que silêncio não significa falta de opção. Apenas ser o suficiente.


"É o que gostaríamos de poder fazer na vida real. Todos vendo algo e compreendendo juntos, sem que ninguém tenha que dizer uma palavra"

Fatos

Mais de uma vez encontrei pessoas que se diziam desiludidas com a igreja católica. Não se tratava apenas de um rápido desapontamento, logo esquecido para se tocar a vida. Era uma crise de fé mesmo, de duvidar de algo considerado santo ou sagrado, de não entender as razões da sua doutrina religiosa e se sentir mal por isso. Não somente o catolicismo: já vi adeptos de outras religiões também questionarem sua crença. Sempre me dispunha a conversar, afinal é um tema que sempre me interessou. Mas no fim sempre chegamos ao mesmo ponto: como argumentar sobre um tema que se apoia acima de tudo na crença no místico, ou seja, no que não pode ser provado material e fisicamente? Como questionar uma fé usando registros científicos, históricos e estatísticos se o interlocutor pode dizer simplesmente "mesmo assim eu acredito na minha religião" e transpirar sinceridade nesta resposta? Não sei. Acredito que palavras não bastam nesta questão. Precisamos de fatos.

A igreja católica condenar o aborto dos gêmeos da menina de 9 anos estuprada pelo padastro não foi uma surpresa, ainda que a criança corresse risco de morrer se continuasse com a gestação. Os bebês também corriam perigo, pois o aparelho reprodutor da menina não estava completamente formado (9 anos de idade e pesando 33 quilos!). Três vidas em jogo. A igreja católica diz que vida deve continuar, não importa que séculos de estudos mostrem que a continuidade de tais vidas seria logo interrompida de forma traumática. O aborto é realizado. O arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, excomunga todos os envolvidos: a mãe da criança, os médicos, todos que deram assistência à menina, etc. Todos foram excomungados, menos a criança, por ser menor de idade, e o padrasto, porque ele segundo Sobrinho "cometeu um delito gravíssimo, mas, de acordo com o direito canônico, não é passível de excomunhão automática. O aborto é mais grave ainda".

Mais grave que estupro e pedofilia. O Vaticano apoiou a excomunhão. Seria algo grave, se ainda estivéssemos na Idade Média. Mas se é notável o atraso da igreja católica em relação à sociedade atual (embora ela procure ter coerência em suas atitudes) e se toda discussão sobre religião pode terminar no velho ponto de que a fé basta a si mesma, então porque ainda discutimos? Eu mesmo me fiz essa pergunta um ano atrás. Acho que a resposta tem a ver com o tema do post anterior.

Não dá pra negar que há quem encontre em sua religião uma fonte de energia e esperança para continuar vivendo, seguindo certo código de conduta moral e ética que valoriza a existência do próximo. O ato do perdão e da solidariedade pregado principalmente pelo cristianismo ainda encontra espaço neste tipo de comportamento, ainda que esteja cada vez mais distorcido. Mas o grande trunfo da religião é oferecer uma perspectiva post mortem e, desta forma, orientar as ações durante a vida. A figura de uma autoridade etérea que nos vigia e a quem devemos prestar contas (e tirar dúvidas) no além evita uma proximidade maior do caos niilista ou deliberadamente amoral possível de acontecer caso todos acreditassem que tudo o que foi aprendido e realizado terminaria definitivamente com a morte, seja ela no fim de uma velhice saudável ou num acidente inesperado na esquina de casa.

Por outro lado, também é impossível não lembrar que o mesmo conceito de religião que salva pessoas através da fé também as manipula para terrorismo, guerras e outras atrocidades como a Inquisição. E ultimamente este lado sombrio ganha mais destaque do que os seus benefícios. E por isso ainda é válido questionar e discutir atitudes como a do arcebispo de Olinda e Recife: para continuar nos situando no que achamos correto no meio de tantas crenças que não podem ser provadas ou contrariadas. Para evitar a manipulação ideológica. E para, quem sabe, um dia reconhecer que todo ser humano é falível e desesperado, não importa quantos iluminados e reencarnados digam o contrário e que os outros estão errados. Não reconhecer a própria natureza e a diversidade de opiniões não é um bom começo para quem quer fazer do mundo um lugar melhor.

Slow

Componentes do design da pesquisa. Ouvi o termo. Começam os milésimos de lerdeza.

Mesmo sabendo o significado de "design" e "pesquisa", os dois juntos não funcionam logo na minha cabeça. Enquanto uma palavra me lembrava imediatamente formas e cores, a outra remetia a estudos e suas conclusões. Sentido espacial em um lado, sentido científico em outro. Formas e cores de uma pesquisa...como uma pesquisa se apresenta? Através de letras e números, pensei. Piorei ainda mais a descrença no meu raciocínio, ainda mais sendo tão óbvio assim. Talvez tratasse da diagramação da pesquisa. Tabelas dessa forma, quadros seguindo determinado estilo, questionários de acordo com tal tendência. Gênio. Joguei a toalha e pedi pra ler o papel.

Questão de estudo, unidade de análise, critério de interpretação. Eram alguns dos componentes do design da pesquisa. Indicavam qual era o caminho proposto à pesquisa, seu objetivo, sua metodologia. Julguei ter encontrado a resposta. Como uma pesquisa se apresenta? Através de um projeto. Evidente. Terminam os milésimos de lerdeza. Eu ainda me sentia bastante vagaroso.

Background teórico. Outro termo do mesmo documento. Desta vez me irritei. Achei que era uma complicação inútil da linguagem jurídica (engano meu: depois fui procurar o texto na internet e, para minha supresa, e achei na área de
pesquisa contábil; como faz parte da disciplina de metodologia, deve estar presente em outros campos. Eu vi pela primeira vez em Direito). Background em vez de fundamento, sustentação, base ou outra palavra adequada. Estrangeirismo tolo. E metodologia científica já dá tanta atenção aos seus termos, complicados ou não...

Estrangeirismos estão presentes diariamente na nossa vida, ainda mais na internet e na informática. Todo idioma vai se modificando continuamente no contato com outras línguas. É natural, até saudável. Mas usar survey (levantamento) numa apostila sobre estudos de casos é exagero. Continuei a me achar lento de raciocínio na ocasião, mas a culpa diminuiu um pouco. Até lembrei do Zeca Baleiro e o samba do approach.

Halloween ou Dia das Bruxas? Tanto faz. Gosto de Halloween pela série de filmes de terror. Neste caso, é verdade, vai além do estrangeirismo. Dia das Bruxas não faz parte da cultura brasileira. Mas brincar com o medo é divertido. E vale a curiosidade sobre festas pagãs, culto aos espíritos e influências da religião cristã. No mais, quem adota a louvável atitude de valorizar a cultura nacional (e regional), troque-se o Halloween pelo Dia do Saci. Se comemorar, convide.

Lição

Hoje. Onze horas. Atendo o telefone.

- Oi! Adivinha quem é?

Adivinho.

- Como é que você sabe?

- Seu jeito de falar, o que mais?

- Escuta, você pode me ensinar inglês?

- Quando?

- Hoje.

- Pô, não vai dar. Acabei de acordar. Vou lavar louça e depois sair. Da próxima vez marca com antecedência.

- Acabou de acordar? Mas isso não é hora de estar na cama!

- Fui dormir tarde ontem.

- Tava fazendo o quê?

- Estava acordado.

- Ah...

- Você já não fez a prova de inglês?

- Já. Mas vou ter que fazer outra.

- Outra, né? Entendi.

- Aquelas questões que você me ensinou eu acertei todas. Mas eu errei aquilo de 'what', 'when'.

- Porque não deu tempo de estudar. Por isso tô dizendo pra você marcar com uns dias de antecedência.

- Mas agora eu estudei tudo. Já sei. Só queria estudar mais.

- Pelo menos isso mostra que você sabe, é só estudar. Viu como você aprendeu?

- É. Escuta, você já foi na Feira do Livro?

- Já.

- Puxa, nem me chama, né?

- Você nunca disse nada a respeito. Além disso, fui à noite. Nessa hora você já está na sua casa, não é?

- Eu queria ir lá com o Rafa.

- Mas vocês costumam ler? Nunca vi vocês lendo. Vão lá só pra passear e nada de livros.

- Eu leio. Eu gosto de ler.

- Espero que sim. Por isso te emprestei aquele livro. Já leu?

- Não. Mas é porque era época de prova, não dava pra ler. Aquele livro eu leio em um dia, um dia e meio.

- Então leia. Depois você fala comigo sobre ele.

- Vou ler. Mesmo assim, obrigada, tá?

- De nada. Da próxima vez, marca um pouco antes.

- Tá. Obrigada! Tchau!

- Tchau!


O assunto era cinema com um pouco de angústia. Mas lembrei do telefonema. Vou chamá-la pra sair na próxima vez. Ela tem muito que me ensinar.

Admiração

Entre muitos casos fascinantes das Olimpíadas da China, minha atenção foi especialmente para a determinação da atleta russa Yelena Isinbayeva no salto com vara. Há muito tempo expõe a sua meta não apenas de ganhar a medalha de ouro, mas estabelecer um novo recorde mundial. Na competição o favoritismo pesava em seus ombros e quando a imprensa questionava as suas chances, ela respondia de forma simpática mas fria, sempre falando pouco, e logo virava o rosto belo e concentrado para fora da pista.

No último dia da prova, a brasileira Fabiana Murer, igualmente determinada e concentrada, não encontra sua vara graças a um erro do comitê de organização do evento. Desconcentra-se e é eliminada da competição. Revolta nos dois lados do planeta. De rosto e olhos molhados, promete não voltar mais à China. No mesmo dia, pouco depois do episódio da vara perdida, Isinbayeva tenta superar o recorde mundial. Precisa saltar 5,05 m. Tenta duas vezes e derruba o sarrafo. Na terceira e última tentativa, consegue atingir seu objetivo. A câmera lenta e de alta definição mostra o movimento do corpo se desviando milimetricamente do sarrafo enquanto o rosto assume a expressão do esforço supremo. Impressionante. Ao cair no colchão, vibra de alegria. Ainda assim, só larga mesmo a seriedade quando a medalha de ouro é pendurada em seu pescoço. Sorri. Chora. Limpa as lágrimas do rosto enquanto a multidão aplaude. É a melhor do mundo no que faz.

Se estivesse lá, também aplaudiria a brasileira e a russa. Revolta e solidariedade, patriótica e humana, pelo erro cometido com Fabiana Murer. Talento inegável, as chances contra Isinbayeva não eram boas, mas teria a chace de tentar com toda a sua capacidade. Uma quebra na sua concentração foi um golpe doloroso e inesperado. Terrível. Palmas para o seu esforço e, acima de tudo, para o seu valor. Quanto à russa, seria a admiração do calor do momento. Uma medalha de ouro legítima merece respeito, não importa a nacionalidade.

Três dias depois e muito longe de Pequim, não dá pra bater palmas. Em vez delas, a admiração segue por este texto. Não é mais pela emoção da disputa ou habilidade atlética. Aqui, nos caminhos alternativos entre trabalho e casa, a atenção vai para a consciência dos objetivos de vida e a submissão à disciplina necessária para alcançá-los. Nas Olímpiadas esse tipo de comportamento é muito perceptível: "quero isso (medalha) e tenho este prazo (4 anos) para conseguir". Fora dos esportes, a visão se anuvia. Pena, mesmo sem surpresa. E até nas Olímpiadas fica claro que os planos e preparos para a vitória podem ser sabotados pelo acaso ou pelas más intenções. Não se pode controlar tudo. Em determinada hora, algo ou alguém faz falta. A concentração se esvai. O ânimo cai. Mas deve-se continuar. Por isso aplaudimos. Para desconhecidos ou para íntimos. Afinal, sempre estaremos em um dos lados: na platéia ou no campo, para emitir ou receber a aclamação. E, quem sabe, em casos mais extremos, as lágrimas.

Cliques

O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo determinou o veto da veiculação do famoso vídeo de Daniella Cicarelli fazendo sexo com um namorado em uma praia da Espanha. Tato Malzoni, parceiro de Cicarelli no vídeo e autor do processo contra o site, pode receber até R$ 250 mil de multa diária caso a ordem seja descumprida.

Rubens Decoussau Tilkian, um dos advogados de Malzoni, divulgou a seguinte nota:

"Fica mantida a decisão que reconheceu a ilegalidade da divulgação do conteúdo sensacionalista do casal e a imposição de multa para aqueles que a desrespeitarem. Diante do desenfreado crescimento das ações judiciais em face desses provedores, são necessárias algumas medidas técnicas, de ordem preventiva, com o objetivo de trazer maior segurança aos usuários dos sites na Internet”

Acompanho alguns blogs e li postagens comentando a decisão judicial. A maioria deles era contra. E, por revolta e pirraça, disponibilizavam links do tal vídeo. Menos de 60 segundos depois de ler sobre a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, encontrei cinco links veiculando o vídeo proibido.

Quais serão essas medidas técnicas, de ordem preventiva, citadas na nota do advogado? Pergunto porque, logo depois de ler sobre o vídeo, vi esse texto. Desta vez falava sobre a discussão entre jornalistas e blogueiros ocorrida na Campus Party, em fevereiro deste ano. Um embate entre "a velha mídia e a nova mídia"

Quando li a notícia na época, não dei muita atenção. Foi um erro, não apenas por eu ser jornalista de formação e ter um blog (mesmo não sendo jornalístico), embora isso seja um agravante do meu descuido. Deveria ter me interessado mais principalmente porque minha principal fonte de informação é a internet, e as notícias que leio nos impressos ou vejo na televisão geralmente não são mais novidades, embora sempre procure saber mais em qualquer dos veículos. Sou um dos vários internautas que aproveita o alcance e liberdade da internet (especialmente blogs) para se informar melhor sobre um assunto de acordo com a minha escolha, mas que ainda precisa conferir o tema nos canais oficiais (mesmo presos à linha editorial e outras amarras). Em outras palavras, meu interesse deveria ser maior simplesmente porque me envolve direta e diariamente, fazendo parte do que analiso, escuto, digo e opino, o que inclui este blog.

Há "limites" nas notícias dos principais grupos de comunicação de Belém, por isso busco alguns blogs de informações, confiando na liberdade que eles podem ter. Contudo, a internet tem muito conteúdo falso, já que tudo é tão rápido e de fácil acesso que confirmar fatos e relatos nem sempre é prioridade, como se a rapidez fosse contra a segurança da informação. Como aponta Ricardo Noblat, a navegação virtual possibilita uma participação mais ativa do leitor e dá mais liberdade ao autor e, assim, quem garante a credibilidade do blog (seja de jornalismo, cinema ou automobilismo russo) não poderia ser ninguém além do seu responsável (e aqui inevitavelmente vai uma referência ao Crápula-mor, subindo cada vez mais no conceito ao analisar mídia, política e suas relações).

Este feudo entre blogueiros e jornalistas é uma dessas discussões que são inevitáveis, embora perca cada vez mais a seriedade quando a rivalidade entre os dois lados predomina sobre o objetivo de melhorar a apuração das informações e incentivar os leitores a refletirem sobre o assunto. Não é qualquer blogueiro que pode se comportar como jornalista e nem todo jornalista se adapta (ou reconhece) à importância e aos mecanismos dos blogs e outras possibilidades da internet.

A principal ferramenta dessa relação notícia-internet são os links: as recomendações e indicações que uma pessoa pode oferecer. O link é o caminho da credibilidade do autor e/ou do interesse do leitor, não esquecendo que uma característica depende da outra. Com a liberdade e a rapidez que a internet oferece, a principal segurança do internauta diante do conteúdo que vê é o seu bom senso e o seu conhecimento. Livros, filmes, músicas, pessoas, lugares e o resto da vida que não fica somente diante do monitor. A principal lição que nunca se esquece e nunca se aprende totalmente é que todas essas áreas de conhecimento que influenciam em nossas vidas estão ligadas e, por isso, não se pode desprezar ou supervalorizar nenhuma delas.

Por isso, voltando à nota do advogado Rubens Decoussau Tilkian, é que me pergunto quais são exatamente as medidas técnicas que irão trazer maior segurança ao usuário da internet. Vetar não parece ser o melhor jeito (não precisei de 60 segundos pra me certificar disso). Regra de vida: se quiser aumentar o interesse sobre um obra, basta proibí-la. Se os seres humanos puderam aprender e se desenvolver tanto ao longo da História, mesmo com os todos os obstáculos físicos e naturais e com todas as atrocidades de nossas ditaduras, foi porque nós temos curiosidade em aprender, em confirmar, em conhecer, em testar. A curiosidade não deixa de ser uma necessidade. Venenos e remédios foram descobertos. Mares nunca dantes navegados foram singrados. Planetas foram visitados. Pilhas e pilhas de papel se formaram para armazenar todo esse conhecimento. O que vale clicar num link?

PS: sobre o episódio da Campus Party, aproveito a deixa dos links e mostro um aqui, outro aqui, mais um aqui e ainda este aqui. Há muitos outros. Este é um vídeo mostrando o clímax do embate entre blogueiros de jornalistas. Outro exemplo está aqui. E, para mostrar que estava falando sério no início do texto, este é outro vídeo. Um igual está aqui. E também há outros.

Permanência

Anos atrás, ao atravessar uma rua, escutei um grande estrondo. Lembrou um trovão. Após o eco do barulho, perguntei à garota que me acompanhava o que deveria ser aquilo. "Arrebatamento não é, pois ainda estou aqui!". E me deu um belo sorriso. Sorri de volta.

Hoje, ao navegar por alguns sites e blogs, encontro esta página: Você foi Deixado para Trás. Está em inglês. O seguinte trecho (onde fiz alguns destaques) está na parte em que explicam a razão (Why) de se usar os serviços do site:

"Todos nós temos familiares e amigos que falharam em receber as Boas Novas do Evangelho.

Todos aqueles que não foram salvos serão deixados para trás na Terra e passarão pelo "período da tribulação" após o Arrebatamento. Você se lembra como, por um breve período, após 11/9/01, as pessoas ficaram mais abertas para questões espirituais (...). Imagine como ficarão chocados diante dos milhões de Cristãos desaparecidos e da devastação do Arrebatamento. Eles saberão que era verdade e desperdiçaram a chance de salvação. Haverá uma pequena janela de tempo por onde eles poderão alcançar o Reino de Deus. Nós tornamos possível a você enviar uma carta de amor a eles e um apelo para aceitarem Cristo uma última vez. Você também poderá dar a eles algum auxílio para atravessar o período que lhes resta. Na parte encriptada de sua conta você pode dar a eles acesso a sua conta bancária, objetos de valor escondidos, procurações (você não precisará mais disso, e o presente enfatizará a mensagem de amor). Como não haverá cadáveres, os tribunais levarão 7 anos para entregar os seus bens aos seus parentes. 7 anos, obviamente, é todo o tempo que resta. Então, basicamente o Governo do Anticristo terá posse de seus bens, a menos que vocês os torne disponíveis de outra maneira. Você também pode mandar informações baseadas nas escrituras sobre o que acontecerá a seguir."

O serviço é basicamente armazenar 250 MB de documentos (incluindos senhas de contas bancárias) que serão enviados via e-mail para todos os entes queridos que foram deixados para trás, como é explicado na parte de 'serviços':

"Nós desenvolvemos um sistema para enviar documentos através de e-mail, para os endereços que você designou, 6 dias após o Arrebatamento. Isto acontecerá quando 3 dos nossos 5 administradores espalhados pelos Estados Unidos não logarem durante um período de 3 dias. Outros 3 dias serão aguardados para evitar que qualquer alarme falso ative o sistema."

Supõe-se que os 3 administradores deixarão de logar após o Arrebatamento porque, afinal, eles também foram arrebatados. Uma maneira prática e até barata de garantir a eficiência do site. Entretanto, barato não quer dizer de graça:

"O custo é de 40 dólares no primeiro ano. A taxa da re-inscrição será reduzida conforme o número de inscritos no site aumentar. Diga aos seus amigos sobre Você foi Deixado Para Trás".

Desta vez não há imponentes clamores ou belas garotas. Mas continuo com o meu sorriso. Mesmo não sendo o mesmo, ele não ficou para trás.


Influenciado

Não foi difícil entender: apenas quem ajudasse na programação à noite poderia ganhar a camisa e a bolsa do evento. Era a regra. A procura veio no dia seguinte: gente querendo ou até exigindo a camisa. Virou um bordão, "só quem ajudou no dia é que pode ganhar a camisa". A solidariedade se fez: motoristas, auxiliares, assessores, secretários e até o pessoal responsável pelo tombamento do patrimônio público disseram que ajudaram, de uma forma ou de outra.

Não entendia o motivo. A camisa deveria ser para identificar quem estava na organização do evento. Também servia como brinde, mas somente para algumas figuras de maior destaque. Apenas isso. Não deveria justificar abordagens na portaria às 07h45 perguntando se eu tinha sobras ou dois operários dispostos a interromper uma reunião de diretoria (pelo menos eles convenceram, dizendo que o trabalho nas obras desgastava muito o tecido da camisa e, por isso, nunca dispensavam qualquer peça grátis).

Nos dias posteriores muita gente usou a roupa. Devem fazer isso por uma semana, até enjoarem ou sentirem calor demais. Gosto da cor preta, mas não me interessei em usá-la com a imagem do evento. Não era feia, não era interessante. Talvez uma forma de identidade pessoal, talvez a idéia de que não se deve dispensar nada de graça (é uma camisa, não nossa juventude). Podia ser uma das justificativas para a procura. Orgulho ou gosto pelo tema não era. Pensei também que poderia ser uma prova concreta da participação no evento. Mas é uma razão prejudicada pelo número de pessoas que receberam a camisa e mal pisaram na recepção na noite de cerimônia.

Estou dando atenção demais a um caso sem importância. Diferença signicativa para quem, na noite do evento, foi ao cinema e que, na tarde do mesmo dia, pouco antes de ir pra casa, ouviu alguém com acesso às camisas perguntar se eu não queria uma. Respondi que não iria ao evento. Uma palavras no ar, levantei os olhos acima do monitor e vi a bolsa voando para a minha mesa. Quando caiu, uma parte do tecido preto envolto no plástico ficou à mostra. Disse "Ok" e guardei na minha pasta. Em casa, pendurei a bolsa com a camisa na ponta da cama. Não toquei mais, mal olhei de novo e provavelmente não pensaria mais nela, se não fosse tanta gente querendo uma igual, atribuindo uma importância maior do que o fato, mas à qual agradeço por servir de assunto ao último post do mês.

Conservador

Conservador, rancoroso, intransigente, pessimista, secamente frio e avalanche emocional. Não entendi o conservador. O resto admito, em grau maior ou menor de concordância. Alívio por ainda não me chamarem de hipócrita: procuro fugir dessa linha, conforme a medida humana permite. E aí vejo a notícia sobre a nova ofensiva da igreja católica contra o aborto (ainda não li na íntegra). É uma deixa.

Conservadorismo I


Evidentemente, o tema do aborto é polêmico. Há a questão em definir exatamente quando começa a vida, se na fecundação, se no desenvolvimento cerebral, se a partir do momento onde o feto provavelmente passar a ter consciência... Há também casos de gravidez por estupro, anencefalia e presença de riscos de saúde para a mulher. Essa última parte envolve a conscientização da mulher em não tratar o aborto como "correção" para falha anticoncepcional, derrubar o pensamento de que se não deu pra evitar a concepção, pelo menos dá pra impedir o nascimento. Não é sempre caso de imaturidade, também pode ser desespero social e emocional. Enfim, debates e argumentos não faltam.

Contudo, se a igreja aceitasse debates sobre suas doutrinas, seria um contra-senso. Ser contra o aborto por acreditar no direito à vida (que, segundo o catolicismo, começa na fecundação do óvulo) é um fato. Ser contra o uso de métodos anticoncepcionais usando o mesmo argumento é algo diferente. Por mais óbvio que seja o raciocínio, sempre surpreende quando o vejo por escrito: a igreja católica proíbe o uso de camisinhas e outros métodos anticoncepcionias; mas sem o uso destes, há grandes riscos de gravidez indesejada e contração de DST's. Como fica? Simples, pratique a castidade. Não faça sexo até se casar. Mesmo que as condições do Brasil não sejam muito favoráveis, arranje boas economias para sustentar um casamento e um filho. Somente aí entregue-se ao prazer.

Estranhamente, tomaram-me por esclarecido em algumas discussões sobre este assunto e fizeram perguntas complicadas, desde como o sexo pode afastar de Deus (resposta: não sei) até o limite (?!) virgindade pré-nupcial (resposta: risos). Quis muito dizer de uma vez minha opinião "esclarecida", mas achei melhor indicar a leitura da bíblia e de pesquisas sobre as doutrinas da igreja católica, entre elas o
celibato e a virgindade, para cada um formar uma opinião. As críticas não precisei indicar, elas pulavam toda semana nos jornais, de escândalos de pedofilia a casos de gravidez indesejada entre religiosos fervorosos.

Na medida humana, ainda penso no conservador que me disseram.
Conservadorismo II

Os
novos pecados capitais da igreja católica agora possuem uma dimensão social. Não se restringem mais à intimidade da luxúria ou a avalanche emocional da ira, por exemplo. O número de confissões diminuiu e o Vaticano concluiu que o sentimento do pecado está perdendo o seu valor. Se entendi bem, parece que católicos não sentem mais tanto remorso a ponto de irem à igreja e saber qual é a penitência.

Experimentos com células-tronco, poluição de meio ambiente, riqueza excessiva, injustiça social, causar pobreza e o uso de drogas são pecados e os católicos devem pedir perdão por eles.

A parte que mais me chamou a atenção (e acho que de muitos também) foi sobre riqueza excessiva. Haverá agora um limite para as doações do dízimo? O Vaticano se desfará de parte de seus bens materiais? A resposta surge implicitamente na seriedade da seguinte declaração do monsenhor Gianfranco Girotti:
"Confissão em 15 ou máximo 20 dias antes ou depois de cometer o pecado, comunhão, oração segundo as intenções do papa, pureza e caridade"

Não costumo confessar meus pecados depois de cometidos, imagina confessar antes de realizá-los. Nem sei como se faz isso. Mas gostaria de saber. Estaria antecipando o futuro e, dessa forma, quem sabe eu descobriria até onde o declínio católico vai fazer rir.

Ainda não entendi o conservador que me disseram. Mas já aceito minha penitência.

Pequeno

"Fiquem com Deus". Todos se levantavam e caminhavam em direção à saída. Minha parceira estava do outro lado da igreja, exalando perspicácia, observando quem estaria mais receptivo a uma aproximação. Era o que me parecia e, naquele momento, era o que me incentivava. Uma noite triste e cansativa como aquela representava um esforço maior em procurar histórias de milagres para um projeto de comercial. Eu estava encostado na coluna, cabeça baixa, caneta girando entre os dedos, esperando a multidão se dispersar. Observava as pessoas, mesmo dando mais atenção às minhas tolas indagações ao comparar "fiquem com Deus" e "saiam da igreja". Noite de missa.

Sempre sobravam algumas pessoas sentadas. Nossas melhores tentativas. Os dois circulando os bancos, esperando a oração acabar, reparando no recato das roupas, na velocidade dos múrmurios, na força no aperto das mãos, no suspirar antes de abrir os olhos. Algumas vezes comparei o nosso trabalho à um ritual de caça. O momento do ataque era o desvio do olhar do altar para os lados, se situando do ambiente antes de sair. Então chegávamos com educação, respeito, sondagem, pedidos, perguntas e anotações.

Entre aprovações no vestibular e curas milagrosas de doenças, não era muito difícil perceber quem era fiel de todas as ocasiões e quem era devoto social em desespero. Muito bonito de se ver uma expressão genuína de fé, às vezes desconcertante, principalmente para pessoas que complicam tudo ao tentar se concentrar nas perguntas. Ao casos que não rendiam, seja pela gravidade da situação ou pela superficialidade na postura, restavam linhas e esquecimento. Ouro de tolo.

Igreja quase vazia, reparei na mulher sentada perto da última fila dos bancos. Fui para o corredor lateral. Se notasse minha aproximação, ela poderia aumentar a resistência às minhas perguntas antes mesmo de eu dizer qualquer palavra. Antes de passar pela última coluna, notei que estava de olhos abertos, cabisbaixa, mãos cruzadas sobre o colo. Devia ter um pouco mais de 30 anos. Uma única presilha segurando os cabelos compridos. Percebeu minha aproximação e levantou os olhos. Parei.

Cansaço. Tristeza. Controle. Persistência. Vulnerabilidade. Esperança. Talvez tenha sido esta última leitura em seus olhos que me fez olhar para o altar e depois me virar novamente para ela, antes mesmo de perceber tal gesto. Senti-me um pouco envergonhado. Já estava ali, fui em frente, talvez por instinto, mas totalmente desarmado. Respondeu que era devota. Não consegui pensar mais: perguntei se ela estava interessada em compartilhar sua história. Sorriu levemente e disse que não, numa mistura de reserva e cortesia que quase me fez pedir desculpas. No início do corredor, ainda pude vê-la abaixar mais uma vez a cabeça, mantendo o mesmo olhar.

Entre sorrisos, lágrimas, declarações de fé e gestos de devoção, o maior impacto veio de um olhar. Já pensei que eu devia estar excepcionalmente cansado ou confuso, imaginei coisas. Mas ainda penso nisso quando vejo que certas atitudes e sentimentos estão além do nosso alcance de compreensão, ainda que não escape da nossa percepção. E é essa imagem que às vezes me ilustra a mente quando penso na idéia de que quanto maior o poder interno, menor o esforço para expressá-lo. Mesmo que não seja consciente, mesmo que não seja reconfortante.

Trogdor

Sempre considerei o Congresso Nacional um lugar elegante. As duas conchas, a linha vertical no meio, a aparente simplicidade da construção combinando com a vastidão da Praça dos Três Poderes, tudo agradou minha visão. Encaixou no meu gosto, da mesma forma que o Museu de Arte Contemporânea, em Niterói. Disco voador atraente, belo. Claro que o cenário da praia da Boa Viagem e o Pão de Acúcar ao fundo ajudam a iluminar os olhos. O museu, contudo, é inegavelmente bonito. Não consigo dizer o mesmo do Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. Posso opinar apenas sobre o lado exterior, já que estava fechado no dia. As fotos internas mostram um lugar vasto e belo, deve ser mesmo. Mas o formato de olho do lado de fora me despertou mais curiosidade do que admiração. Até me lembrou outras formas, além do olho humano, o que me fez pensar se Niemeyer ainda é um grande piadista. Já tive essa impressão quando soube o que era o Memorial da Cabanagem, em Belém. Sim, não deixa de ser uma homenagem ao movimento cabano, cuja importância histórica no Brasil nem merece ser colocada em questão. Mas a construção em si...

Lembra um gráfico. Feio. E com o ambiente do bairro do Entroncamento, ficou mais feio ainda. Não bastasse a própria figura, ainda ficou sujo e abandonado durante anos pelo governo e pelo povo. Não há uma placa informando o que é aquilo e o que representa. Quando li a explicação do Niemeyer para o projeto, supus que era tão simples que não pude entender (e me achei muito estúpido). Depois de reler, achei graça:

"... uma inclinação acentuada apontando para um ponto sem fim, representando a história. Terá no meio, uma ‘fratura’. Um pedaço do monumento que jaz no chão, representando a ruptura do processo revolucionário da cabanagem, a sua derrocada. Mas como a cabanagem continua viva na memória do povo paraense, o bloco continuará subindo para o infinito..."

Nunca me soou um esforço de criatividade. E nem falo do fato dele não ter cobrado pelo projeto. Só me pareceu que não teve muita atenção como merecia. Talvez implicância minha. Mas depois de ler no ano passado que ele não se lembrava do tal monumento em Belém, talvez não seja mera implicância. Reconheço que se lembrar de todos os grandes projetos aos 100 anos é querer muito. Mas também sei que, na mesma entrevista, ele demonstrou muita lucidez, citando detalhes de criações passadas, projetos futuros e governos atuais ("Bush é uma merda!").

Por isso, ao ver a escultura de aço inaugurada em Havana ontem, pensei de novo que Niemeyer fez algo nas coxas. Ele é uma das maiores mentes da arquitetura mundial, é comunista e é amigo de Fidel, justificando plenamente as comemorações de Cuba com a imagem metálica do cubano erguendo a bandeira natal "na defesa da soberania contra o monstro imperialista". Vendo a imagem da escultura e lendo o texto, mais uma vez achei graça. Lembrei de um vídeo que assisti, uma montagem de desenhos infantis com a música Trogdor ao fundo.

Não é qualquer coisa extraída da mente de um gênio que pode ser reconhecida como obra-prima. Se Niemeyer sabe disso, não sei. Pode ter sido piada, pode ter sido sério. Ou, simplesmente, pode ser alguma satisfação, na sua poltrona e fumando seu charuto, em ver a repercussão que ainda gera, desde gritos de "Viva el comandante!" até berros de "Trogdooooooor!".

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