Evasão

Ainda carregando a pasta preta e suja, balançando algumas garrafas de vinho, da menor pra maior, cantarolando os primeiros versos de "Quase sem querer" enquanto abre um pacote de biscoito de chocolate, pensando na vida e em pessoas e quando uma quer dizer as outras.

No sofá, já sem a pasta e ainda com o biscoito, lembrando de alguns lugares visitados esse ano e de coisas planejadas. E uma vontade grande de reclamar para aqueles que adoram reclamar. E pensando se reclamar muito e se achar muito ajuda a relaxar, mesmo que tudo não seja verdade.

Chamando o elevador, de volta com a pasta e sem o biscoito, apressado e paciente, lembrando os horários dos filmes e das estréias na próxima sexta-feira. Conferindo o mp3 e calculando que horas vai voltar pra casa, torcendo pra não chover, lembrando que mudanças podem ser legais, mas surpresas geralmente não são.

Na loja, feliz com a promoção das trufas de chocolate, gastando cinco em vez de dois reais (surpresas ainda podem ser legais). Sai pro filme. E volta rapidinho pra comprar mais uma trufa, guardando na pasta preta. Pensa no dia seguinte e se desanima, mas logo passa comendo chocolate e vendo os lançamentos na banca, confirmando que algumas coisas sempre funcionam na vida, para o bem e o mal.

No cinema, torcendo pra pipoca de todo mundo acabar logo pra não fazer barulho durante o filme, satisfeito por haver pouca gente na sessão. E de repente, como costumam ser esses momentos, lembranças boas e ruins de pessoas e lugares. E a saudade, o sorriso, as fotos, os suspiros e os clichês antes das luzes se apagarem, fazendo com que durante duas horas o universo seja esquecido e o mundo questionado.

No ônibus e agora, o sentimento do ridículo. E a sensação de que, talvez por isso mesmo, vale a pena.
PS: O filme era "Ultimato Bourne", assistido pela segunda vez. Não foi propriamente o filme que fez esquecer e questionar. Ele foi apenas uma peça do cenário. [em 26/09]

Tartarugante

"Você é o cara mais pessimista que conheço"


"Você é um tanto quanto, digamos, dark..."


"Como sempre, ele criticou" (falando de mim)


"As duas coisas" (resposta que ouvi quando questionei se os pais de hoje estão amolecendo ou eu que sou rigoroso demais)


"Não te vi... tava te procurando nos lugares mais escuros"


"Você gostou mesmo? Nossa, agora fiquei feliz!"


"Já ouvi dizer que você não fala muito"


"Hum...Tá tudo bem? Não precisa responder o que é, só me diz sim ou não"


"Você tá sorridente... tá engraçado" (vendo uma foto minha)

"Isso é papo de Jigsaw" (referência a minhas ponderações em uma conversa)


Frases nos últimos 12 meses. Menção honrosa para o "Ânimo, Igor!" e para "Você é muito bão! Só precisa de mais fé... porra, é uma atéia te falando isso!".

Talvez esteja melhorando. Vontade de ser mais egoísta e pôr muita coisa a perder. Como conclusão, mais tolerância (com os outros) e mais tranqüilidade (tanto que estou escrevendo isso aqui). Ainda quieto, por ora de saco cheio de ouvir as mesmas reclamações, os mesmos tipos de assunto, as mesmas coisas previsíveis, mesmo sabendo que a vida é assim pra ser vida. No limite, há provocação de alguma mudança ou atitude inesperada, geralmente pra pior. O risco de sair da mesmice que assusta todo mundo. É mais fácil merecer um tapa do que um beijo como surpresa.

Certezas: 1- é necessário sempre ter uma válvula de escape pra tudo; 2 - vale a pena se divertir, 3 - nunca duvide da capacidade de ninguém pra estragar qualquer coisa.

"O que temos a temer, além do sol?"

Cassidy é um vampiro irlandês que bebe muita cerveja, fala palavrão demais, só usa roupas velhas e desbotadas e nunca larga os seus óculos escuros. É desbocado e só bebe sangue para regenerar ferimentos graves que tenha sofrido ou para atacar algum desafeto.

Em uma história atualmente nas bancas (Preacher nº2, da editora Pixel), Cassidy encontra outro vampiro. Cabelos compridos, roupas elegantes, capa escura, toma sangue como se fosse vinho e sempre exibe uma relação poética de admiração e melancolia com a vida eterna (ou não-vida).Cassidy é "Garotos Perdidos" e Elmore Leonard. O outro é "Entrevista com Vampiro" e Anne Rice. Punk de um lado, sinfonia gótica de outro. E gosto dos dois. E os dois enjoam.

As coisas vão mudar. Não sei ainda em que escala e velocidade. Outras continuarão, por gosto ou lei. Ainda na comparação, vampiros não morrem, precisam de sangue e proteção do sol. As regras param por aí. O resto é momento. Uns mais longos que outros. E momentos, nesse momento, não precisam de explicação. 

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