Resposta

"Blog é literatura?". Pergunta que me faz voltar a escrever aqui, como resposta superficial de caráter opinativo. Um motivo válido, melhor do que as minhas últimas indagações e abstrações sobre o que me fazia manter um blog, chegando ao cúmulo da postagem anterior. Desta vez tenho um bom pretexto: uma pergunta interessante, vinda de uma amiga estimada e respeitada e, de quebra, tira um pouco da ferrugem e da preguiça deste espaço. Não que essa última parte signifique grande coisa em tempos de mudanças de cidade e semestres letivos.

À primeira vista, a resposta da pergunta já está compreendida na própria apresentação do problema. "Se considerarmos o conceito de literatura como a arte de criar e recriar textos capazes de produzir efeito estético e provocar a catarse, a resposta é sim. Mas, e se consideramos a definição de Literatura do ponto de vista canônico, será que a resposta é a mesma?" Não é a mesma. Além da natural resistência dos acadêmicos da instituição (a qual  pude constatar mais de uma vez, tanto ao vivo como por relatos, começando quando fui pesquisar se quadrinhos são literatura), pode-se argumentar que os blogs não apresentam nenhuma grande novidade em relação a outros modelos literários (já li, e num livro, que o hipertexto nas postagens é uma otimização das referências bibliográficas ao final da obra), que a história deles é muito recente para se definir como literatura ou - chegando a uma etapa mais filosófica - que as várias conexões informativas presentes nos blogs estimulam a dispersão do leitor, indo contra a abstração mais profunda e centrada que uma obra literária canônica deveria ter. Não teria um poder transcendental ao ser humano. Isso levaria a uma pergunta mais abrangente: blog é uma forma de arte?

Quanto ao efeitos estético e catártico da blogosfera, não tem como não questionar como eles se configuram diante das redes sociais. Porque, mais do que estética, a catarse é a palavra-chave. E, na internet, quanto mais rápidos forem produção e retorno, tanto melhor. Como se uma declaração de amor ou uma reclamação do trânsito tivessem efeito apenas se fossem publicadas quase no instante que foram mentalmente formuladas. E no máximo em 140 caracteres. Neste sentido, os blogs se aproximam mais de um estilo literário do que o twitter ou o facebook. E não é surpresa que, embora longe de perderem sua relevância, os blogs despertam cada vez menos atenção como representações pessoais do que como espaços jornalísticos ou institucionais. É a cibercultura. Daqui a pouco vão enjoar das hashtags e partir pra outra.

Mas, considerando a estética, penso em alguns tweets, com um sorriso de resignação e inveja, que conseguiram expressar melhor meus pensamentos do que várias linhas que já escrevi. Belos aforismos do espírito. Sendo assim, twitter é literatura? E quem manda bem em 140 caracteres teria o mesmo resultado em blogs? É mais uma questão de software ou de estilo pessoal? Talvez sejam perguntas que fujam da questão principal, mas que passam pela mente ao lembrar de texto, hipertexto, link, internet, catarse, imagem, estética. E que, para uma reflexão mais aprofundada, exige mais do que consultas à wikipédia ou, num sucinto mais arcaico, da leitura da coleção Primeiros Passos.

Por isso, desejo sorte à Repórter de Sandálias na discussão sobre o tema, mesmo sabendo que ela vai depender muito mais da competência que possui, e que não é pequena. Afinal, mais do que uma graduada em Comunicação com mestrado em Letras - portanto, mais do que apta a considerar o melhor do diálogo de ambos os campos -, é alguém que demonstra atenção e sensibilidade para captar o interesse alheio naquilo que é sua motivação profissional e pessoal: o ato de escrever. 

Tanto que me incentivou a voltar aqui. Obrigado.


Cem

- Então... centésima postagem, não é isso?

- É.

- Por isso resolveu escrever como diálogo?

- Foi um dos motivos. Não sabia bem o que escrever a respeito, mas queria escrever. E, como já estava ficando de saco cheio do meu próprio texto, achei que escrever em discurso direto poderia ajudar, sem pensar tanto antes de digitar. Pode não ser uma boa saída, pode ficar ridículo, mas incentiva um pouco.

- E com quem está conversando?

- Pois é... o que dizem de um diálogo com uma só voz?

- Seria então apenas sobre você mesmo?

- Haveria outra maneira? Digo, o blog todo é sobre mim. Tentei escrever sobre assuntos variados, sendo objetivo, mas não deixa de ser minha perspectiva. Certo, não há assuntos tão variados assim, mas não há um tema específico, uma linha-chave. Nenhuma novidade até aí.

- E quais foram as últimas novidades?

- Nenhuma. De certa forma, isso me entristece um pouco, mas não é nenhuma surpresa. Percebi que escrevo mais num estado mediano, quando não estou nem muito alegre nem muito triste. Não necessariamente alegria ou tristeza, mas num ponto morno, por assim dizer. Quando nada me empolga ou desanima demais. Mas, além disso, uma hora cansa. Por isso já falei muitas vezes sobre o que leva a ter um blog pessoal, sem objetivo de lucro ou vínculo institucional. Vi algumas coisas, artigos, matérias, outros blogs, compartilhei links. E, pra variar, isso cansou também. Como já me disseram: por que ficar procurando motivo?

- E encontrou alguma resposta ou desistiu de procurar?

- Dei um tempo. Como eu disse, já li e escrevi sobre isso, principalmente quando o blog fez aniversário. Encontrei alguns motivos, mas não necessariamente uma motivação. Podia deixar pra lá, como cheguei a fazer, mas sei que uma hora vou voltar a escrever, nem que sejam velhas abobrinhas. Gosto, fico enjoado, dou um tempo, volto depois e o processo reinicia. Tudo isso sendo afetado pelo tempo disponível e estado emocional. É um círculo. Não é complicado entender.

- Falando assim, parece que já encontrou uma resposta.

- É, percebi isso agora. Já ouvi que tenho uma tendência a complicar questões que, no fundo, não são muito complexas. Minha mãe já disse isso. Até já me disseram que é por isso que não fico tão deslocado ao trabalhar com textos acadêmicos, pelo menos nas Ciências Humanas. Foi uma brincadeira, claro, mas admito que, quando lembro de alguns textos e aulas, especialmente metodologia, penso que tem um fundo de verdade. Mas e daí? Não me orgulho, mas não chega a ser uma condenação moral. Além disso, o blog é de quem? E outra coisa: vi que, justamente por essas perguntas, muitas vezes bobas, é que surgiram textos tão estimulantes, falando não somente de blogs, mas da expressão humana de maneira geral. Toda essa ansiedade é inerente e estimulante à linguagem. Confunde, pode encher o saco, mas faz parte.

- E você acha que já escreveu algum texto estimulante?

- Depende que tipo de estímulo, não é? Se for para estimular a ter um blog próprio, acho que não, até porque nunca tive essa intenção. Se for para ver ou rever alguns filmes, por exemplo, então sim, tive uma ou outra postagem que valeu. Pelo menos eu gosto de reler.

- Então você relê muita coisa do blog?

- Relia mais, principalmente nos dois primeiros anos, quando dava mais atenção ao blog. Mas geralmente não curto muito o que escrevi. Tem uns textos legais, outra parte ruim, quase constrangedora, e a maioria não fede nem cheira.

- Já apagou muitos textos?

- Não. Nenhum, para falar a verdade.

- Mas você disse que tem uma parte ruim do blog. Por que não apagou?

- Para chegar à centésima postagem... Brincadeira. Mesmo lembrando que este diálogo é o texto número 100 do blog, incluindo partes boas e ruins, eu não apaguei nada porque acho que cada postagem se encaixava no contexto que a escrevi. E isso me traz lembranças e, às vezes, ajuda a entender alguma situação atual ou recordar o caminho que fiz até ali. Isso não é muito comum, entretanto. Alguns textos eu não apaguei apenas para me lembrar de não escrever daquele jeito novamente. Aliás, essa própria conversa pode ser um exemplo disso no futuro.

- Sim, você também já falou sobre isso em outros textos do blog. Mas isso não acaba ficando previsível? Digo, é um blog de você para você mesmo. Uma hora você sabe a resposta antes da pergunta, pelo menos nas postagens de caráter mais pessoal. Se você quer um texto ruim ou uma lembrança boa, vai saber onde procurar porque já olhou ali outras vezes, não é? Uma hora isso não deixa de funcionar?

- Você acabou de mostrar a tendência de complicar as coisas. Mais um pouco e talvez até a psicanálise possa oferecer um diagnóstico dessa conversa como uma manifestação do ego e tal... Mas tem razão. Uma hora fica chato e não rende mais. Mas já li e reli, então por que apagar no final das contas? Não sei ao certo. Costumo ler outras fontes para melhorar ou no mínimo mudar as perspectivas. Mas aí veio outra questão: quanto mais eu lia, menos escrevia. Talvez seja um sintoma geral ou não. Comigo acontece. Mas o blog não fica parado por muito tempo por eu estar lendo muito. Tem a ver, mas não é a principal razão. É mais aquilo que disse antes, do círculo de enjoar e voltar. 

- E, no momento, você está enjoado ou na ativa com o blog? 

- Não sei. Há um certo conforto na indefinicão das intenções, não é? Parece um pouco quando nós somos os primeiros a nos censurar, como se a autocrítica tirasse o direito dos outros de apontar nossos erros. Mas aqui eu posso fazer isso, então não sei mesmo.

- Então o centésimo post pode ser o último?

- Improvável, mas talvez seja um dos últimos deste blog. Faz um tempo que penso em ter outro blog para assunto mais específicos. Cinema, adaptações de quadrinhos ou games, crônicas de rpg,  livros acadêmicos, sei lá, uma coisa que me fizesse ser mais objetivo.. E como isso ajudaria minha vontade ocasional de escrever, pode ser que este blog possa aos poucos ir ficando de lado. Talvez trouxesse até um benefício prático para mim, em vez de me fazer ficar matutando sobre questões pseudo-existenciais.

- Se houvesse uma outra pessoa além de você nessa conversa, o que você diria?

- Agradeceria a paciência de quem leu o blog por tanto tempo. Mas isso eu diria se houvesse outra pessoa ou não. É algo que merece ser expresso. Tirando isso, não sei. Que vale a pena escrever, nem que seja para escrever mais daquele jeito. Que os melhores textos costumar ter uma linguagem clara, mas nem sempre isso se aplica a estouros emocionais ou textos de caráter expressamente artístico. Enfim, que é sempre bom tentar melhorar. Nada de novo. Acho que, no fundo, tudo isso quer dizer que a sensação de progresso ou o sentimento de evolução valem a pena, mesmo que não se saiba qual é o topo. Mas com certeza não é o centésimo post de um blog.

Uma versão entre muitas

Quando um filme antecipa as primeiras conclusões de um espectador e a narrativa se aproveita disso, é preciso cuidado. Um recurso comum é quebrar a quarta parede e fazer piada da própria previsibilidade. Outro, menos visto, é investir no surreal ou no absurdo da história, justificando suas reviravoltas.  Bem amarrado ou não, o uso do humor, do suspense ou da provocação de uma mera curiosidade para instigar o público a entender a estranheza do que vê na tela não é tarefa fácil. Dispensar todos esses recursos e manter a capacidade de seduzir é, portanto, ainda mais agradável de se ver.

A distinção entre original e cópia e o valor de um correspondente ao detrimento da outra parecem ser o tema principal de Cópia Fiel. Bijuterias podem ser tão práticas e bonitas quantos joias verdadeiras, mas o valor de uma obra de arte genuína aumenta na medida em que surgem imitações. Então, a cópia teria uma merecimento próprio. Não somente arte material, mas abstrações e pensamentos. E quando o escritor James Miller solta que a importância de uma obra, ou melhor, uma manifestação artística é menos atribuída por sua autenticidade do que pelo olhar de quem a julga, é o primeiro vislumbre de um jogo de representação se aproximando. E se uma breve conversa entre mulheres é o seu ponto de partida, também pode ser a constatação de que o enlevo do filme já se formava desde o início tecnicamente belo e transparente da projeção, mas é sedimentado quando os protagonistas extrapolam o que se acompanhou até ali. Se a peça começou, acabou ou apenas se prolongou ao revirar os papeis (e seus atores sociais) em um desdobramento quase inverossímil, mas que não se assume como falso, é uma indagação que acompanha o jogo de cena no filme, questionando o que seria real, o que seria cópia e, por fim, se haveria uma relação de fidelidade entre eles.

O óbvio pode ser brilhante se quem o abriga tiver reconhecimento acima do trivial. Em outras palavras: dependendo de quem fala, a mesma mensagem adquire tons diferentes. E, dependendo de quem vê, assume aspectos ainda mais variados, que podem influenciar quem falou em primeiro lugar. É uma maneira reduzida de dizer que não há controle na produção de sentido na comunicação - e a Comunicação, assim como outras ciências sociais, é permeada por estudos desse tipo. O tom supostamente sério desse texto pode adquirir outro significado se for revelado que o autor tem atravessado períodos de insônia e algumas preocupações, tentando disfarçar tudo em uma escrita prolixa e enfadonha ou revelando que é tudo uma grande piada.  Mas, claro, o filme aborda sua aparente falta de controle sobre sua mensagem de uma maneira muito mais abrangente, alcançando mais que comunicólogos e artistas. Na verdade, adota uma abordagem praticamente universal: o efeitos do tempo e do amor sobre duas pessoas. É então que as diferenças entre originais e cópias artísticas perdem o espaço principal, embora não desapareçam da história.

O que se sente exatamente diante da presença de um casal belo de se ver?  E o que muda quando o casal é nosso íntimo? A provável resposta é: depende de quem vê. Jovens apaixonados têm uma visão diferente de quem vive décadas de matrimônio. E, ainda assim, fica a sugestão de que muitas pessoas têm em seu íntimo uma espécie de parâmetro sentimental, que sobrevive às experiências boas ou ruins (mas que não deixa de ser influenciado por elas). Não importa o quanto sofreram, não conseguem deixar de sentir esperança em um relacionamento aflito. Ou, não importa o quanto amaram, nunca deixaram de visualizar o ponto final daquele caminho. 

Cópias de expectativas e frustrações são projetadas naqueles que inspiram um mínimo de curiosidade. Cada pessoa, antes de ser fragmentada pela intimidade, é moldada aos olhos de quem a admira ou sente pena. É muito bom quando a admiração de uma obra de arte corresponde às intenções do artista, mas não há garantias desse resultado. É melhor que seja assim. Novas visões e perspectivas ajudam o mundo a ter mais graça, a fugir do mais do mesmo, o que inclui a humanidade. Pensando assim, é interessante questionar o que confere autenticidade a um trabalho diante de tantos outros semelhantes. Mas, muito além de oferecer provas de originalidade, parece mais importante uma obra fazer o espectador pensar sobre o que viu, questionar o que conhece, relembrar do que já esqueceu (assim como a última cena do filme). O sentimento de que valeu  a pena, não importa o que se veja depois. 


Digital, social e um olhar superficial

Ano passado foi o fim da primeira década 100% digital, de acordo com este artigo. E, mais uma vez, as mídias sociais estão na linha de frente. Segundo a conclusão um relatório, os blogs, e especialmente o blogger, estão sendo ultrapassados pelo microbloggings e redes sociais. Nada de novo no front. Enquanto o twitter possui a hegemonia na área dos microblogs (embora a ferramenta represente mais do que essa definição), o facebook é a maior rede social do mundo, sendo mais acessado do que o o google ano passado nos Estados Unidos e tendo o suposto objetivo de ser a primeira empresa a valer 1 trilhão de dólares. O google reage, mas a rede social ainda tem um ritmo de crescimento maior. No Brasil, ainda é superado pelo orkut (cujo domínio é do google), mas continua avançando.

Já o twitter se mostrou um canal de informação indispensável para qualquer empresa com domínio na internet, crescendo continuamente no país. Se o twitter tem seu lado fútil de usuários que divulgam qualquer atividade corriqueira (o que é inevitável), também tem seu aspecto da informação em tempo real, possibilitando um ciberativismo com a ferramenta. Quando se trata de eleições, é fundamental que o candidato obtenha o máximo de "seguidores" com seu perfil. Isso leva a observar, aqui, o quanto da população tem acesso à internet. Enquanto o IBGE não divulga os relatórios finais do Censo 2010, vale o registro do quanto o acesso à internet de banda larga cresceu nos últimos anos. A partir disso, o ideal seria estimular o uso mais produtivo dessas ferramentas pela população jovem, principalmente no que se relaciona à educação. Mas é claro que o buraco é mais embaixo nesse caso.

Então, entre ganhar seguidores no twitter ou obter um "like" no facebook, como ficam os blogs? Continuam, mas aumentando a convergência com outras mídias sociais. É necessário se aprofundar nesse ponto, principalmente se houver dinheiro envolvido. Caso não haja e o objetivo é passatempo/terapia, vale a curiosidade. Não deixa de surpreender quando se olha para trás e vê o quanto as coisas ficaram mais fáceis, mesmo não tendo ideia de tudo o que se deveria fazer. E isso apenas na internet. Quando se trata de tecnologia e aparelhos, é preciso ainda ler muito. Pelo menos aqui. Pode começar se acostumando ao fato de que muito garotos de dez anos ou até um pouco mais não reconhecem logo ou sequer sabem que existem CD's "oficiais" de bandas de música, com encarte, letras e tudo mais. Para eles, um CD é para ser gravado ou para instalar algum programa, se tanto. #otempopassa, e o melhor é "curtir" isso. De alguma forma.

Carrossel (Interferência IV)

Três meses sem postar. Trabalho, estudo, casa. Mas também já estava enchendo. Algumas coisas mudaram agora, perto do fim do ano. Mudaram até um pouco antes. Não escrevi mesmo assim. Nem era vazio de pauta: tinha assunto, faltava a vontade. E, em diversas ocasiões, também a competência. Como uma das graças aqui é não ter presença obrigatória, ficou às moscas mesmo. Tempo necessário para ler mais, aprender mais na internet, ver outros projetos, torcer pelo sucesso de alguns planos e, invariavelmente, olhar para o teto - ou para o chão - e se perguntar o que exatamente estou fazendo. Fingindo controle sobre os dados na mesa ou desafiando o relógio na parede. Junto com as respostas vieram outras perguntas, lembrando de dúvidas anteriores, e ficou a sensação de subir no carrossel e querer opções variadas de trajetos e destinos. Já estava ridículo, foi melhor se afastar um pouco. Agora, retomando o espaço, dá pra exercitar a memória e lembrar de filmes e fatos que talvez rendessem textos razoáveis (pelo menos para quem escreve). Mas fica pra depois. Por enquanto, permanece apenas a conclusão de que foi um ano movimentado. O quarto ano deste blog. E, embora tenha escrito menos (e pior) do que nos anos anteriores, continuar aqui ainda é uma vontade. Por mais algum tempo, enquanto também acompanho outros textos, prolíficos ou hesitantes. Algumas vezes, isso basta. Em outras, o melhor é rir e dar um tempo. E torcer para que tudo volte ao "normal". Se houver tal opção...

Sessão dupla

Nota: o texto abaixo deveria ter sido postado há alguns dias, aproveitando a sessão de cinema recente. Mas houve pouco tempo e muito cansaço, quase deixei pra lá. Por fim, insisti. Se continuar a leitura, aviso de spoilers. Assista aos filmes destacados antes.

Medo, possivelmente, é o sentimento que mais afeta a nossa percepção da realidade. O estado de tensão e alerta, preparado para fugir ou lutar, aumenta as dimensões do que pode ser uma ameaça desconhecida. Um ruído provocado pelo vento, uma iluminação fraca ou um vulto estranho deixam de ser apenas incômodos fatos provocados pelo acaso e passam a representar perigo real. É uma das estratégias do corpo para a sobrevivência da raça humana e que bons filmes de suspense e terror sabem provocar, principalmente quando despertam curiosidade ao mesmo tempo, fazendo a sugestão da ameaça assustar mais que a sua exposição.

Se medo pode ser tratado como uma reação imediata do organismo à presença de riscos iminentes, o trauma é resultado de uma experiência agressiva cujos efeitos são sentidos a longo prazo. Ao contrário do medo, que geralmente tem a sua origem logo identificada, o trauma geralmente exige mais tempo para reconhecer não somente a sua causa, mas também os seus efeitos. Tratamento médico é recomendável para a recuperação, principalmente se for necessário analisar os próprios sentimentos e lembranças em busca de respostas. Não é uma ciência exata; os métodos, assim como as reações a cada um deles, são variados.

Parece desnecessário relembrar de como medo e traumas podem afetar tanto a mente e o subconsciente do ser humano. Todos conhecem casos e exemplos disso. Mas recordar o óbvio vale aqui por dois motivos. Primeiro: evidências claras à primeira vista podem se revelar mais complexas ao se considerar outras perspectivas, especialmente quando se trata do subconsciente do indivíduo; o que é óbvio pode ser assim definido mais pelo conceito enraizado na mente do que pelo exame do contexto em que se apresenta. Segundo: provavelmente, o ator Leonardo DiCaprio levou em conta tais constatações ao decidir protagonizar seus dois filmes lançados este ano, Ilha do Medo e A Origem (Inception). Um bom ponto de partida para analisar e comparar as duas obras

Ilha do Medo é baseado no livro de Dennis Lehane (Paciente 67), dirigido por Martin Scorsese e narra a investigação de dois policiais sobre o desaparecimento de um paciente no hospital psquiátrico na Ilha Shutter. Alguns questionamentos surgem, segredos são descobertos e, por fim, chega-se ao ponto em que nada ali aparenta ser o que realmente é. Inception foi dirigido por Christopher Nolan, com roteiro original do próprio diretor. Uma equipe de ladrões especializada em roubar ideias durante o sonho das pessoas, quando a mente está mais vulnerável, recebe como missão realizar o oposto do que geralmente fazem: ao invés da extração, devem inserir um pensamento na mente do alvo. Cada um dos filmes, agarrado ao seu respectivo gênero principal (terror e ficção científica) e ainda alcançando outros, fala sobre como a mente humana pode ser influenciada pelo medo e desespero da realidade, chegando ao trauma e, por fim, ao colapso, transformando a veracidade dos fatos na verdade mais conveniente para a sobrevivência psicológica. Melhor antes ver a especialidade de cada trabalho.

Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio são parceiros de cinema há 8 anos e quatro filmes. Durante este tempo, fizeram um drama (Gangues de Nova York, 2002), uma cinebiografia (O Aviador, 2004), um remake de um policial chinês (Os Infiltrados, 2006) e o suspense/terror Ilha do Medo. Enredos variados, papéis versáteis. De certa forma, é difícil encontrar uma assinatura-chave de Scorsese na direção dos quatro filmes, mas há estilo, sem dúvida. Um exemplo do seu cuidado na construção tanto imagética quanto na significação das cenas é o momento em que o protagonista de O Aviador se encontra dentro de um banheiro, onde é possível perceber - através das diferenças nas cores da roupa do ator em relação ao ambiente, na postura defensiva dele e na disposição de elementos do cenário - o desconforto do personagem.


Ou ainda ao mostrar como dois detetives são vistos com desconfiança ao chegarem no hospital psquiátrico. O enquadramento a partir da perspectiva do guarda (que aparenta ser mais alto do que é), vendo os dois visitantes cercados por outros seguranças de braços cruazados, um veículo atrás e os muros laterais, é capaz de transmitir simultaneamente a ideia de estarem em um local protegido, perigoso e, justamente por isso, estranhos não são bem-vindos. Mais à frente no filme, em uma breve passagem, ficam evidentes a distância e a dificuldade de acesso que dois homens verificam ao visualizar um farol, servindo como prenúncio das dificuldades que enfrentarão para chegar lá .



Scorsese tem uma extensa carreira onde produziu obras de diferentes valências e analisar Ilha do Medo a partir dos vários filmes que o diretor realizou não é o caminho mais indicado. Mas Nolan é diferente: rodou seu primeiro longa-metragem em 1998, Following, e desde então seus filmes têm características cada vez mais definidas, principalmente nos seus enredos. Como diz o artigo de Tom Elrod, respondendo aos murmúrios de comparação de Nolan com Stanley Kubrick, "os filmes de Kubrick (...) eram estudos de personagens. Os filmes de Nolan, por contraste, são estudos de trama. Na verdade, você poderia dizer que ele é um artista da trama". De fato, dos seus sete filmes até agora, quase todos trazem enredos que se tornam cada vez mais complexos conforme avançam. Mas isso, não significa, obviamente, que os personagens de Nolan são inócuos. Pelo contrário, suas motivações são críveis (neste aspecto , seus melhores personagens foram Leonard, de Amnésia, e o Coringa, ironicamente plausível justamente por não apresentar nenhuma razão específica para suas atitudes, o caos pelo caos; mas também foi ele, ironicamente ou não, quem conseguiu realizar seus planos na ordem que estabeleu).

Mas não há como negar que Nolan se destaca mesmo na construção dos seus enredos, inclusive usando a montagem cinematográfica para auxiliar na complexidade das suas histórias. Alguns de seus filmes, por exemplo, começam com um cena que ocorrerá posteriormente na cronologia da narrativa e, depois, corta para contar os acontecimentos na ordem em que aconteceram, passando pela cena inicial até chegar ao fim. Também é comum o uso de flashbacks (inclusive chega a ser repetitivo). Mas, verdade seja dita, ele conseguiu justificar o recurso da montagem fílmica de maneira orgânica no tempo reverso de Amnésia ou nos diferentes níveis de duração de Inception, além do argumento do ilusionismo como uma analogia à própria ilusão cinematográfica em O Grande Truque. Impressionante.

Também na maioria dos seus filmes Nolan trabalhou com seu irmão, Jonanthan, para escrever o argumento da história. É evidente que os irmãos preferem um estilo sóbrio, urbano e focado no trauma e obsessão de seus personagens (não à toa que encontraram o seu ideal em Batman). Mas, em Inception, Christopher Nolan trabalhou sem o auxílio do irmão no desenvolvimento do enredo e, coincidência ou mais que isso, foi possível notar um certo enrijecimento de seus traços (até a arte do pôster do filme é semelhante ao de The Dark Knight, como foi bastante divulgado na internet). A cena inicial que depois será compreendida, os flashbacks, as constantes explicações das ações dos personagens, o final seco e ambíguo, entre outros fatores.


Outra característica comum dos filmes de Nolan é mostrar a perda da mulher amada como causa da aparição, ou pelo menos do reconhecimento, das perturbações de seus personagens (e, consequentemente, engatando a trama do filme). O assassinato da esposa de Leonard em Amnésia, o acidente com a namorada do mágico em O Grande Truque, a morte da noiva de Harvey Dent/ Duas Caras em The Dark Knight e, agora, o suicídio da esposa de Cobb em Inception. E este é o ponto que remete diretamente a Ilha do Medo: a morte da esposa e o complexo de culpa, resultando na fragmentação da mente e na instabilidade do subconsciente. Desta forma, aquilo que se vê pode não ser real, mas apenas uma reação psicológica/emocional ao trauma. Mas em Ilha do Medo, este é o efeito da loucura e terror, enquanto em Inception é resultado da navegação em sonhos e seus limites com a realidade.

Scorsese desde o início estabelece um clima sobrenatural no filme, com seu protagonista sempre em busca de respostas e descobrindo pessoas e lugares cada vez mais assustadores ao passar da conspiração à paranóia e, finalmente, à verdade final. É curioso notar que, se Scorsese aproveita o cenário mental de um único personagem para construir belas cenas que claramente não correspondem à nossa dimensão, Nolan usa o mundo dos sonhos da humanidade para estabelecer a maior semelhança possível com o ambiente real. Talvez Nolan não se sinta à vontade para construir cenas que saltem demais aos olhos do espectador, todas têm o claro propósito de explicar ou refletir a trama, como se a "liberdade artística" de cenas como o Coringa na janela do carro policial em The Dark Knight não fossem o seu forte. Nolan dedica tanta atenção ao aspecto realista de suas histórias que a principal característica do mundo dos sonhos é ser influenciado pela realidade e, portanto, deve ser como ela, já que isso é importante para o trabalho dos personagens. Até quando o subconsciente é treinado para se defender, ele o faz utilizando tecnologia e táticas militares, exatamente como seria no mundo real. Mas, claro, Nolan não deu ponto sem nó: a função de Arquiteto explica o aspecto não-onírico dos sonhos.

Repassando todos esses pontos, é de perguntar se o ator Leonardo DiCaprio, após ler os roteiros de ambos os filmes, teve um interesse especial na figura do homem e sua experiência traumática sendo refletida na mente e nos sonhos, com provocações no medo e no subconsciente, a ponto deles serem mais importantes para a história do que o mundo real (principalmente porque nem sempre se sabe o que de fato é real). Ou então como delírios dentro de delírios e sonhos dentro de sonhos puderam ser explorados, cada um ao seu modo, em um filme de suspense e outro de ficção científica, ambos com fortes tons dramáticos (como era de esperar ao se tratar de medos e traumas, afinal). Para o espectador, não deixa de ser interessante ver como histórias tão distintas na maneira de serem contadas apresentam fortes ligações, além do mesmo ator principal: as reações diante do medo e após o trauma. Quanto mais profundos, mais inesperadas podem ser as respostas. Basta lembrar o final de cada filme.

O antes hoje

À Prova de Morte demorou três anos para chegar aos cinemas brasileiros. O filme faz parte do projeto Grindhouse, concebido pelo diretores Robert Rodriguez e Quentin Tarantino, como uma homenagem aos filmes B dos anos 70, baratos e com ênfase em temas como sexo e violência para animar as bilheterias (exploitation films). Como a qualidade das películas não era das melhores, eram comum as sessões duplas pelo preço de um único ingresso. Até os cartazes eram feitos para divulgar a "promoção" de filmes dois-em-um. Portanto, Planeta Terror (a parte de Rodriguez) e À Prova de Morte (segmento de Tarantino) deveriam ser exibidos em uma sessão contínua, como era feito antigamente. Ambos os filmes têm uma imagem suja, envelhecida, como se fossem realizados naquela época. E ambos fracassaram nas bilheterias nos Estados Unidos. Quem hoje tem tempo e paciência para aguentar no cinema 3 horas de filmes "toscos"? O melhor era a exibição de cada obra separadamente.

Planeta Terror eu vi no começo de 2008, numa sala cheia de jovens casais empolgados com a proposta de terror barato, mulheres atraentes e cenas absurdas. Divertido. Mas não vendeu muitos ingressos por aqui. Então o estúdio segurou a outra parte, À Prova de Morte, para evitar prejuízos. E ficou assim até agora, quando os direitos de exibição passaram para outra empresa. Nesta semana, eu pude ver o filme. Sala lotada novamente, mas muita gente nem sabia o que esperar. Aproveitaram o preço promocional do ingresso, o título curioso (nenhum pôster estava pendurado, apenas um papel informando os horários) e consideraram uma alternativa à franquia Crespúsculo ou Shrek e suas dezenas de adolescentes na fila.

O clima geral foi de decepção, principalmente das mulheres. Mas, perto do fim, houve uma euforia predominantemente feminina. É uma boa ilustração de como Tarantino conduziu seu trabalho: uma parte onde as mulheres são sensuais e manipuladas, outra onde não são tão lascivas, mas demonstram resistência ao perigo. E, para variar, há um desfile de características do "estilo" Tarantino como pés femininos, recriações de cenas de outros filmes do diretor, tomadas dentro de porta-malas, referências a filmes obscuros, longos diálogos (alguns cansativos)... abrindo caminho para o mais do mesmo até Bastardos Inglórios. As sequências de ação são estimulantes e uma das razões disso é a opção de Tarantino em evitar ao máximo efeitos visuais, tornando as cenas mais críveis no seu impacto e violência. E impossível não citar uma sequência ao som da música Down in Mexico que, para mim, se tornou antológica.

Mas o meu maior interesse é reparar na passagem do tempo e as mudanças que ela trouxe no intervalo entre Planeta Terror e À Prova de Morte. No filme de Rodriguez, havia tempo de sobra, vontade maior de escrever, público mais homogêneo na sala e uma boa disposição em assistir vários filmes. Já ao assistir Tarantino era cansaço, tempo mais escasso, espectadores diferentes, mulheres reclamando, jovens mais fúteis. E gostei mais de À Prova de Morte, talvez por julgar que passei a entender um pouquinho mais do que gosto em Cinema. Comparar momentos da vida a partir de sessões de filmes pode revelar alguma coisa do que aprendemos ao longo do processo. Estudos, filmes, livros, experiências, divertidas ou não. Tudo junto e misturado, mesmo com cada coisa em seu lugar. Momentos Down in Mexico. A vida grindhouse.

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