Terapia

Há três dias tenho idéias para escrever aqui. Idéias rapidamente adiadas ou esquecidas por motivos diversos, boa parte deles desconhecida até por mim. Aqui e ali eu me via tentando não pensar no próximo ano, procurando escrever sobre outros assuntos, como as maiores bilheterias do ano. Mas desanimava. Algo errado, claro. Talvez seja isso: inclinar-me cada vez mais a evitar expectativas não só me tira o ânimo dos mergulhos desejados, mas também me tira o fôlego dos necessários. E para isso afetar um espaço tão pessoal e, em certa medida, tão individualista como este blog, dependente somente da minha vontade e sem precisar dar satisfações, é porque não tinha idéia do erro das minhas intenções. Ainda não tenho totalmente, mas entendo mais agora. Assim espero.

Nem erro talvez seja, mas não anda me fazendo bem simplesmente por não estar fazendo nada. Senti algo semelhante no fim do ano passado. Mal de época? Não sei. Gostaria de dizer que me importa saber se é inércia pré-reveillon ou algo a mais que demorei um ano pra dar mais atenção, mas sinceramente não me interessa. Não gosto. Paradoxal escrever sobre isso e dizer que não há interesse, mas eu precisava fazer uma última análise antes da meia-noite.

Não posso imitar o Cony e outros idosos e dizer que não espero nada do próximo ano assim como não esperei nada do ano anterior, pois espero. Não espero encontrar cisnes pelo mundo nem fazer toda criança feliz, mas eu preciso considerar alguma coisa. É uma necessidade de sobrevivência psíquica e emocional. Sempre estamos no equilíbrio da expectativa e da frustração. Não se pode dizer que o resultado sempre seja gratificante. Mas, francamente, é sempre bom perceber que valeu a pena. Se não valeu, há sempre o próximo reveillon. Algum motivo deve haver para comemorar até não esperar mais por nada, somente pelo fim. Durante o meio, brindemos! Ou voltemos a escrever...

Familiar

"Em poucas palavras, o Google visa a digitalizar e a armazenar toda a informação do mundo de modo que ela possa ser utilizada gratuitamente por qualquer pessoa com acesso à internet. Em troca de serviço tão meritório, a empresa quer todos os dados que seus usuários possam fornecer sobre hábitos de consumo e, a partir disso, conquistar toda a verba de publicidade disponível na rede. Seus projetos são tão formidáveis em extensão e os custos previstos tão elevados que parecem ser desenvolvidos não por uma empresa, mas por um país."

Li este trecho da matéria da revista Veja em voz alta, tanto para meu irmão ouvir como para eu digerir melhor o conteúdo. Um dos projetos citados é o O3B, planejado em parceria com o HSBC e a Liberty Global e com funcionamento previsto para o final de 2010. Consiste em posicionar dezesseis satélites ao longo da linha do Equador e, desta forma, oferecer internet em alta velocidade via satélite para localidades menos desenvolvidas do mundo. "A missão do projeto O3B é fornecer conexão de internet de alta velocidade e de baixo custo para "outros 3 bilhões" de pessoas em mercados emergentes na Ásia, África, América Latina e no Oriente Médio."

Soa fantástico e coerente com a filosofia "don't be evil" da empresa. Mas vale observar que, como cada internauta é um consumidor em potencial dos anúncios do Google, serão 3 bilhões de pessoas a mais no leque dos anunciantes. Sendo o site de busca mais utilizado na internet (além de oferecer outros serviços como os populares orkut e youtube), o Google é capaz de armazenar dados de cada computador através do sistema de identificação TCP/IP e elaborar um perfil do usuário a partir dos seus interesses na internet. Desta forma, é possível exibir os anúncios mais adequados a cada tipo de perfil.

Uma vez o atendente de uma locadora de filmes teve que se afastar rapidamente do balcão, permitindo que eu visse de relance a lista dos últimos títulos alugados pelo cliente atendido anteriormente. Mesmo de modo bastante genérico e fugaz, foi possível ter uma idéia das preferências e, portanto, da personalidade daquela pessoa. Atualmente é possível ser bem mais específico diante de blogs, fotologs e sites de relacionamento. E isso, francamente, me assusta um pouco.

Mesmo sabendo que a internet é uma rede interligada, causa uma sensação estranha saber que podem descobrir coisas sobre mim sem eu saber ou, pelo menos, sem saber até onde é possível descobrir a partir do que demonstrei. Paranóia? Pode ser. Nunca lidei muito bem com tecnologia virtual. De qualquer forma, esse sentimento já filtrou muitos textos aqui, até mesmo quando digitava impulsivamente. Saber (supostamente) tanto sobre uma pessoa sem nunca tê-la visto antes... Não se trata de um resgate romântico do contato pessoal entre amigos e parentes, mesmo porque isso nunca foi meu forte. Mas conforta saber que ainda posso ser ouvido, seja numa leitura oral de texto ou num desabafo. A exemplo de hoje, foi bom ler a matéria, lembrar do filme Matrix e perguntar "What is the Google?", percebendo toda a brincadeira e pertinência da pergunta sem usar muitas palavras. Apenas na simultaneidade do sorriso e do olhar.

Interferência II

Não sei ao certo a razão de manter um blog. Ensinar e aprender? Conhecer e ser conhecido? Testar ferramentas da blogosfera? Não consigo fazer simples assim. Nunca me concentrei nestas perguntas. Hoje vale a indagação. Aliás, minha mania de questionar em vez de celebrar alguns momentos só me oferta mais perguntas e menos comemorações. Não deve ser bom sinal. Pelo menos ainda sou fiel às minhas idéias. Resta saber as intenções.

Como a internet é de natureza coletiva, procurei saber se outros blogueiros (menos aqueles que lucram nesta condição) se perguntavam o motivo de permanecer postando. Não reconheci tais perguntas nos textos. Na verdade, vi motivos e idéias para continuarem escrevendo ou deixarem tudo pra lá. Muitos ficam meses sem postar ou abandonam o lugar. Enjoaram, perderam as idéias ou arranjaram algo mais divertido pra fazer. Outros procuram saber as novidades da blogosfera, comentam diariamente em vários espaços, testam novos templates, novas ferramentas, indicam outros blogs. Às vezes chegam a me contagiar de vontade. Agradeço por isso. No fim, posso afirmar que não é escrever o meu principal motivo (mesmo não sabendo de todos eles) de continuar navegando por blogs. Ler diferentes textos, diferentes estilos, conhecer e quem sabe aprender com eles. Esta é a principal atração. Embora, comparado ao ano anterior, poucas composições tenham me tocado em 2008, gosto muito da vontade de reler uma postagem. Outra mania: ficar atento aos louros registrados em vez de reparar na expectativa de sucesso de um fato. E, novamente, isso não deve ser bom sinal. Minhas perguntas do início também não devem ser, não pelo caráter delas, mas pela minha confusão diante das respostas.

Não adianta ficar testando equilíbrio e paciência dando voltas em torno do tema. Este blog não é um projeto de vida, não é para liberar o peso da alma através da escrita, não é um canal de notícias de determinada área, como são as razões de alguns blogueiros que leio. Envolve isso, mas vai além. Talvez se entendesse melhor meus próprios motivos, investiria mais aqui ou então abandonaria de vez. Não sei. Ainda resta tempo. Até lá, termino o segundo ano deste blog sem muitas perspectivas, exatamente como começou. Minha vontade de escrever é fogo de palha, mas ainda resiste. Espero me sentir mais à vontade com palavras. Ou pelo menos me sentir mais confortável com as causas que me fazem escrevê-las.

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