Simples

Tranqüilidade em ficar só, por isso não fui pra casa na hora do almoço. Não era necessidade, apenas preferência. Segurando a nota sobre o balcão para pegar a fatia de bolo e o refrigerante, escutei um estalido. Um beijo. Vi um casal, ele abraçando-a por trás e beijando-lhe o pescoço. Ela distraída olhando para os preços. Continuava bonita, os óculos surpreendentemente não faziam falta, cabelos longos e lisos como sempre. Passaram por mim, chamei o seu nome, a distração dela continuou. Voltei o rosto para o atendente que preparava a bandeja. Então ela veio (o namorado deve ter ouvido a minha saudação) não mais sorridente do que supresa, pedindo desculpas e me abraçando. Sorri de volta enquanto recebia o lanche e disse que já ia comer, poderíamos nos falar depois.

Restavam poucos lugares. Longe da minha intenção inicial, fiquei preparado para dividir a mesa com eles. Não fiquei irritado com isso, o que me fez perceber que gostei de revê-la. Desde o primeiro ano do ensino médio, quando eu e meus amigos conversávamos o quanto ela era simples e íntegra, até o ano em que ela passou no vestibular do curso que sempre quis. Tenho certeza que cada um de nós comemorou a sua aprovação, estivesse em qualquer canto do Estado ou fora dele. Não era atração ou disputa, era o mais próximo da unanimidade entre nós, mesmo após meses sem vê-la. Era nossa protegida, mesmo ela apoiando nos momentos de raiva e desânimo (não foram poucos)

Fiquei feliz em vê-la com um namorado aparentemente carinhoso, carregando material de estudo do curso que sempre quis, verificando o preço dos pães com a mesma simplicidade que encantou no ensino médio. Se algum dos meus amigos daquela época estivesse ali, se sentiria da mesma forma. Não pensei que gostaria de dividir a mesa com alguém quando minha vontade era ficar só. Também não imaginei que um simples cumprimento e a visão dela se afastando para os pães pudesse me trazer alegria quando o máximo que eu queria era calma, cansado de esperar surpresas e criar grandes expectativas. Prolonguei o lanche não para saborear o bolo, mas o momento em que encontramos alguém que simplesmente nos faz bem. Mesmo de longe.

Fortuna de uma moeda

Devia ter percebido antes. Outubro não vai ser um mês fácil. Menos paciência, mais impulsividade. Horas de sono mais intranqüilas, principalmente quando a manhã se aproxima. A mente buscando analisar cada carta que compõe o castelo de princípios e regras do próprio comportamento, soprando suavemente os primeiros andares e, às vezes, balançando os dedos perto da base. A velha pergunta. Ausência de religião, descrença na humanidade, tendência genética, transtorno mental, traumas despercebidos, comportamento inadequado, resistência em transformar tolerância em integração, medo de errar (de novo), medo de acertar, frescura mesmo... a opção é uma e os erros são de todas. "Por quê?". 

E o diabo é que uma música no rádio e um filme consigam mudar tudo isso. E a nada surpreendente (e estupidamente irritante) conclusão de que é melhor o espírito ser essa montanha-russa do que andar em linha reta. Assim nada supera a sensação de quando se tem a certeza de que se está fazendo o certo, sem questionar moral nem ganhos para qualquer referência. 

"Exilados". Filme policial. Não gostei muito. Mas há trechos memoráveis, desses onde o filme é mais cúmplice do que culpado pelo sentimento do espectador (aviso spoiler: vou revelar trechos do filme). O quarteto protagonista, depois de uma sucessão de erros e má sorte, decide tirar no cara-ou-coroa o rumo dos seus próximos movimentos. E mesmo seguindo os passos da moeda, chegam onde provavelmente teriam chegado caso a decisão fosse de vontade própria. Mas provavelmente teriam sofrido mais. Quando a sorte parece abrir sorriso e braços, surge mais uma decisão a se fazer. A mais difícil de todo o filme. O líder do quarteto pede a moeda e se livra dela. E partem para resolver a questão, tranqüilos por saberem o que fazer, ainda que a solução seja trágica para todos.

Já ouvi que sorte é talento. Um argumento bom pro ego. Pra mim é só acaso. Se um dia eu acreditar em algo além de coincidências, talvez mude de idéia. Até lá, a sensação de contagem regressiva aumenta. E, curiosamente, aumenta também a certeza de que as coisas estão mudando num ritmo que até agora só eu percebo. Não é sorte.

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