Trilha

Sempre há momentos em que a vida deveria ter trilha sonora, como diz aquela comunidade. Este ano abrigou vários desses momentos, deixando mais claro do que gosto e, principalmente, do que não gosto. E as conseqüências estão vindo.

Uma lista das cenas de filmes e suas músicas que mexeram comigo (antes e durante 2007).

7 – Little Green Bag, de George Baker Selection: créditos iniciais de Cães de Aluguel, logo após a conversa sobre Madonna e gorjetas.

6 – Extreme Ways, de Moby: Jason Bourne se dirige à escuridão em Ultimato Bourne.

5 – Wise Up, de Aimme Man: belo momento de Magnólia, onde todos se unem, mas ainda sozinhos.

4 – Sparring Partner, de Paolo Conte: após um jantar de confissões e decepções, o casal protagonista de O Amor em 5 Tempos e seus convidados vão ao vinho e à dança.

3 – Wake Up, de Rage Against the Machine: Neo deixa um recado à Matrix e olha pro céu.

2 – Angel, de Massive Attack: Henry se martiriza enquanto o bar vira um delírio visual em A Passagem.

1 – Bittersweet Symphony, de The Verve: Kathryn descobre o que Sebastian deixou pra trás em Segundas Intenções.

Acredito que a lista vai mudar. Há muitos filmes e muitas músicas. O espírito nunca é o mesmo em cada um deles.

Sessão

Vi Eu, Robô no cinema. Gostei. Sem sono e com dor de ouvido, novamente assisti ao filme, agora na TV, ontem à noite. Nem lembrava da citação de Frankenstein em certa parte. A evolução das máquinas e seu inevitável confronto com o ser humano, como já visto em Metropolis, Blade Runner, Exterminador do Futuro e Matrix. O melhor filme que assisti esse ano no cinema também foi um de ficção: Filhos da Esperança. Lançado em 2006, mas a exibição só veio em janeiro desse ano em Belém. Mulheres não têm mais filhos há anos, a humanidade vai entrando sem hesitar no caos da iminência de sua extinção e um homem bastante pessimista descobre que ainda há uma mulher grávida no mundo. Além das tensas seqüências inteiras sem cortes e da fotografia, é interessante perceber que, diante da inexistência de uma geração seguinte, a resposta humana é intensa ao ir contra parâmetros que regulam uma sociedade. Terrorismo, revolta, egoísmo, destruição, ceticismo. Por que se guardar para um amanhã que ninguém vai aproveitar? Por que não liberar o ódio ou as mais loucas idéias para o mundo agora, já que em pouco tempo ele será um lugar deserto? Os bons filmes de ficção retratam algo verídico da sociedade, com previsões e analogias. Se um dia todas as mulheres ficarem estéreis, não acredito que haverá união e solidariedade entre as pessoas para enfrentar e esperar o fim da raça.

O meu filme preferido de ficção, contudo, ainda é Gattaca. A ciência genética é extremamente avançada, a manipulação de genes na concepção de uma criança torna-se prática comum. Os pais determinam com a maior precisão possível as características dos filhos antes do seu nascimento. Doenças hereditárias, tendência a agressividade, depressão, miopia, calvície, baixa estatura... todos os "defeitos" são evitados na manipulação dos cromossomos. As qualidades desejadas também podem ser combinadas. Nenhuma concepção fica mais ao acaso de fluidos e prazeres, principalmente porque aqueles que foram concebidos naturalmente tornam-se vítimas de preconceitos e são rebaixados na sociedade. Com o histórico de preconceito racial da humanidade, é muito crível essa resolução. Não tarda para que o filme mostre que não é nossa genética, mesmo com toda a sua influência em nossas vidas, que explica a nossa imperfeição, nem que possíveis desvantagens em nosso DNA determinem o alcance na capacidade de superação e sobrevivência.

Em Filhos da Esperança, a surpresa de ter filhos é um milagre. Em Gattaca, a mesma surpresa é um revés. No primeiro, a humanidade vê o seu fim. No segundo, vê um estágio de evolução. E em ambos os protagonistas não se encaixam no que vêem e reagem. A impressão inicial é de que essa reação foi provocada pelo instinto de sobrevivência e auto-afirmação ou até simplesmente por uma ética solidária ao sofrimento alheio. Tempos depois, essa impressão se mantém, mas mostra a sua raiz: a reação ocorre porque é digno do ser humano viver em oscilações e mutações, encurvando os caminhos retilíneos e planos a sua frente, mostrando do que é capaz (para o bem e para o mal) nem que pra isso tenha que lançar desafios e provocações a queridos e inimigos. Instabilidade, desvios de conduta e quebras de etiqueta vão além da genética e da sociedade. São inerentes ao ser humano e ele faz o mundo caminhar com isso. Não é fácil. O fim pode ser doloroso. Mas após filmes, livros e experiências próprias, é difícil pensar que vale a pena ser e ter o sempre igual. A vida não é feita de momentos uniformes. E, ainda assim, é uma só. Pode passar rápido como um filme, mas ninguém sabe como fica depois que a tela se apaga.

Interferência

Não sei mexer muito com palavras. A idéia do blog era esquisita. Escrever? Só se fosse por algum valor didático, como mostruário de erros e clichês, mesmo após revisões e mais revisões. De resto, não vale a pena um texto meu de caráter pessoal. Porém, incentivado por uma amiga , fiz o blog. Diversão apenas. Mas virou algo de terapia. A serenidade não digita tão bem quanto o impulso. Com a indignação e tristeza, as palavras correm estimando a sinceridade e presas à estupidez. Espírito calmo, vale mais correr pra pessoas queridas, doces ou filmes.

Conheci outros blogs. Tive a impressão de que muitos partilhavam a mesma característica: escrever não necessariamente para ser lido, mas para ficar tranqüilo. Paulistanices é uma exceção, sempre deixou claro que escrever é quase uma necessidade fisiológica, tamanho é o talento e a instabilidade (espero que ela esteja melhor). Bons textos, às vezes não necessariamente pela escrita, mas pela personalidade. E, mesmo com todo aquele banho de visual e letras, eu continuava com meus textos chatos, pesados, sinceros, buscando me trazer calma e experiência (a última parte sempre funcionou).

Mas tenho que agradecer pelos bons textos que li. De humor gaiato e inteligente, de sensibilidade esperta (embora pouco freqüente) ou capazes de escrever um tijolo com a graça de uma pluma. Gostei muito, nem sempre por ler, mas por entender algo mais. E, um ano após o primeiro post, talvez possa ir pegando o jeito e dar mais margem ao agradável. Textos ruins voltarão, mas a visão vai ficando mais atenta ao lado brilhante da moeda.


"Assim como não se ensina a escrever, tampouco se ensina a imaginar. Mas a imaginação pode ser estimulada, atiçada, e mesmo, e infelizmente, desperdiçada. Ao preferir a imaginação, o que se trabalha não é a língua, nem a história da literatura, e muito menos o "escrever bem", ou qualquer outro valor fixo. Trabalha-se, ao contrário, a diversidade, a irregularidade, o desvio e o susto."

(José Castello)

PS: ainda valendo a regra da sinceridade: se possível ser além do amor (qualquer que seja a sua medida, qualquer que seja a sua realidade) e do pieguismo, tenho muito que agradecer a ela. Por todos os momentos em que ela consegue entrar em sintonia comigo mesmo com minha inclinação natural a fazer jus ao título do blog. Espero de todo o coração que possa haver sempre momentos em que palavras possam ser substituídas por sorrisos e olhares. Por mais um ano. Por mais outros. Obrigado.

Província

Cinema no sábado. O moviecom fez uma reforma: a bilheteria agora fica no corredor da galeria e a entrada é pelo espaço onde era a locadora Cinema 4. Entrega o bilhete ao funcionário desatento, atravessa as cortinas e entra na sala por baixo da tela. Procurando um lugar, vê a maioria dos assentos rasgados, espuma e tecido saltando. "Onde é que tem tanto animal pra fazer isso?". "Em Belém", respondo.

Shopping no domingo. Primeiro a livraria. Pequena, mas ainda existente. Vendo uns livros, alguns me interessam, vou verificar o preço. Passo o código de barras na leitora e nada acontece. Faço de novo. Mais uma vez. Nada do preço. O livro não estava registrado. Pego outro. Nada também. Volto à prateleira. Um livro me chama a atenção e arrisco de novo com o código. Nada. Uma funcionária se aproxima e diz que as leitoras de código não estão funcionando, ela verificaria o preço direto no caixa. Antes fosse direto a mim e avisasse do enfeite das leitoras, antes de me ver brincar com o código de barras três vezes.


A revistaria logo depois. Mangás estavam em outro lugar e sem muitos lançamentos que já tinha visto em outras bancas. Quadrinhos tiveram seu espaço reduzido. Livros de RPG também. Auto-ajuda e horóscopo ganharam mais terreno. E muitas, mas muitas revistas danificadas. Vi revistas sobre uma superfície irregular e sob grande peso, amassadas ao meio. Havia exemplares que ficavam na direção da saída do ar refrigerado, capa e primeiras folhas balançando. Alguém prendeu apenas a metade inferior desses exemplares para que não dobrassem com o vento refrigerado, fazendo com que ficassem com "orelhas" nas pontas. Mais de uma vez, arrumei blocos da mesma revista para poder ver se havia alguma coisa debaixo deles. Nada achei, a não ser mais blocos desorganizados de outras revistas.

Decidi gastar. Em frente à revistaria, um café. Caro, mas eu estava com vontade. Peguei a nota e fui pro balcão. A moça era lenta. Pior: lenta e sorridente. Olhei a nota e vi que especificava o que havia pedido: capuccino sem chantilly e esfirra de frango. Ela pegou a nota. Não sorriu. Conversava com as colegas de trabalhos. Sorrindo. Houve um momento em que ela ficou parada com o bule na mão ouvindo algo que a fez rir. Não prestei atenção, mas sinceramente duvido da graça: além de confirmar que era sorridente sem causa, já desconfiava que era estúpida. Perguntou duas vezes se era com ou sem chantilly. Duas vezes perguntou se era esfirra de carne ou frango. Ela já tinha visto a nota do pedido. Respondi a tudo, inclusive quando ela perguntou se eu preferia açúcar ou adoçante (óbvio que ela não usou o verbo "preferir", limitando a dizer as duas opções). Quis açúcar. Disse duas vezes. Veio a bandeja com o adoçante. Antes de recebê-la, peguei o frasco de Zerocal e o deixei sobre o balcão. Silêncio. "Ah, é açúcar, né?". Lerda. Teria que ouvir também duas vezes para entender se a chamasse assim. Sentei e comecei a comer. Carne. Boa. Fui vencido.


Hoje no trabalho. Minha chefe é de São Paulo. Chegou aqui em dezembro de 2006. Perguntei o que ela tinha a dizer de Belém nesse tempo. "Não entendo esse tratamento com o cliente aqui, esse negócio de ligar em cima da hora e dizer que não dá pra fazer o serviço. Isso não acontece em São Paulo... não acontece! Lá eles sabem que têm que fazer isso porque senão sempre tem outro que faz no seu lugar e também porque sabem que a reputação e confiança deles fica em jogo no mercado". Bebo o refrigerante, sentindo um misto de alívio e pressão sobre mim.

Reputação. Tratamento. Parece evidente demais dizer: Belém é um lugar de atendimento ruim, de descaso com o cliente, de uma cultura de "é assim mesmo". Por que a supresa da idéia geral de que o que vem de fora é melhor? Detalhes obrigatórios se tornam luxos, entre eles o bom atendimento e a confiança no prazo. Claro que há exceções. Sempre há. Não é uma cidade grande, não é um lugar de muita variedade. São relações e esquemas no mercado. Mas não é muito difícil perceber o caminho entre evolução e apodrecimento. Todos se conhecem. Deviam se lembrar disso na hora de dar pra trás. Sempre se pode divulgar um resultado com eficiência nessa cidade (especialmente os envolvidos com Comunicação), sempre se pode fazer elogios ou jogar lá embaixo o nome. Palavras se espalham. Pena que o mesmo não se aplique à justiça delas.

Toma Tao

"Praia deserta, as ondas batendo, tava tudo perfeito, até dava medo! A lua... (faz gestos no ar) de que lado mesmo é minguante e é crescente? Ah, eu soube lá na hora! Ela apontou uma estrela vermelhona no céu e disse que era vênus. Eu disse que Vênus também era amor... cara, é sério, não ri, tava dando certo!"

"É verdade isso, cara. Você atrai o que você emana. Se você tiver com cara de mau, doido pra dar um soco em alguém, uma hora tu encontra um bêbado, vadio, te enchendo o saco e faz a merda."

"Pô, tá... eu fui na casa da menina, mas não conhecia o lugar, não conhecia a mãe dela... não conhecia nem a menina!"

"Tava inspirado na lição. Confúcio disse 'Vai e arregaça! Manda ver que tô contigo!' "


Almoço surpresa e cheio de máximas com um amigo tão zen quanto malandro ("tem que ter equilíbrio na vida, saber o Tao, senão fode tudo"). E levo a sério tudo que ele pode ensinar, assim como rio também do que puder. Equilíbrio das horas de preocupação e reflexões com as descontraídas e bem-humoradas. Sem garantias, mas talvez isso se reflita em outros campos. Vale a pena.

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