Sétimo

Acredito em coincidências. Muitas coincidências em poucos dias, acredito em algum planejamento. Quando não se pode provar esse planejamento, faço um esforço. Ligo fatores, causas, uma série de razões conduzindo a determinado resultado. Nada com a presunção e muito menos um talento sherlockiano. Apenas reação. É natural entender as coisas por um jeito racional. E tão natural também é a incompreensão pelo mesmo jeito.

Amanhã começa o segundo semestre do ano e isso me anima. Sempre me animou. Julho é mês de férias, não há nada místico ou metafísico para compreender a animação provocada. Correto. Mas o bem-estar vai além disso. Vislumbre de novas perspectivas, mesmo a organização não sendo o meu forte. Como se o ano fosse determinado para fornecer duas chances de se acertar: uma a cada seis meses. Qual acerto? Geralmente dou mais atenção aos erros, para irritação de muitos e tristeza própria.

Tenho planos para o segundo semestre. Planos e vontades. Espero que dêem certo. Espero me sentir bem com os resultados, mesmo sendo imprevistos (tive boas mostras disso somente este mês). Por ora, vale o lado mais brilhante da moeda, a metade preenchida do copo, os eufemismos da conquista em vez dos sacramentos das frustrações. Devo voltar a escrever perto do fim do julho, não por falta de assunto ou disposição no intervalo, mas apenas para aproveitar a sensação de segunda chance do ano.

Uma sensação sem nada místico. Todos devem ter um período do ano onde o ar fica mais leve, sem influência direta do clima. Vai de cada um. Normal. Normal também é não entender exatamente o motivo de tudo isso e, mesmo mais tolerante e confiante, discorrer tempo e palavras para perguntar: por quê?

Vem a idéia de como se pode ser chato com essas coisas. Em seguida vem a lembrança de como tudo isso é normal. É normal ser chato. É chato pensar que ser normal também é chato. Seja um ou outro: vai se resumir a um sorvete, enquanto fico costurando meus planos e anedotas, mesmo sem rumo e sem rotas, mas por fazerem bem merecem atenção. Principalmente neste mês, sendo exceção ou não.

Controle

Obter o máximo de lucro possível (sempre) é a primeira justificativa para se produzir duas versões cinematográficas e não correlacionadas de um mesmo personagem dos quadrinhos em apenas 5 anos. Mas os dois filmes do Hulk (Hulk, dirigido por Ang Lee em 2003, e O Incrível Hulk, dirigido por Louis Leterrier e atualmente em cartaz) vão além desta questão, embora sempre comece pelo potencial financeiro.

Quando Bryan Singer foi convidado para dirigir o filme dos X-Men e soube que se tratava de heróis mutantes lançando raios pelos olhos e outros super-poderes, quis recusar a proposta. Voltou atrás ao ouvir um produtor dizer que os mutantes eram vítimas de preconceito social e perseguição (Martin Luther King foi citado nesse argumento). Era um potencial dramático eficaz, obviamente sem esquecer das cenas de ação. O filme teve grande sucesso em 2000. Três anos depois, a produção de Hulk seguiu caminho semelhante: convidaram um diretor conhecido pelos seus dramas para dirigir a história do cientista Bruce Banner, um homem cheio de frustrações, e o seu conflito por se transformar em um gigante verde toda vez que se irrita, o que o leva a lidar (às vezes de maneira trágica) com seus traumas diante da figura do pai, da mulher amada, da sociedade. Momentos de ação e destruição também estavam incluídos. Incentivado pelo enorme sucesso de Homem-Aranha, lançado no ano anterior, o filme foi aos cinemas. Não fez o sucesso esperado. Outros personagens fizeram.

De 2000 para cá, mais de quarenta filmes baseados em quadrinhos foram produzidos. É o filão mais lucrativo de Hollywood. Adaptações cinematográficas de quadrinhos quase sempre trazem a certeza do retorno nas bilheterias (qualidade artística é outro campo). Foi essa realidade que possibilitou a Marvel Entertainment, uma companhia norte-americana de entretenimento responsável pelos direitos autorais de vários personagens famosos dos quadrinhos, financiar seus próprios filmes, sem a participação de qualquer distribuidora (o primeiro foi Homem de Ferro). Isso garante mais liberdade e controle na direção dos filmes e, porventura, uma fidelidade maior às revistas, o que deve se converter em bons lucros com a venda de ingressos. Tal empreitada levará ao ambicioso projeto de lançar vários filmes de super-heróis, deixando ligações entre eles até reunir todos em um longa-metragem.

O Incrível Hulk integra este cenário. Evidentemente o interesse maior é de ordem financeira, mas a sua produção faz parte de uma nova fase da Marvel nos cinemas. Muitos personagens da editora (Homem-aranha, Motoqueiro Fantasma, Demolidor) ainda estão sob a custódia de alguns estúdios e, nos cinemas, fazem parte de universos que não se cruzam. Ainda não.

Quanto ao Hulk de 2003, é interessante ver um personagem através de diferentes ângulos. Respeitando os limites éticos, toda liberdade artística é válida, nem que seja para mostrar o que não se deve fazer (como um Motoqueiro Fantasma da vida). Não gostei do filme quando o vi pela primeira vez. E até agora não me agrada muito, um Hulk parecendo feito de chiclete e com uma edição homenageando os quadrinhos que tecnicamente é ótima, mas destoa muito do clima dramático da história. Mas agora vejo melhor suas qualidades. E também entendo com mais clareza porque prefiro O Incrível Hulk: mais do que ser fiel aos quadrinhos (o que já me cativa bastante), gostei de ver que não há sutilezas na raiva e no desespero do protagonista. No fim, acaba ecoando uma velha idéia sentimental: exercemos auto-controle demais; se é pra arrebentar, arrebente de vez. E em grande estilo.

Cliques

O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo determinou o veto da veiculação do famoso vídeo de Daniella Cicarelli fazendo sexo com um namorado em uma praia da Espanha. Tato Malzoni, parceiro de Cicarelli no vídeo e autor do processo contra o site, pode receber até R$ 250 mil de multa diária caso a ordem seja descumprida.

Rubens Decoussau Tilkian, um dos advogados de Malzoni, divulgou a seguinte nota:

"Fica mantida a decisão que reconheceu a ilegalidade da divulgação do conteúdo sensacionalista do casal e a imposição de multa para aqueles que a desrespeitarem. Diante do desenfreado crescimento das ações judiciais em face desses provedores, são necessárias algumas medidas técnicas, de ordem preventiva, com o objetivo de trazer maior segurança aos usuários dos sites na Internet

Acompanho alguns blogs e li postagens comentando a decisão judicial. A maioria deles era contra. E, por revolta e pirraça, disponibilizavam links do tal vídeo. Menos de 60 segundos depois de ler sobre a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, encontrei cinco links veiculando o vídeo proibido.

Quais serão essas medidas técnicas, de ordem preventiva, citadas na nota do advogado? Pergunto porque, logo depois de ler sobre o vídeo, vi esse texto. Desta vez falava sobre a discussão entre jornalistas e blogueiros ocorrida na Campus Party, em fevereiro deste ano. Um embate entre "a velha mídia e a nova mídia"

Quando li a notícia na época, não dei muita atenção. Foi um erro, não apenas por eu ser jornalista de formação e ter um blog (mesmo não sendo jornalístico), embora isso seja um agravante do meu descuido. Deveria ter me interessado mais principalmente porque minha principal fonte de informação é a internet, e as notícias que leio nos impressos ou vejo na televisão geralmente não são mais novidades, embora sempre procure saber mais em qualquer dos veículos. Sou um dos vários internautas que aproveita o alcance e liberdade da internet (especialmente blogs) para se informar melhor sobre um assunto de acordo com a minha escolha, mas que ainda precisa conferir o tema nos canais oficiais (mesmo presos à linha editorial e outras amarras). Em outras palavras, meu interesse deveria ser maior simplesmente porque me envolve direta e diariamente, fazendo parte do que analiso, escuto, digo e opino, o que inclui este blog.

Há "limites" nas notícias dos principais grupos de comunicação de Belém, por isso busco alguns blogs de informações, confiando na liberdade que eles podem ter. Contudo, a internet tem muito conteúdo falso, já que tudo é tão rápido e de fácil acesso que confirmar fatos e relatos nem sempre é prioridade, como se a rapidez fosse contra a segurança da informação. Como aponta Ricardo Noblat, a navegação virtual possibilita uma participação mais ativa do leitor e dá mais liberdade ao autor e, assim, quem garante a credibilidade do blog (seja de jornalismo, cinema ou automobilismo russo) não poderia ser ninguém além do seu responsável (e aqui inevitavelmente vai uma referência ao Crápula-mor, subindo cada vez mais no conceito ao analisar mídia, política e suas relações).

Este feudo entre blogueiros e jornalistas é uma dessas discussões que são inevitáveis, embora perca cada vez mais a seriedade quando a rivalidade entre os dois lados predomina sobre o objetivo de melhorar a apuração das informações e incentivar os leitores a refletirem sobre o assunto. Não é qualquer blogueiro que pode se comportar como jornalista e nem todo jornalista se adapta (ou reconhece) à importância e aos mecanismos dos blogs e outras possibilidades da internet.

A principal ferramenta dessa relação notícia-internet são os links: as recomendações e indicações que uma pessoa pode oferecer. O link é o caminho da credibilidade do autor e/ou do interesse do leitor, não esquecendo que uma característica depende da outra. Com a liberdade e a rapidez que a internet oferece, a principal segurança do internauta diante do conteúdo que vê é o seu bom senso e o seu conhecimento. Livros, filmes, músicas, pessoas, lugares e o resto da vida que não fica somente diante do monitor. A principal lição que nunca se esquece e nunca se aprende totalmente é que todas essas áreas de conhecimento que influenciam em nossas vidas estão ligadas e, por isso, não se pode desprezar ou supervalorizar nenhuma delas.

Por isso, voltando à nota do advogado Rubens Decoussau Tilkian, é que me pergunto quais são exatamente as medidas técnicas que irão trazer maior segurança ao usuário da internet. Vetar não parece ser o melhor jeito (não precisei de 60 segundos pra me certificar disso). Regra de vida: se quiser aumentar o interesse sobre um obra, basta proibí-la. Se os seres humanos puderam aprender e se desenvolver tanto ao longo da História, mesmo com os todos os obstáculos físicos e naturais e com todas as atrocidades de nossas ditaduras, foi porque nós temos curiosidade em aprender, em confirmar, em conhecer, em testar. A curiosidade não deixa de ser uma necessidade. Venenos e remédios foram descobertos. Mares nunca dantes navegados foram singrados. Planetas foram visitados. Pilhas e pilhas de papel se formaram para armazenar todo esse conhecimento. O que vale clicar num link?

PS: sobre o episódio da Campus Party, aproveito a deixa dos links e mostro um aqui, outro aqui, mais um aqui e ainda este aqui. Há muitos outros. Este é um vídeo mostrando o clímax do embate entre blogueiros de jornalistas. Outro exemplo está aqui. E, para mostrar que estava falando sério no início do texto, este é outro vídeo. Um igual está aqui. E também há outros.

Permanência

Anos atrás, ao atravessar uma rua, escutei um grande estrondo. Lembrou um trovão. Após o eco do barulho, perguntei à garota que me acompanhava o que deveria ser aquilo. "Arrebatamento não é, pois ainda estou aqui!". E me deu um belo sorriso. Sorri de volta.

Hoje, ao navegar por alguns sites e blogs, encontro esta página: Você foi Deixado para Trás. Está em inglês. O seguinte trecho (onde fiz alguns destaques) está na parte em que explicam a razão (Why) de se usar os serviços do site:

"Todos nós temos familiares e amigos que falharam em receber as Boas Novas do Evangelho.

Todos aqueles que não foram salvos serão deixados para trás na Terra e passarão pelo "período da tribulação" após o Arrebatamento. Você se lembra como, por um breve período, após 11/9/01, as pessoas ficaram mais abertas para questões espirituais (...). Imagine como ficarão chocados diante dos milhões de Cristãos desaparecidos e da devastação do Arrebatamento. Eles saberão que era verdade e desperdiçaram a chance de salvação. Haverá uma pequena janela de tempo por onde eles poderão alcançar o Reino de Deus. Nós tornamos possível a você enviar uma carta de amor a eles e um apelo para aceitarem Cristo uma última vez. Você também poderá dar a eles algum auxílio para atravessar o período que lhes resta. Na parte encriptada de sua conta você pode dar a eles acesso a sua conta bancária, objetos de valor escondidos, procurações (você não precisará mais disso, e o presente enfatizará a mensagem de amor). Como não haverá cadáveres, os tribunais levarão 7 anos para entregar os seus bens aos seus parentes. 7 anos, obviamente, é todo o tempo que resta. Então, basicamente o Governo do Anticristo terá posse de seus bens, a menos que vocês os torne disponíveis de outra maneira. Você também pode mandar informações baseadas nas escrituras sobre o que acontecerá a seguir."

O serviço é basicamente armazenar 250 MB de documentos (incluindos senhas de contas bancárias) que serão enviados via e-mail para todos os entes queridos que foram deixados para trás, como é explicado na parte de 'serviços':

"Nós desenvolvemos um sistema para enviar documentos através de e-mail, para os endereços que você designou, 6 dias após o Arrebatamento. Isto acontecerá quando 3 dos nossos 5 administradores espalhados pelos Estados Unidos não logarem durante um período de 3 dias. Outros 3 dias serão aguardados para evitar que qualquer alarme falso ative o sistema."

Supõe-se que os 3 administradores deixarão de logar após o Arrebatamento porque, afinal, eles também foram arrebatados. Uma maneira prática e até barata de garantir a eficiência do site. Entretanto, barato não quer dizer de graça:

"O custo é de 40 dólares no primeiro ano. A taxa da re-inscrição será reduzida conforme o número de inscritos no site aumentar. Diga aos seus amigos sobre Você foi Deixado Para Trás".

Desta vez não há imponentes clamores ou belas garotas. Mas continuo com o meu sorriso. Mesmo não sendo o mesmo, ele não ficou para trás.


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