Trogdor

Sempre considerei o Congresso Nacional um lugar elegante. As duas conchas, a linha vertical no meio, a aparente simplicidade da construção combinando com a vastidão da Praça dos Três Poderes, tudo agradou minha visão. Encaixou no meu gosto, da mesma forma que o Museu de Arte Contemporânea, em Niterói. Disco voador atraente, belo. Claro que o cenário da praia da Boa Viagem e o Pão de Acúcar ao fundo ajudam a iluminar os olhos. O museu, contudo, é inegavelmente bonito. Não consigo dizer o mesmo do Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. Posso opinar apenas sobre o lado exterior, já que estava fechado no dia. As fotos internas mostram um lugar vasto e belo, deve ser mesmo. Mas o formato de olho do lado de fora me despertou mais curiosidade do que admiração. Até me lembrou outras formas, além do olho humano, o que me fez pensar se Niemeyer ainda é um grande piadista. Já tive essa impressão quando soube o que era o Memorial da Cabanagem, em Belém. Sim, não deixa de ser uma homenagem ao movimento cabano, cuja importância histórica no Brasil nem merece ser colocada em questão. Mas a construção em si...

Lembra um gráfico. Feio. E com o ambiente do bairro do Entroncamento, ficou mais feio ainda. Não bastasse a própria figura, ainda ficou sujo e abandonado durante anos pelo governo e pelo povo. Não há uma placa informando o que é aquilo e o que representa. Quando li a explicação do Niemeyer para o projeto, supus que era tão simples que não pude entender (e me achei muito estúpido). Depois de reler, achei graça:

"... uma inclinação acentuada apontando para um ponto sem fim, representando a história. Terá no meio, uma ‘fratura’. Um pedaço do monumento que jaz no chão, representando a ruptura do processo revolucionário da cabanagem, a sua derrocada. Mas como a cabanagem continua viva na memória do povo paraense, o bloco continuará subindo para o infinito..."

Nunca me soou um esforço de criatividade. E nem falo do fato dele não ter cobrado pelo projeto. Só me pareceu que não teve muita atenção como merecia. Talvez implicância minha. Mas depois de ler no ano passado que ele não se lembrava do tal monumento em Belém, talvez não seja mera implicância. Reconheço que se lembrar de todos os grandes projetos aos 100 anos é querer muito. Mas também sei que, na mesma entrevista, ele demonstrou muita lucidez, citando detalhes de criações passadas, projetos futuros e governos atuais ("Bush é uma merda!").

Por isso, ao ver a escultura de aço inaugurada em Havana ontem, pensei de novo que Niemeyer fez algo nas coxas. Ele é uma das maiores mentes da arquitetura mundial, é comunista e é amigo de Fidel, justificando plenamente as comemorações de Cuba com a imagem metálica do cubano erguendo a bandeira natal "na defesa da soberania contra o monstro imperialista". Vendo a imagem da escultura e lendo o texto, mais uma vez achei graça. Lembrei de um vídeo que assisti, uma montagem de desenhos infantis com a música Trogdor ao fundo.

Não é qualquer coisa extraída da mente de um gênio que pode ser reconhecida como obra-prima. Se Niemeyer sabe disso, não sei. Pode ter sido piada, pode ter sido sério. Ou, simplesmente, pode ser alguma satisfação, na sua poltrona e fumando seu charuto, em ver a repercussão que ainda gera, desde gritos de "Viva el comandante!" até berros de "Trogdooooooor!".

Semelhança

Nota: o texto deveria ter sido postado ontem. Imprevistos, não quis mudar, ficou pra hoje.

Há poucos dias morreram os atores Brad Renfro (a criança de "O Cliente", vítima de overdose de drogas no dia 15, estava com 25 anos) e Luiz Carlos Tourinho (rosto conhecido do humor na Globo, seu aneurisma cerebral rompeu no dia 21, estava com 43 anos). Nunca chamaram a minha atenção antes, é fato. Mas duas mortes repentinas de atores famosos em menos de uma semana não se ignora facilmente.

Depois de ouvir que "o novo Coringa morreu" e confirmar a notícia na internet, a supresa foi forte. Queria falar com alguém que, assim como eu, alimentava a expectativa de ver o Heath Ledger atuando no próximo filme do Batman. Falei com um dos lisos e ele, após me perguntar (e também perguntando a si mesmo) o que deve ter provocado a morte do Ledger, disse que era quase como "um marketing bizarro".

Nem eu e nem ninguém que conheço dava bola para os papéis ou filmes do Ledger até ele ser confirmado para o papel de Coringa em "The Dark Knight". Protestos ridículos pela escolha, principalmente depois dele ter interpretado (com talento reconhecido) o cowboy homossexual de "Brokeback Mountain". Vieram as fotos promocionais e o trailer e o novo Coringa ganhou respeito. Psicopata e insano, tão extravagante quanto perigoso. Todos aguardavam ansiosos o resultado final, sabendo que tanto a recompensa quanto a frustração podem vir em medidas generosas. Geralmente, a tendência é negativa. Mas o que seria da vida se o cinema, a tv, a literatura e outras artes não criassem essa vontade de se ver reconhecido ou de se evadir figurativamente em uma obra?

Os motivos da expectativa para o novo Coringa vão além do fato dele ser antagonista de um provável sucesso de bilheteria, seqüência de um filme que revitalizou nas telas um personagem icônico dos quadrinhos (o alcance que o reconhecimento do símbolo do morcego possui só é comparável ao S do Superman). Batman é um personagem desequilibrado e seus inimigos não ficam atrás. A maioria deles é reflexo de conflitos comuns a muitas pessoas consideradas normais. Claro que tais conflitos são elevados a uma potência muito maior e podem ser retratados de forma exagerada, mas têm fundo na mente humana. Como já escreveu o Alan Moore em A Piada Mortal, "só é preciso um dia ruim para reduzir o mais são dos homens a um lunático". E ele estava se referindo ao Coringa. Ledger, que contava 28 anos de idade, disse que as filmagens do "The Dark Knight" o deixaram exausto a ponto de atrapalhar seu sono, por isso ele começou a tomar o remédio que supostamente o matou ontem (ainda não há conclusões). Semelhança trágica.

Resta conferir nos cinemas se Heath Ledger fez um bom trabalho. E lembrar que, além de cinema e quadrinhos buscarem grandes histórias na realidade humana mesmo com um enredo fantástico, a melhor lembrança de que a vida é real é sua efemeridade. Esteja no fundo como Brad Renfro ou auge como Heath Ledger, um dia ela acaba.

Tea for one

Novamente a memória vence outras idéias e conduz a escrita. Não por nostalgia, remorso, saudade. Talvez uma mistura de tudo isso e além disso. Momentos onde a sua compreensão não é condição para aproveitá-lo. Cabeça baixa, não esperando aprovação, apenas respeito. Mesmo sozinho. E o levantar dos olhos, um dos momentos mais dignos e misteriosos do ser humano, ainda não veio. Não há pressa.

Sentado, braços sobre os joelhos, costas apoiadas na parede suja, no frio da noite. Sem busca de respostas coerentes para agir assim. Se existem, não importam. Muita coisa aconteceu e não houve tempo para refletir. Talvez porque não seja preciso, talvez nem seja recomendado. Mas é impossível não pensar a respeito. É fato assumido e acordado em todos os momentos de solidão tranqüila e pensativa.

A bebida nova é estranha, mas o gosto vai melhorando. Pra não ficar de estômago vazio, uns biscotinhos sem graça. Sensação de calma. Os olhos se levantam. As luzes da cidade parecem um pouco forte demais. Hipnóticas. As costas vão da parede ao chão. A vista, da cidade às estrelas. O copo ao alcance da mão. Por segundos, os olhos se fecham para se lembrar dos momentos de euforia e tristeza dos próximos dias. 'Quanto mais as coisas mudam, mais elas continuam as mesmas'. Mais o mesmo, mais se muda. O ser humano. Especial e atordoado por isso.

Imaginar tal noite descrita num texto de computador não passou pela cabeça. Se passasse, não faria diferença. Nem pessoas fariam, especialmente algumas. O mundo não fazia diferença. Apenas importava a calma, o céu, o copo e os fones nos ouvidos, fazendo aquela música entrar na mente e evocar tanta coisa tempos depois, agora e mais tarde.

Registro

Acordei tarde, mãe brigando pelo atraso, mal tomei banho, não tomei café, peguei o ônibus e, ao descer, fui correndo com todo fôlego possível pra igreja. Ofegante e suado, acabei sendo o primeiro a chegar. Mais tarde, quando os outros apareceram, comentaram sobre eu ser o único a estar usando preto para o batizado, algo não recomendado, principalmente quando se é o padrinho.

Comentário inútil. Fui chamado para ser padrinho da minha prima, que já devia estar com uns 3 anos, e a mãe dela já sabia do meu jeito avoado aos 15. A roupa preta (antes de Tropa de Elite) eu estava começando a usar com freqüência. Não tinha idéias formadas sobre igreja e reuniões familiares, mas algo já não me agradava. Ficava calado. Sorria pouco e não era difícil de ser chamado de bicho-do-mato por parentes. Havia a conversa (mole) de que era o padrinho que cuidaria da criança caso os pais, por algum motivo, não pudessem dar conta. E eu ainda estava levando um intensivão da vida no ensino médio. Por falar em pais, sempre me dei bem com minha tia, mas era moleque e casmurro demais pra ter a famosa relação estreita de confiança que há entre minha mãe e seus irmãos. Por isso são geralmente eles os padrinhos dos sobrinhos. Diretamente óbvio: eu não significava a melhor opção tradicional para ser padrinho. Mas simplesmente a menina gostava de mim, se divertia no meu colo, me achava engraçado, gostava que eu a jogasse pro alto, sei lá.


Nunca dei muito certo com crianças. Não me derreto em sorrisos (admito que recentemente aparecem uns sorrisinhos de gengiva e umas bochechas muito graciosas e infláveis, quero dizer, infalíveis pra dar vontade de apertar) . Minha altura talvez intimide. Se a acho mimada demais, escancaro minha antipatia sem pensar muito. Se estou de mau humor, quase não olho. Nada muito diferente dos adultos. Se a minha afilhada aprensentasse muita frescura, eu não não tratá-la diferente de outras crianças do meu convívio.

Mas acabou saindo um tratamento diferente. Atenção mais apurada. Paciência menor. Quando ela era muito violenta, eu não a ignorava como fazia com outros. Até revidava. Se ela pegava pesado, eu respirava fundo e lembrava que era uma criança. Se continuasse, voltava a respirar fundo e retrucava pesado também. Já valeu imobilização, travesseiro, corda, água... Esquentadinha e inteligente. Um tipo padrão.

Hoje ela faz 11 anos. Cresceu bastante. É mais calma. Já não fica tanto perto das outras crianças. Na última vez que a vi, mostrou um comportamento até adulto, não correndo, ouvindo o Ipod (bem que ela podia me ensinar) sem se exibir, procurando saber o que falta pra levar à mesa de jantar. Me deu vontade de perguntar se ela ainda faz e vende pulseiras artesanais ("a pele dela é delicada?" "ela gosta de amarelo?" "é melhor então essa aqui pra você dar pra ela", sincera, pois a indicação era a mais barata de todas as opções). Quis perguntar se ela ainda tira boas notas, se ela tá gostando da nova casa.

Mas não deu. Ela tava na dela e eu não me senti muito animado pra sair andando atrás só pra puxar papo. Hoje tinha idéias de um post sobre dúvidas, divagações e esses aborrecimentos de ser humano. Mas lembrei dela. E escrevi. Ela não deve ler. Mas, para todos os efeitos, a escrita serve pra isso: registro, ainda que não chegue à referência. Do carinho daqui à leitura de lá.

Natural

Gostaria de não pensar mais nisso. Não adianta. Pelo menos não pensar nos motivos para raciocinar de forma tão crítica em momentos inapropriados. Ser desta forma já não é fácil. Pensar no porquê desta forma é filosofia demais. Não muda nada, só apura o julgamento e empurra tudo em direção ao mal-estar. Descendo a rua, milhares de pessoas usando branco, palcos armados, diferentes tipos de música, bebidas e o clima de alegria, principalmente quando sentia ela apertar a minha mão, sorrindo. Eu sorria de volta. Sentia o frio nas costas e lembrava da garrafa na bolsa.

Era um sorriso sincero. A mesma sinceridade veio quando diminuí o passo e olhei as pessoas, a areia, o mar e as luzes dos navios ancorados não muito longe da costa. Estávamos num ponto mais alto e isso facilitou o isolamento da minha visão. E veio a dúvida. Não sabia se eu me encaixava ali. Investi dinheiro, tempo e energia para estar naquele lugar. Lembrando dos acontecimentos do ano, sempre a sensação de ainda faltar muita coisa. Todos os atos estúpidos e ingênuos cometidos e eu determinado a não repetí-los no próximo ano, mesmo sabendo que eles virão, mais suaves ou piores. A mesma visão buscando erros e mais erros diante daquela multidão branca é a mesma quando vê o texto no computador ou se olha no espelho. A satisfação nunca presente. Todas as trevas e imbecilidades atravessando a mente em milésimos de segundos.

O puxão repentino me fez curvar pra baixo. Perto da boca. Um sussuro, uma sentença, um sorriso. Entreguei os pontos. Não apenas por ela e pela ocasião, como já aconteceu outras vezes. Esses momentos são importantes. Algo diferente desta vez, por mim. Não adianta. É natural. Desanimo rápido, mas não desisto fácil. Não é a meia-noite que mudará isso. Sou assim. Não vou mudar fácil. E não vou ser o mesmo.

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