Interferência (fase de testes)

Um novo primeiro lugar

Apesar de acreditar no filme desde as primeiras notícias sobre ele, não imaginava a bilheteria de Avatar superando a de Titanic, especialmente em tão pouco tempo. Ainda não vendeu mais ingressos, mas o preço destes subiu desde 1997, seguindo a inflação e o custo de novas tecnologias como o 3D e as telas IMAX. O resultado é claro: apenas James Cameron superou James Cameron. Expectativa aliada à qualidade da obra, mesmo estando muito, muito longe da perfeição. Ainda acho O Exterminador do Futuro 2 seu melhor filme, mas, pessoalmente, fico feliz de ter contribuído com a arrecadação das dez maiores bilheterias da história do cinema. Até mesmo com Titanic e o primeiro filme da série Harry Potter, dois trabalhos que me desagradaram quando deixei a sala de exibição.

Fui ver Titanic meses após a sua estreia. Muitas adolescentes já carregavam revistas e fotos do Leonardo DiCaprio. A música tema cantada pela Celine Dion tocava sem parar nas rádios. Já conhecia o bordão "eu sou o rei do mundo" mesmo antes de saber o contexto onde ele era proferido. Resisti, mas acabei topando ir ao cinema. Setenta minutos sozinho numa fila cheia de casais para comprar o ingresso, mais quinze para poder entrar na sala, muito abafada mesmo com o ar condicionado. Antes das luzes apagarem, escutei duas moças dizerem que era a terceira vez que assistiam ao filme. Durante a exibição, um e outro grito de "lindo" quando o protagonista aparecia em cena. Perto do fim, lágrimas e mais lágrimas. A única vez que vi mais gente chorando no cinema foi ao assistir A Paixão de Cristo. Quando voltei para casa, debaixo de chuva, me sentia um idiota. Já a sessão de Harry Potter foi muito mais tranquila. Não me arrependo, mas até hoje implico com o filme.

Passei um bom tempo me opondo a Titanic. Mas anos depois, assistindo em casa, achei o filme melhor. Reparei com mais atenção nos cenários, nos movimentos de câmeras e continuei achando impressionante a sequência do naufrágio. Fiquei em paz com aquele ingresso que me custou tanto esforço e ajudou a bilheteria a constar no Guiness Book. Mas sempre torci para que um filme que eu considerasse superior tomasse o primeiro lugar. Acompanhava toda semana, por exemplo, a arrecadação de O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, mas ele não conseguiu ultrapassar Titanic. Por isso, quando soube do sucesso avassalador de Avatar, fiquei feliz não só por ele ser um trabalho superior, mas por eu ter ido ao cinema mais de uma vez assistir. E talvez vá de novo, se deixar a empolgação falar mais alto. Fico imaginando se, anos depois, verei o filme e meu gosto por ele mudará, pra melhor ou pior, dependendo das minhas experiências até lá. E se ainda virá uma obra cinematográfica que possa rivalizar com Avatar e eu a considere melhor para que eu possa torcer mais uma vez por qualidade e quantidade.

Atuações e intenções

Marco Ricca, diretor do filme Cabeça a Prêmio (inspirado no livro de Marçal Aquino, que comentei brevemente há mais de um ano), disse em um encontro com público e crítica que não quis se prender muito à obra original, pois um filme por si só já é algo bastante diferente. Disse também que fez questão de trabalhar com atores famosos. Ele vê um preconceito contra artistas conhecidos na televisão, onde o público ou vê a fama inversamente proporcional ao talento ou se recusa a acreditar em papéis fora do estigma estabelecido no imaginário do telespectador (Tony Ramos, por exemplo, tentou fazer um papel de vilão e não deu muito certo). Como adaptação cinematográfica é um assunto recorrente (e até enjoativo) por aqui, melhor se concentrar na outra parte do discurso: a fama alcançada na televisão e que, às vezes, acaba engessando os atores.

O diretor disse que queria dar tempo aos atores, deixá-los respirar em cena, planos sem pressa. Decisão muito natural,  lembrando que Ricca tem formação como ator e é sua estreia na direção. E ele sabe que, para trabalhar com as sutilezas na expressividade de um ator, o melhor campo é o Cinema. Sim, Teatro exige imensa dedicação do intérprete e geralmente é a base dos atores mais talentosos, mas, devido à distância física do palco e à perspectiva única de visão que tem o público, é preciso se apoiar muito nos gestos e na linguagem corporal para o desenvolvimento da atuação. Já a TV precisa ter um ritmo rápido e popular para não ficar atrás das emissoras concorrentes, então não há espaço para longos planos e para o silêncio. E era justamente nisso que Ricca queria trabalhar ao lado dos atores escolhidos. Por exemplo, Eduardo Moscovis entrou em contato com Ricca e pediu um papel no filme. Não foi aceito de imediato, mas acabou entrando. Conforme as gravações corriam, decidiram que o personagem seria cada vez mais silencioso. E Moscovis fez um trabalho surpreendente ao mostrar seu assassino geralmente calado, mostrando apenas suas linhas de expressão (também é preciso abandonar a vaidade) e seu olhar de dúvida, raiva, tristeza ou cansaço. Um trabalho que dificilmente teria espaço na TV aberta, principalmente em telenovelas. Como disse o roteirista João Emanuel Carneiro: "Você escreve uma cena em que o personagem tem que dizer 'Eu te amo'. Existem mil maneiras de dizer 'eu te amo' sem ser tão evidente, sem sublinhar tanto a frase (...). No cinema, há outros recursos para transmitir o clima, as intenções. Na TV, as intenções precisam estar presentes no texto".

Claro que não se trata de um ataque contra a televisão, nem de dizer que boas atuações só existem no cinema ou teatro. Glória Pires, Patrícia Pillar, Cláudia Abreu, Tony Ramos, Luis Mello, entre outros atores mais conhecidos pela TV, oferecem ótimas interpretações. Mas gente que veio do teatro ou do cinema (ou que migra da TV para estes meios) parece ter mais chance de ser versátil e, consequentemente, apresentar trabalhos mais intensos. Dira Paes, Alice Braga, Wagner Moura, Lázaro Ramos, Caio Blat, João Miguel, entre tantos outros. Por isso, foi bom ver Marco Ricca investir nas possibilidades que o cinema oferece à interpretação, ainda que Cabeça a Prêmio apresente alguns problemas, principalmente na sua estrutura. Mas, como foi dito antes, melhor deixar pra lá mais comentários sobre o filme e terminar lembrando como é bom ver uma boa atuação, seja em TV, Teatro ou Cinema.

Moda ou moral

Se Eu Fosse Você 2 conseguiu a quinta maior renda do cinema no Brasil, apesar da pirataria, alto custo dos ingressos e outros fatores de crise. Anticristo chocou muita gente (com razão) e causou intensa polêmica com cenas de violência explícita e seu discurso sobre as mulheres. Atividade Paranormal, filme de baixíssimo custo, conseguiu seu sucesso apoiado em campanha de marketing pela internet e num boca-a-boca entre os espectadores sobre o terror do filme (exatamente como A Bruxa de Blair fez uma década atrás). Avatar, provavelmente o filme mais caro já feito até hoje, trouxe revoluções tecnológicas em seus efeitos visuais e definiu um novo parâmetro para o uso do cinema 3D. E é mesmo um filme muito bom. Mas, de todas estas "comoções" e burburinhos provocados por filmes lançados este ano, o sucesso de Lua Nova tem maior destaque porque, definitivamente, ele vai muito além das qualidades do filme ou da eficiência da campanha de marketing.

Para variar, é a adaptação de um livro: o segundo volume da série literária Crepúsculo, best-seller e sucesso entre o público adolescente. Conta a história do amor entre uma jovem e um vampiro. Ele, apesar de existir há mais de um século, ainda frequenta a escola e se dedica integralmente à namorada, mesmo que ela seja décadas mais nova e inexperiente. Ela, fascinada com um vampiro que não bebe sangue humano e ainda brilha como diamante sob a luz do sol, quer largar tudo para ficar com ele (valores do feminismo são algo muito, muito distante). Sim, impossível não ser terreno fértil de escárnio com uma trama assim. Mas funcionou porque simplesmente apresentou uma nova roupagem do amor romântico, puro e idealizado para adolescentes. Tão puro que é uma metáfora para a castidade, como se o sexo fosse um passo para trás na afirmação honesta dos sentimentos.  Para uma geração cada vez mais precoce, amparada na liberdade audiovisual da internet, acostumada a aproveitar a efemeridade de seus gostos, ainda impressiona ver como os jovens tratam o romantismo não como estratégia de sedução,  mas como valor de relacionamento. Não somente os jovens, claro. Mas, de uma forma ou de outra, os mais experientes sabem que não é bem assim, embora não signifique que tudo sempre acabará como um conto de A Vida Como Ela É.

Mas também é preciso levar em conta as crenças de eternidade comuns a adolescentes. Amigos para sempre e afins. Por que seria diferente no namoro? Inúmeras fotos e declarações em sites de relacionamento, alianças de compromisso, contato direto por celular, planos e mais planos, etc. Para muitos, é apenas um comportamento típico da idade. Para outros, é um traço para a vida toda. Alguns concluem que companheirismo e fidelidade são fases, outros determinam que sejam valores morais em qualquer relacionamento. E há aqueles que ainda não entenderam direito o que pensar... Talvez o romantismo seja mesmo inerente ao ser humano, nem que seja apenas um resultado das reações químicas que ocorrem no cérebro ao se deparar com a possibilidade, mesmo ainda distante, de acasalamento, reprodução e continuidade da espécie. De fato, mesmo com todas as rusgas e injúrias existentes (e até mesmo por causa delas), é bom ter alguém que simplesmente faz bem e causa a vontade de ser uma pessoa melhor para ela e para si próprio. Talvez por isso (ou por nada disso, quem garante...), o amor romântico persiste. Seja em Camões ou em Crespúsculo, seja como moral ou moda.

Interferência III

Três anos deste blog. Sinto-me bem com a data. Não é caso para comemoração, mas concordo com o Crápula Mor: não é bom deixar passar em branco. Questionava muito a razão de continuar escrevendo e ainda tenho minhas dúvidas. Mas já não pergunto tanto. Na verdade, pergunto bem menos, talvez por encarar muitas respostas. Registro de momentos e ideias. Opiniões sobre eventos. Passatempo. Terapia. Exercício estilístico. Necessidade de exteriorizar certos conhecimentos. Influência de bons textos lidos. Até representação de uma vaidade oculta, mesmo sendo improvável . Todos estes elementos combinados. Mais de uns, menos de outros, todos apontando para uma resposta óbvia: a satisfação em escrever. Claro que o assunto precisa ser minimamente agradável. Sem obrigações legais nem objetivos de lucro ou fama, a única razão de estar aqui é o gosto pela coisa, de ver os comentários de leitores habituais (que merecem toda a minha gratidão) e saber que deve haver gente que acompanha sem se manifestar (a quem também agradeço). E tudo começou como brincadeira.

Mas, como disse antes, ainda questiono algumas coisas. Afinal, são três anos postando com frequência e disciplina que, se fossem aplicadas em outras áreas da minha vida, provavelmente me deixariam mais tranquilo em relação ao futuro. Deve ser terapia mesmo. Ou (falta de) senso do ridículo. De qualquer forma, procuro saber um pouco mais sobre a blogosfera na tentativa de elucidar algumas indagações. Achei textos interessantes, mesmo que não se encaixem no tipo de relação que tenho ao escrever. Um exemplo é este aqui, falando da construção de celebridades na blogosfera. Interessante a parte em que os blogueiros entrevistados dizem não se interessar exatamente pela fama virtual, mas em ser uma referência sobre o tema proposto. Excelente justificativa. Mas, para isso, é preciso antes definir o tema do blog. Criar uma identidade. Ter um estilo, tanto visual como literário. Não é meu caso. Mas reconheço ser muito bom acompanhar blogs com tais características. Outro artigo curioso é este, abordando blog confessionais. Embora algumas vezes tenha decidido falar sobre eventos corriqueiros (como foi aqui e aqui), no geral não me interessa escrever sobre o cotidiano. Se um dia vivenciar uma experiência fascinante ou ter condições de criar uma fantasia suficientemente instigante ou até mesmo desenvolver um estilo mais leve e bem-humorado ao escrever, talvez mude de ideia. Quanto ao aspecto confessional dos textos, não há como fugir. Apenas mudar o grau de sutileza, com uma exposição de caráter mais jornalístico ou descaradamente íntima.

Por que escrever sem ter a obrigação de escrever? Não sei e me incomoda cada vez menos não saber. Talvez a razão seja justamente por não ser um dever. Já ouvi muitas vezes gente reclamando de atividades prazerosas que perderam a graça por se tornarem obrigatórias (ou seja, passaram a render lucros, mas não é uma alfinetada contra o capitalismo). Deve ser mais complicado quando o rendimento vem das neuras do autor, porque ele precisa estar constantemente aflito ou então disfarçar um texto calmo naquele vômito de ansiedades que atrai tantos leitores. Talento mesmo. Mas, sem talento ou dinheiro à vista, resta o gosto em escrever. E, ao longo desses três anos, acho que isso é o que realmente importa. Falando desta forma, parece uma resposta fácil, tão fácil que chega a ser risível. Pode ser. Mas demoro a acreditar em respostas fáceis, principalmente quando partem de mim mesmo. Por isso, não é surpresa eu levar tanto tempo para constatar que escrever aqui, seja por catarse ou hobby, me faz algum bem. E melhor: ficou mais fácil.  Só espero não me acomodar, mesmo sem ainda entender direito quais são meus parâmetros. Nunca é fácil, mesmo quando não é tão complicado.

Escuridão, câmera, reação

Sendo impossível fugir da comparação de Atividade Paranormal com A Bruxa de Blair, o melhor mesmo é investir na análise das semelhanças e diferenças entre os dois trabalhos, começando pela natureza dos bastidores. A primeira e mais evidente característica é o fato de serem filmes de terror produzidos a um custo extremamente barato para os padrões de Hollywood e, apoiados em uma intensa campanha de marketing pela internet, arrecadarem uma bilheteria milhares de vezes maior que seus valores de custo. A segunda semelhança é a utilização de uma câmera digital, de uso doméstico, registrando momentos cotidianos e, com isso, inspirar realismo à trama e justificar o baixo orçamento do filme. A terceira característica em comum também reflete os valores modestos das produções: a contratação de atores desconhecidos atuando praticamente em um único cenário, reforçando ainda mais os contornos realistas das filmagens, supostamente encontradas após os eventos mostrados na tela.

Quanto ao enredo, há também algumas analogias. Em ambos os filmes, é possível ver os personagens inicialmente em momentos descontraídos até desabarem de tensão com os perigos do ambiente. Mas, ao contrário de filmes neo verité como [REC] e Cloverfield, onde as pessoas subitamente se deparam com uma ameaça a ser registrada pela câmera, os personagens de A Bruxa de Blair e Atividade Paranormal inicialmente demonstram curiosidade e interesse pelo mal em questão e procuram saber mais sobre ele. Mesmo alertados por coadjuvantes para não provocarem a tal entidade maligna, eles, por curiosidade ou desrespeito, insistem em pesquisar e querem tudo registrado nas câmeras. Nos dois filmes também é possível ver ocorrências inexplicáveis que gradualmente vão adquirindo contornos sobrenaturais até se configurarem como ameaças físicas e reais. Pequenas esculturas de madeiras em A Bruxa de Blair ou um objeto fora de lugar em Atividade Paranormal são eventos sem importância na hora que surgem, mas agem como prenúncios de aflições cada vez maiores, provocadas por um ser que nunca é mostrado, apenas insinuado.

Aliás, este é o mérito de ambos os filmes. Mostrando seus protagonistas como pessoas curiosas, depois hesitantes e, por fim, desesperadas com as hostilidades sofridas, as duas obras investem em um estado de tensão cada vez maior à medida que os personagens começam a discutir entre si (embora nunca deixem de filmar) e não conseguem entender a natureza da ameaça que os cerca, ainda que ela esteja cada vez mais perigosa. Durante o dia, é possível ver como estão cansados, confusos e com medo da noite. E justamente durante a noite os filmes entregam os momentos mais assustadores, pois é quando as entidades antagonistas costumam agir: quando os personagens mais vulneráveis, estejam acampados em uma barraca ou dormindo na cama. E os espectadores estão acompanhando todos os momentos, também ignorando o que pode acontecer ou a razão do que pode acontecer, mas sabendo desde o início que a tendência é piorar.

Mas também há diferenças importantes entre os dois filmes. Como foi lembrado em um texto anterior, A Bruxa de Blair foi pioneiro no uso da internet para estratégia de marketing, além de investir fortemente na divulgação de que se tratava de acontecimentos verídicos. Por isso, além da internet, também foi importante o boca-a-boca daqueles que assistiam ao filme e comentavam o terror que os estudantes atravessaram antes de desaparecerem naquela floresta. Já Atividade Paranormal, em tempos de internet banda larga, dominada por Google e YouTube, apadrinhado por Steven Spielberg e, principalmente, lançado numa época pós-A Bruxa de Blair e outros filmes de estilos semelhantes, soube exatamente como ser promovido. Não é à toa que, em todas as matérias sobre o filme, sempre é comparado ao filme de 1999. Mais dados podem ser vistos aqui.

Além do uso mais consciente do marketing pela internet, há também diferenças fundamentais no próprio roteiro dos dois filmes. Embora ambos tratem de pessoas comuns munidas de uma câmera enfrentando uma adversidade que não compreendem, num clima de tensão e nervosismo cada vez maior, o tratamento dado aos personagens difere consideravelmente de um filme para o outro. Em A Bruxa de Blair, são três estudantes de cinema que são colegas, mas não exatamente melhores amigos, perdidos em uma floresta da qual não conseguem sair. Exaustos e com fome, não demora para que comecem a brigar entre si, embora se agarrem uns aos outros por saberem que não há mais ninguém por perto. Já Atividade Paranormal apresenta um casal de namorados bastante unido, morando em uma confortável casa, recebendo a visita de amigos. Ou seja, enquanto A Bruxa de Blair também angustiava por mostrar personagens de personalidades diferentes entrando em conflito e isolados em uma floresta, Atividade Paranormal não consegue obter o mesmo efeito de divergência e claustrofobia  simplesmente porque fica evidente que os seus protagonistas já tem uma dinâmica estabelecida e podem pedir ajuda a qualquer momento. Mesmo que em determinado momento alguém diga ao casal que sair da casa não resolveria o problema, é de se supor que, diante de evidências cada vez mais fortes de perigo, o instinto básico é abandonar o lugar e pedir ajudar para alguém confiável.

Outro detalhe é o uso da câmera. Em A Bruxa de Blair, fica claro que a estudante de cinema insiste em gravar todos os momentos como uma maneira de se manter tranquila, de não se entregar ao desespero, como se olhar através da lente fosse uma prova de que toda aquela situação é uma ficção que acabará em algum momento. Aliás, é justamente por este motivo que, em determinada cena, a estudante é filmada por um revoltado colega, que profere um humilhante discurso enquanto manuseia o equipamento para não perder nenhuma lágrima da jovem. O rapaz de Atividade Paranormal, por sua vez, demonstra um interesse quase infantil pela câmera, apesar da namorada reprovar fortemente a ideia (o que não a impede dela mesma filmar quando o namorado está ocupado com outras coisas referentes às atividades paranormais).  A câmera acaba se tornando um personagem próprio, já que, ao contrário do que aconteceu com os estudantes na floresta, ela registra momentos que os personagens não presenciam. A câmera passa a ser o olhar apenas do espectador. Talvez seja este o motivo de constatar que A Bruxa de Blair é mais eficiente na construção do clima de terror e tensão ao longo da narrativa, enquanto Atividade Paranormal se sai melhor com o medo provocado em determinados momentos: a importância de manter um equilíbrio entre o que os espectadores e os personagens do filme conseguem visualizar ao mesmo tempo e o que apenas um dos lados enxerga de fato. O poder de insinuar, de sugerir, de nunca mostrar explicitamente é a base de um temor humano básico: o medo daquilo que não se compreende, apenas o bastante para saber (ou imaginar) que ele tem a intenção de fazer mal.

Marca do desconhecido

"Muito, muito difícil. (...) Os estúdios precisam de uma marca que já tenha valor agregado, porque isso tem de alcançar uma plateia imensa para ter algum retorno. É corajoso por parte do estúdio bancar um filme como Avatar, mas, por outro lado, se der certo, a recompensa também é gigante. (...) As pessoas sabem demais antes de entrar no cinema".

James Cameron em entrevista publicada na revista SET, edição de setembro de 2009, respondendo como é chegar com uma ideia original para o cinema, sem reconhecimento prévio de marca. Durante a entrevista, ele se refere especificamente às adaptações de quadrinhos, atualmente o filão mais lucrativo para Hollywood. E Cameron foi certeiro: não se trata apenas de buscar as ideias de outras mídias, mas de aproveitar o valor da marca. E isso vem desde o início das projeções cinematográficas (como em Viagem à Lua, dirigido por George Méliès em 1902, influenciado pelo livro de Julio Verne). Olhando numa lista como esta ou esta, por exemplo, percebe-se a presença de remakes (Hora do Pesadelo, Fúria de Titãs, O Lobisomen) e sequências (Toy Story 3, o próximo Harry Potter, mais um Shrek, etc). Mas claro que as adaptações de quadrinhos estão lá também, de Homem de Ferro 2 a Kick-Ass. A importância do reconhecimento da marca antes da sessão fica mais evidente nesta lista, mostrando que, dos 30 filmes mais lucrativos da década, apenas dois não são baseados em obras anteriores (remake ou sequência) ou adaptações de um produto já estabelecido. 

Não há nada de errado em buscar inspirações em outras áreas além do cinema, principalmente porque excelentes filmes surgiram assim. É a força da imagem.  Claro que existem os riscos de fugir da essência da obra original. Mas a sensação de total desconhecimento do filme ao entrar na sala de cinema merece uma chance, o que é muito difícil em tempos de adaptações e internet. E este é mais um motivo de expectativa em torno de Avatar, além dos que já foram citados em um texto anterior. O ineditismo da obra. E em grandes proporções. Tentar ser original é sempre louvável. Principalmente vindo de alguém que não precisa se arriscar, como é o caso de James Cameron, diretor do filme de maior bilheteria da história do Cinema. Mesmo que Avatar fique abaixo do esperado, vale reconhecer o esforço. É uma pena que sempre é preciso um nome de peso para fazer um projeto original ir pra frente, como fez Peter Jackson ao produzir Distrito 9. Mas é a lógica de qualquer empreendimento capitalista. Faltar ideias é pior que faltar dinheiro. Mesmo que o preço seja se surpreender cada vez menos no cinema, já que fora da sala a vida sempre garante algumas surpresas, agradáveis ou não.

Baseado em...

Quando vi O Falcão Maltês pela primeira vez (foi lançado no Brasil com o título de Relíquia Macabra), gostei muito e só aumentou mais a vontade de ler o livro. Após descobrir um exemplar num sebo, revi o filme. Mesmo ciente das diferenças entre as duas linguagens, entre palavras e imagens, do beco sem saída ao comparar as lacunas para a imaginação da literatura com as novas dimensões propostas pelo cinema, senti mais reserva em relação ao filme. Uma reação natural, não se pode ficar indiferente diante do contentamento provocado por uma obra.  Haverá comparações. É uma resposta saudável, principalmente se as versões audiovisuais estimularem a procura pelas obras originais, como foi o caso das séries de TV Hilda Furacão e Os Maias. O resultado não é apenas a possibilidade de comparação, mas um enriquecimento cultural válido independentemente da qualidade de livro ou filme.

Ainda que as adaptações sejam formuladas para um público padrão para aumentar as chances de lucro, roteiristas e diretores não deixam de fazer uma leitura pessoal da obra original e transmitem isso no resultado final. O roteirista da versão cinematográfica de 2002 de O Conde de Monte Cristo disse que sempre achou que Edmond deveria ser o pai do filho de Mercedes. Pode ser clichê, mas era a opinião dele. Até em adaptações que buscam extrema fidelidade ao texto original apresentam toques próprios do diretor/roteirista. A versão cinematográfica de 1996 da peça Hamlet, dirigida por Kenneth Branagh, é conhecida por ser o primeiro filme a usar o texto de Shakespeare na íntegra (por isso as quatro horas de duração do longa), mas apresenta cenas somente descritas mas não interpretadas na peça original (como a infância de Hamlet ao lado de Yorick, cujo crânio é motivo do mónologo sobre a morte proferido pelo príncipe) ou apenas implícitas no texto da peça, como a relação sexual de Hamlet e Ofélia.

Ter consciência destes fatores e escolhas pode ajudar a apreciar um filme, mas o melhor mesmo é ainda lembrar que cinema e literatura são campos diferentes. Como Alan Moore disse em entrevista para a Trip, "a coisa ruim das adaptações feitas a partir de literatura, por exemplo, é que elas inevitavelmente perdem a voz do autor, o jeito que ele usa as palavras", o que não implica em repudiar qualquer adaptação, mas vê-las como são em primeiro lugar: como filmes, antes de serem baseados em qualquer outra mídia. O Silêncio dos Inocentes, Cidade de Deus, a trilogia O Senhor dos Anéis, Onde Os Fracos Não Têm Vez, Perfume - A História de um Assassino e Filhos da Esperança são ótimos filmes, independentemente de serem adaptações de livros. Da mesma forma, Carandiru, Tróia, O Código da Vinci, Guerra dos Mundos (2005), A Bússola de Ouro e alguns filmes do 007 são medíocres na tela, sejam eles bons ou não como livros.

Dito isto, por que é tão comum a sensação de que o livro é melhor que o filme? Possivelmente porque as palavras estimulam imaginação, os livros não têm tanta preocupação com a faixa etária do público nem precisam ficar preso a uma média-padrão de páginas, enquanto filmes precisam prestar muita atenção a censura e se encaixar a história em duas horas. Mas a principal razão mesmo é porque são campos diferentes, perde-se a prosa, o estilo do autor que conquista o leitor. Apesar de reconhecer a diferença entre as mídias, estou tentando lembrar de filmes que possam ser mais cativantes que os livros e não lembro de nenhum, o que prova que eu preciso ainda ler mais livros e assistir a mais filmes. Já li comentários dizendo que o filme O Iluminado, de Stanley Kubrick, é melhor que o livro ou que Os Pássaros, de Hitchcock, é superior ao conto. Mas não importa muito se não se conhece a obra original ou pior: não incita curiosidade alguma sobre o tema proposto.